Ivan Jubert Guimarães
 


Mãe, está chegando seu dia e mil lembranças vêm à minha cabeça. Quase ninguém acredita quando eu falo que minha primeira lembrança da vida era de quando eu ainda era um bebê, ou pouco mais do que isso. Eu estava em seu colo e chorava bastante, mas não sei o motivo. Era noite e chovia bastante e a senhora andava comigo para lá e para cá tentando fazer com que eu parasse de chorar. O pai ainda não tinha chegado do trabalho e a senhora parecia aflita, talvez com medo daquela chuva forte que caía. Acho que morávamos em Tupã.


Lembro de tantas coisas mãe e tenho a certeza de que a senhora não se lembra da maior parte delas. Lembro de que quando eu tinha cinco anos, a senhora me levava para tirar fotografias na Avenida Indianópolis. A senhora me vestia com calça curta, suspensórios e gravatinha borboleta. Cabelo penteado, e eu me sentia um idiota. Hoje gostaria tanto de ver essas fotos, mas sumiram. Aliás, quase não tenho fotos de minha infância e nem da juventude. E eram tantas!


Lembro de uma vez que a senhora foi procurar um emprego e na volta me trouxe um carrinho de corda, luxo naquele tempo, e na primeira vez que o pus em movimento ele bateu na parede e se quebrou. Fiquei muito triste e percebi também a tristeza em seus olhos. Essa passagem nunca saiu de minha mente.


Meu aniversário de seis anos foi talvez o mais marcante de toda a minha vida. Só estávamos nós dois. O pai tinha dois empregos, trabalhava durante o dia no banco e à noite numa gráfica. Comemoramos meu aniversário com um bolo pequeno que a senhora fez em uma forma que me parecia ser uma lata de cera e cantamos os parabéns ouvindo a hora da Ave-Maria no rádio. Não tínhamos televisão naquele tempo.


Passamos por muitas dificuldades em nossas vidas e até algumas humilhações quando o pai ficou doente, mas sentir tua mão segurando a minha sempre me deu proteção e segurança.
Já na adolescência tivemos momentos de grande prosperidade e aproveitamos muito a vida sempre eu, a senhora e o pai. Ele gostava de bancar o Papai Noel e nos natais lotava o carro de presentes e saíamos todos para fazer a entrega para todos os tios e primos. E suas bodas então, de 15 anos, que festa maravilhosa nós demos em casa. Foi quando aprendi a dançar.


Mas um dia, o mundo desabou sobre nós né mãe? O pai perdeu tudo e ficamos numa miséria danada, sem ter onde morar, cada um de nós na casa de alguém e o pai morando em um estacionamento. Todas suas jóias foram penhoradas e nunca houve dinheiro para resgatá-las e a senhora sempre fazendo de tudo para que nunca me faltasse nada.


Lembro de uma manhã quando estava no exército fazendo ordem unida e avistei a senhora e o pai no portão do quartel com uma sacolinha na mão. A senhora estava me levando refrigerantes, biscoitos e doces. Apesar da vergonha que senti diante das gozações de meus amigos, senti todo seu carinho em cada doce que comi, em cada biscoito e em cada gole de refrigerante, pois já entendia que aquilo tinha exigido um pouco de sacrifício de vocês dois.
Ah mãe! Quantas oportunidades a senhora me deu para que eu dissesse todos os dias que a amava, mas eu sempre dava só um “oi mãe”.


Lembro-me de que quando meu filho nasceu, a senhora sempre ia com o pai levar presentes para ele, até que um dia o pai teve um derrame e nossas vidas sofreram um novo baque, principalmente a sua. De novo uma mudança forçada, embora fosse morar em minha casa, mas não era sua casa. De novo a dependência e a perda da liberdade, não que tivéssemos imposto regras. Não! Mas entendo que nunca é a mesma coisa que ter seu próprio teto.
Você sofreu bastante mãe, mas em nenhum momento se queixou ou me abandonou e até hoje, já velhinha, está sempre disposta a tomar conta de mim.


Ao contrário do que possa parecer, eu tornei-me um homem de princípios e aprendi a conviver com as perdas materiais graças a sua garra de nunca ter-se abatido pela perda da casa, dos carros e das jóias. Você me fez descobrir que a vida possuía outros valores muito mais valiosos do que tudo aquilo.


Quando o pai morreu, eu me lembro de sua voz chorosa me contando, eu tinha recebido a notícia em um cliente e liguei para casa e a senhora atendeu e conseguiu dizer apenas: “filho, seu pai morreu!” Nesse dia eu entendi o quanto a senhora o amava apesar de tanta dor que ele lhe causou.


A senhora teve sempre o poder de se adaptar às situações mais adversas. Moramos em cada lugar né? Acostumados ao luxo, de repente nos víamos morando em um quarto e sala mas a senhora nunca perdeu a coragem e isso me fazia ver que eu também não deveria perdê-la.
Seus mimos me transformaram num homem de bem e sempre reconheci seu amor por mim embora quase nunca eu tenha retribuído isso com palavras.


Houve uma vez em que escrevi uma mensagem de Natal representada por uma carta a Papai Noel e nela eu pedia que ele me ajudasse a entender meus pais, mas acho que demorei muito para aprender a lição. O pai se foi antes que eu pudesse entendê-lo, mas você mãe, você não, você está dentro do meu coração e mesmo quando temos nossas diferenças saiba que eu te amo muito e tenho um orgulho muito grande em ser seu filho.


Obrigado por tudo mãe!
 

 


Ivan Jubert Guimarães


Direitos reservados ao autor