Joana Rezende Pacheco
 




Há horas em minha vida que sou tomada por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio;
Questiono o porquê de minha existência e nada parece fazer sentido.
Concentro minha atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: AS PERDAS DE NÓS SERES HUMANOS.
Ao nascer, perco o aconchego, a segurança e a proteção do útero.
Estou a partir de então, por minha conta.
Sozinha.
Começo a vida em perda e nela continuo..
Paradoxalmente, no momento em que perco algo, outras possibilidades surgem.
Ao perder o aconchego do útero, ganho os braços do mundo.
Ele me acolhe, me encanta, me assusta, me eleva e tenta destruir.
E continuo a perder e sigo a ganhar .
Perco primeiro a inocência da minha infância; depois a confiança absoluta na mão que segura a minha, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas, porque papai ao meu lado me assegura que não me deixará cair....
E por força de circunstâncias ao perdê-la adquiro a capacidade de questionar.
Por que? Pergunto a tudo e todos.
As respostas das mais variadas não me contam verdades.....
Abro portas para um novo mundo e fecho janelas, irremediavelmente deixadas para trás.
Estou crescendo:
Nascer;
Crescer;
Criançar;
Adolescer;
Envelhecer e morrer
Vou perdendo aos poucos direitos e conquistando outros.
Perco o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo quando algo me é tomado, arrancado contra a minha vontade.
Perco o direito de dizer absolutamente tudo que se passa pela minha cabeça, sem medo de causar melindres.
Receio dar minhas risadas escandalosas da bermuda ridícula do vizinho e constatar ruguinhas em meu pai, minhas tias e puxá-las ou acariciá-las com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto.
Estou crescida e me ensinam que não devo ser tão sincera mais, assim e assado....
E aprendo
E vou adolescendo
Ganho peso, seios, pelos, menstruação, ganho altura, forma ( cintura, coxas e quadris)...ganho o mundo.
E aí começa e vem um grande conflito:
O mundo me parecer inadequado aos meus próprios sonhos, inadequado para um ser como eu...
Ah! Os sonhos....
E vou ser hippie em Visconde de Mauá.
N’uma comunidade alternativa.
Sonho dormindo, acordada.
Sonho o tempo todo.
Aí, de repente, caio na real!
Estou amadurecendo e isto por si só já é um ganho real e alguns já me admiram.
Torno-me meia que equilibrada, contida, ponderada...avisto sofrimentos, pois não aprendi a não questionar...
Perco muito da minha espontaneidade.
Percebo as regras do jogo, as regras do bem viver....
Passo a utilizar o raciocínio, a razão e algumas vezes deixo meu coração de lado.
Mas me pergunto durante todo o tempo: Não é justamente essa a condição que vai me colocar acima(?????) dos outros animais?
A racionalidade, a capacidade de organizar minhas ações de modo lógico e racionalmente planejado?
E continuo amadurecendo...ganho carro novo, o primeiro diploma, um companheiro, um filho.
E infelizmente perco o direito de gargalhar, de andar descalço, de ouvir musica alto, de tomar banho de chuva, de contar as estrelas, apreciar por horas a lua, lamber os dedos e imaginar o tesouro atrás do arco íris e soltar pum sem querer.
Mas perco peso!
Já não pulo mais no pescoço de quem amo e não mais uso o beijo estalado tão de repente!
Mas aperto as mãos de todos, ganho novos amigos, começo a trabalhar, ganho um bom salário, ganho reconhecimento, honrarias, homenagens, placas e titulo de cidadã.
E assim, vou ganhando tempo enquanto envelheço.
Quero ser avó....
De repente percebo que ganho cabelos brancos, algumas marcas de expressão, rugas, algumas dores nas costas, no abdômen...ganho celulite, peso, cabelos caem mais.
E acabo dando conta que perdi também algum brilho no olhar, esqueci alguns sonhos, deixei de sorrir, perdi muito de esperança.
Estou envelhecendo.
E não posso deixar para fazer algo quando eu estiver morrendo.
Afinal, quem me garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão, que nos dá todos os dias, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas , o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando , que a primavera chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.
Que eu cresça e não envelheça simplesmente.
Que venham as dores , mas que não calcifique meu coração.
Que eu tenha dores nas costas e alguém para massageá-las.
Que eu tenha rugas e boas lembranças, que eu tenha juízo, mas que mantenha o bom humor e um pouco de ousadia.
Deus, que eu seja racional, mas que eu continue a sonhar....
Eu necessito de sonhos...
E principalmente que eu não diga apenas eu te amo, mas aja de modo que aqueles quem amo sintam-se amados.
Afinal, o que é o tempo?
Nada, não é nada em relação ao que posso viver ganhando e perdendo, pois sou militante da vida.
 

 

 

Joana Rezende Pacheco

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