Casemiro de Abreu
 


Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores!

Ah minha infância saudosa
Que me mostravas à mente,
Nesse viver inocente,
Tão verdejante e florida,
A longa estrada da vida,
Que é toda, tão escabrosa!
E eu, inexperta criança,
Que tinha fé no porvir,
Por ver o mar em bonança
E minha mãe a sorrir! ...
E julguei que era verdade!
E acreditava nos sonhos
Feiticeiros e risonhos!...
Ilusões da mocidade
Cheias de terna magia,
Nascem douradas e belas
Como o fulgor das estrelas...
E morrem no mesmo dia!...

Sonhei que o mundo era um prado
Lindo, lindo, matizado
Das flores do meu jardim;
Sonhei a vida uma estrada
De gozos entrelaçada,
De gozos que não têm fim.

Esses sonhos de magia
Criei-os na fantasia
À meiga luz do luar,
E quando conta segredos
Na rama dos arvoredos
A brisa que beija o mar.

Sonhei-os assim brilhantes
Naqueles doces instantes
De silencia e de oração;
Quando as estrelas seduzem
E quando os lábios traduzem
As vozes do coração.

Sobre o peito reclinada
Eu tinha a fronte inspirada
Duma formosa mulher,
E fraco um raio da lua
Beijando-lhe a face nua
Dava-lhe brilho e poder.

De certo a lua serena
Um rosto como o de Helena
Nunca, nunca iluminou;
E nunca ouvirei na vida
Voz mais terna e mais sentida
Dizer-me: Sou tua, sou!

Numa noite mui fagueira,
Como visão prazenteira,
Por entre beijos de amor
Eu vi surgir uma estrela
Linda, linda, muito bela,
Com doce e meigo fulgor.

Na perdida fantasia,
De luz, de amor, de alegria
Abrilhantarei o porvir;
E segui, qual mariposa
Aquela chama formosa,
Que via ao longe luzir!

III
Mentira, tudo mentira!
Os meus sonhos... ilusões!
As cordas da minha lira
Já não soletram canções,
A mente já não delira,
E se louco num momento
Revolvo no pensamento
Esse passado de amores...
Se triste o peito suspira...
Eu ouço um eco da terra
Bradar-me com voz que aterra:
— Mentira, tudo mentira!

Foram sonhos. Eram lindos,
Eram lindos... mas passaram!
E desses sonhos já findos
Só lembranças me ficaram.
Só lembranças bem saudosas
Dessas noites tão formosas
Em que os sonhos despertaram,
Só lembranças desses sonhos,
Desses sonhos que passaram!...

Hoje vivo, se é que é vida
Andar com a fronte pendida
Calado e triste a cismar;
E nessa imensa tristeza,
Nessas horas de incerteza
Em que adormece o luar,
Em que toda a natureza
E' silêncio, amor e paz,
Eu sinto a alma saudosa
Perguntar com voz queixosa:
- Lindos sonhos, onde estais?!
Então um eco medonho
Responde por cada sonho
C'um gemido... e nada mais!

A minha sina cumpriu-se,
A sina que Deus me deu,
O eco responde triste:
A linda estrela – sumiu-se!
A tua Helena - morreu!


Casemiro de Abreu


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