30/03/2011



Não sou mineiro, sou um paulista que ama as Minas Gerais. Talvez eu tenha sido um bandeirante que passou por aquelas terras muito antigamente. Talvez eu tenha sido até, desculpem a imodéstia, um inconfidente mineiro.


Minas Gerais deveria ter sido a capital do Brasil. Era de lá que saiam para Portugal as maiores riquezas, ouro e diamantes. E foi de lá que saíram os grandes nomes da política brasileira, como Tiradentes, Juscelino, Tancredo e José Alencar. Curiosamente, todos tiveram uma morte trágica, enforcamento, acidente planejado, e doenças com muitas cirurgias, o que é sempre uma tragédia.


Vendo o cortejo do corpo de José Alencar, lembrei-me do cortejo do corpo de Tancredo Neves. Eu estava lá e chorei porque vi uma massa popular chorando e aplaudindo. Com José Alencar foi diferente, foi um cortejo sem desfile, tranquilo como tranquilo sempre foi o homem José Alencar.


A tranqüilidade que demonstrou na política talvez seja fruto de quem entrou muito tarde e, assim, não deu espaço para os corruptores.


Foi  senador e por duas vezes vice-presidente do país. Ninguém vota no vice, mas Alencar aceitou ser vice-presidente para continuar prestando serviço a seu país. Servir foi o seu lema. Criticar, o seu dever.


O homem que passou por 13 cirurgias para uma interminável luta contra o câncer, dizia que não era herói, é que ele não tinha outra opção.


Para quem já passou por coisas parecidas fica fácil de entender que não foi um ato de heroísmo. Heroísmo foi não desistir da luta. Heroísmo foi amar a vida, foi dizer que não temia a morte, mas temia a desonra.


Comparado com outros políticos que um dia irão morrer, existe uma diferença: quantos deles poderão dizer que temem a desonra, já que deixaram a honra para trás há muito tempo?


O que mais me impressionou em José Alencar não foi sua luta contra a doença, foi o seu jeito mineiro de aparecer sempre sorrindo nas fotos e nas imagens das televisões, esbanjando otimismo.


O câncer não derrotou Alencar. Alencar perdeu para o cansaço.


Alencar despediu-se da vida, mas não da história. Quem sabe, lá em outro plano, ele se junte a Juscelino, a Tancredo e a Tiradentes e organizem uma nova conjuração mineira para, enfim, por ordem neste Brasil.


Oh Minas Gerais, oh Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais, oh Minas Gerais!

 


Ivan Jubert Guimarães


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Musica: Hino de Minhas Gerais - Renato Teixeira