Mônica Bandeira de Mello

 

 

O ladrão se utilizou do fato de me conhecer para entrar em minha casa.
Com a simpatia de um bom malandro, conquistou minha confiança e o deixei entrar em meu castelo.
Com o tempo mostrei cada canto de cada cômodo, apresentei todos os meus tesouros e o cobri de tudo que tinha de melhor.
Entreguei segredos nunca antes revelados, confissões e sonhos, comecei a participar e investir em sua vida, queria construir algo maior a seu lado... Criei confiança nas palavras que eram ditas, negava as atitudes contraditórias como quem se agarra a um pedaço de isopor no meio do oceano, "é claro que ele me ama!”
Comecei tirando o pouco de alimento que tinha para ajudá-lo, a construção demanda investimento!
Aos poucos o alimento acabou, mas ainda havia a luz, o combustível, o telefone, meu amor e quanto amor!
Investi, investi tudo! Dei do melhor, dei meu o melhor, coloquei tudo o que tinha de bens e de bom naquele relacionamento. Me dei por inteiro, pus meu castelo em suas mãos!
Quando dei por mim, que abri os olhos, fiquei perdida, assustada; minha casa fora invadida, com minha permissão e ajuda, e quando olhei ao redor, não reconheci mais nada do que ali havia.
Cada cômodo que entrava tudo estava revirado, os meus tesouros levados, o que eu tinha de melhor, destruído.
A casa estava em pedaços, fora toda destruída....
Onde? Cadê?
Sabia que tinha um restinho de força guardado aqui em algum lugar, preciso achar!
Encontrei um pedacinho, é pequeno, mas olha aí, juntando com este pedaço de amor próprio eles se fortalecerão.
Em cada lugar que olho há evidências da sua passagem, impossível não lembrar.
Onde foi parar aquele que dizia amar?
Que eu era o amor de sua vida?
Que vida?
Dizia que cuidaria de mim...
Como? Se tudo me tirou?
Levou tudo para construir um lar, um outro lar o qual eu desconhecia...
Deixou um bem, um tesouro, foi sem querer, aliás, acredito que se ele pudesse voltar no tempo, não teria cometido esta "falha".
Este era um tesouro que queria em outras condições, no lar que está sendo construído na surdina, já faz tempo, muito tempo.
Cada um vivendo seu momento.
O ladrão, pensando nos tesouros que tem que levar para seu novo castelo, se utilizou de todos os meios para isto, e quando não tinha apoio e carinho de sua amada, buscava nos braços de quem o amava verdadeiramente (e de outras mais) para contentar àquela.
Não se deu conta (???) do mal que estava promovendo. Sua atitude envolveu o castelo de outra pessoa, que agora está um escombro!
E que escombro!
Está tudo fora do lugar, não sei o que é de onde.
Como faço para reconstruir?
A energia acabou! Estou no escuro! Ando tateando as coisas para decifrar o que toco. Choro, angústia, desespero, "meu Deus que medo, por favor, por Amor, me ajude a reconstruir"!
Nestas alturas ainda procuro mais da coragem, da força, da garra, do otimismo, sei que tenho tudo isto aqui... mas onde nesta bagunça?
Qual a cola para juntar todos estes cacos?
Sobrou algo inteiro?
Cadê meu pote de sonhos?
E onde foi parar toda minha esperança?
Que angústia!
Que raiva!
Como pude ser tão burra!
Lágrimas, várias poças delas.
Raiva, raiva de mim mesma, raiva dele pela falta de honestidade.
Quis ser sua cúmplice, sabia que ele já estava sendo desonesto com outra pessoa (também), acreditei na possibilidade de ajudá-lo. E pensando bem, ajudei e muito, só não imaginava que era dando apoio ao seu coração partido pela traição que ele havia sofrido e que iria perdoar.
Observei a situação de fora, vi o meu amor se desfazendo por outra pessoa, procurei apoiá-lo para fortalecê-lo e ele voltou para ela.
Mentiu, enganou, me usou, ganhou dinheiro, deu para ela. Eu? Quem sou eu? Eu sou a ruína, não há mais nada que possa tirar. Fui apenas um passatempo temporário, um corpo, alguém onde encontrava forças para continuar. Significado real? Nenhum.
De vez em quando vinha, dava uma olhada, destruía alguma parede que ainda estivesse inteira, jogava pó de esperança e antes de sair assoprava para que ele se esvaísse...
Cuidar...
Amor...
Verdade...
Dor!
Reconstrução!
Tenho que reconstruir, Deus está me estendendo várias mãos, neste ponto somente posso agradecer.
Agora devo me ater ao que importa, aproveitar que tudo foi destruído, limpar o terreno, jogar o que não serve mais fora e construir uma casa. Desta vez uma casa fortificada, paredes grossas, muros altos com cerca elétrica, sistema de alarme, portão duplo e sentinelas de plantão. Preciso encontrar aquele pote de força e coragem...
Tenho que estar com minha casa pronta para a chegada do meu tesouro, meu maior tesouro!
Quero poder passar tudo de bom que se possa imaginar para meu filho.
É uma questão de "ter que" estar bem na sua chegada, ele já está passando por tantas turbulências, um processo de destruição e construção dentre lágrimas, angústias e decepções.
Exemplo, é isto, ensinamos com exemplos e atitudes!
Como poderia ser uma boa mãe, se me sujeitasse e continuasse a ser fraca?
Que exemplo passaria estando com um homem que não me ama e sabendo disso continuasse com ele?
Pior, contribuindo para ele manter outro(s) lar (es) enquanto dentro de casa tudo se acaba?
Com alguém que promete, diz que fará, porém, nunca cumpre, nunca faz?!
Palavras! Palavras! Palavras!
De que valem as palavras se não as utilizamos de maneira a sermos confiáveis pelas ATITUDES?
NADA,
RIEN,
NIENTE,
GARNICHT,
NOTHING!
Quero que meu Filho olhe para mim e veja, sinta que pode confiar plenamente, que saiba que SEMPRE estarei com Ele, ao lado Dele, por Ele!
A melhor maneira de fazer isto? Demonstrando, agindo. E a melhor hora de começar a fazer isto é já.
Continuo procurando entre os escombros, encontrei! O resto de ilusão que tinha que ele fosse capaz de reconhecer seus erros... por suas atitudes ou falta delas. Eis que acho um pedaço de realidade e consciência: "ele tem medo e se acovardou depois de desmascarado, pare de se iludir, ele nunca mudará, continuará fazendo os outros de palhaços, se aproveitando enquanto tiverem algo para oferecer e descartando quando acabar o interesse. E sem qualquer resquício de remorso. Remorso? Xô, ilusão! Ele não sabe o que é."
Olha! Encontrei a raiva junto com a vingança e a inteligência! Contudo a minha consciência é maior, sabe que poderia tomar atitudes irreversíveis, que destruiriam aquele que me destruiu, mas faria um estrago muito maior, em todos os âmbitos todas as portas se fechariam. Mas não. A sabedoria encontrada mostrou que isto ele fará sozinho ou encontrará outra pessoa que o faça!
Ainda tenho muito o que procurar e revirar nos escombros, sei que encontrarei o resto da dignidade, do amor próprio, da honra, da sabedoria, do conhecimento, e tudo de bom que sei que está por aqui, vou usar a Luz da Consciência para encontrar tudo. Assim, quem sabe algum dia encontrarei o perdão?

 


Mônica Bandeira de Mello
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