Ivan Jubert Guimarães

08/03/2009
 


REQUIEM AETERNAM DONA EIS
“Dai-lhes o repouso eterno”
 


Minha mãe gostava muito de ficar à janela de seu quarto ou então na área de serviço do apartamento onde morávamos. E lá ela ficava longos minutos simplesmente olhando para o céu. Ela gostava muito de olhar para o céu. É como se uma saudade nostálgica a fizesse lembrar-se de sua verdadeira casa.
(Eu abro parênteses agora, pois estava ali lá capela e tem uma Bíblia aberta lá. Fui vê-la e li o seguinte: “O Tesouro no céu – Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde as traças e os vermes arruínam tudo, onde os ladrões arrombam as paredes para roubar. Mas acumulai para vós tesouros no céu, onde nem as traças nem os vermes arruínam, onde os ladrões não arrombam nem roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração”).
Nessa hora acho que ela obedecia a um pedido de Jesus quando falou: “Olhai as aves do céu”. E no pequeno espaço de que dispunha, ela olhava as aves do céu. Quando eu perguntava o que ela estava fazendo ela simplesmente me dizia que estava olhando para o céu. Hoje, com certeza ela não precisa olhar mais para cima para ver o céu.
Os últimos anos de sua vida não foram alegres, mas minha mãe sempre foi alegre, talvez não feliz, mas alegre. Eu me lembro de quando minha avó morreu e todos fazendo aquela cara de consternação e ela entrou na sala e falando alto disse: “Vamos mudar essa cara de enterro que não morreu ninguém”.
Na época eu não entendia essas coisas de vida e morte da maneira como eu vejo hoje, mas sei que minha mãe nunca gostou muito dessa coisa de velório e de enterro.
Quando ela foi internada na UTI, mil pensamentos passaram por minha cabeça e até escrevi uma mensagem chamada “Mamãe Querida” onde exaltei a atitude de uma mulher que sempre escolheu a profissão de mãe. Ficou presa a isso, é verdade. Para ela a vida se resumia a tomar conta de mim e a cuidar de meus filhos. Quantas vezes eu não brigava com ela dizendo que eu não era mais criança, que eu sabia me virar sozinho.
Sempre tive dificuldades em saber a religião de minha mãe, pois ela assistia missas pela televisão, programas evangélicos (todos) e quase não perdia a missa do Padre Marcelo nas manhãs de domingo. E houve tempo em que nós dois fazíamos o Evangelho no Lar. E a cada vez que fazíamos isso, eu era transportado para o meu aniversário de 6 anos, quando nossa situação era difícil e meu pai precisa de dois empregos e meu aniversário foi comemorado sem festas, sem presentes, com ela e eu ajoelhados diante do nosso velho rádio Telefunken ouvindo e rezando a missa das seis horas da tarde.
Minha mãe gostava de cantar nos tempos em que eu era criança e uma das canções que às vezes cantávamos juntos, alguns de vocês já sabem, chamava-se “Mamãe” e era cantada por Ângela Maria e João Dias.
Nas vezes em que eu ia visitá-la no hospital eu cantarola baixinho para ela e nos meus banhos solitários eu soltava um pouco mais a voz desafinada. Quem souber e quiser acompanhar que o faça:



Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vive mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar,
Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu.
Mamãe, mamãe, mamãe,
Tu és a razão dos meus dias,
Tu és feita de amor e esperança,
Ai, ai, ai mamãe,
Eu cresci o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança.
Mamãe, mamãe, mamãe,
Eu te lembro o chinelo na mão,
O avental todo sujo de ovo,
Se eu pudesse eu queria outra vez mamãe
Começar tudo, tudo de novo!
 


Claro que isso não será preciso, começar tudo de novo, pois estamos aqui neste planeta para que possamos aprender e evoluir.
Cristo nos disse que a casa do Pai tem muitas moradas e nas vezes em que minha mãe ficava olhando para o céu, quem sabe ela não teria vislumbrado algumas dessas moradas?
Cristo disse que ele era o caminho, a luz e a vida e que “aquele que crê em mim não morrerá jamais”. Nossa querida Mimi não morreu, portanto, porque acreditava nas palavras de Cristo, a quem chamava apenas de Jesus.
Cristo disse também que ninguém chega ao Pai se não for através dele, mas ao mesmo tempo ele nos ensinou a falar direto com o Pai através da oração do Pai Nosso.
Hoje faço essa oração com algumas modificações, pois fui me acostumando a falar com Deus e com Cristo de uma maneira muito mais íntima e sem formalidades. Peço que me acompanhem apenas com seus pensamentos:
 


Pai amado que estás nos céus,
Santificado seja o teu nome
Vem a mim o teu reino
Seja feita a tua vontade
Aqui na Terra como no Céu.

Dá-me o pão de cada dia Senhor
E perdoa as minhas ofensas
Na medida em que eu perdoar aqueles que me ofendem
E seu eu cair em tentação
Dá-me a fortaleza para me livrar dela
E livra-me do mal
Porque teu é o reino, o poder e a glória para todo o sempre!
 


Senhor recebe o espírito de minha mãe em teu reino, acolhe-a, livre-a de todo o sofrimento e que ela possa entender que está em uma nova morada agora.
Eu peço a todos os que a conheceram que pensem nela por um minuto, naquilo que ela foi em vida e peço encarecidamente, parafraseando Edward Kennedy quando da morte de seu irmão Bob que minha mãe não seja engrandecida e enaltecida na morte, além das qualidades morais que teve em vida.
Gastem o seu minuto lembrando-se dela.
Agora, todos juntos, oremos:
 


Ave-Maria cheia de graça
O senhor é convosco
Bendita sois vós
Entre as Mulheres
E bendito é o fruto de vosso ventre
Jesus!

Santa Maria, mãe de Jesus,
Rogai por nós os pecadores,
Agora na hora de nossa morte,
Amém!
 


Morte. O que é isso? Cassiano Ricardo escreveu um poema chamado Relógio, onde diz:
 


Diante de coisa tão doida
Conservemo-nos serenos
Cada minuto de vida
Nunca é mais, é sempre menos.
Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser.
Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.
 


Sabe mãe, eu sinto que estás aqui por perto e eu queria dizer-lhe muito mais coisas, aquelas
coisas que não deu tempo para dizer, mas muitas vezes as palavras engasgam em minha garganta, então eu prefiro fazer assim:
 


Eu tenho tanto
Pra lhe falar
Mas com palavras
Não sei dizer
Como é grande
O meu amor
Por você.
E não há nada
Pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você.

Nem mesmo o céu,
Ou as estrelas,
Nem mesmo o mar
E o infinito
Não é maior
Que o meu amor
Nem mais bonito.
Me desespero
A procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande
O meu amor por você!

Nunca se esqueça
Nem um segundo
Que eu tenho o amor
Maior do mundo
Como é grande
O meu amor por você!
Mas como é grande,
O meu amor
Por você!
 


E, numa última homenagem mãezinha querida, eu gostaria de ler um poema canção de um poeta-cantor que
talvez você nem tenha conhecido ou ouvido falar: Oswaldo Montenegro.
 


Metade
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.