Ivan Jubert Guimarães
13/06/2011
 

 

 

     Nos meus tempos de menino, no bairro de Vila Clementino, em São Paulo, costumávamos jogar futebol de rua. Eu morava na Rua Leandro Dupret em um trecho de descida e era lá que fazíamos nosso campinho de futebol.

     A escolha dos times se dava na base do par ou ímpar e sempre dava um bom jogo de bola. Nosso “gramado” era uma rua de paralelepípedo e o gol era demarcado por pedras ou qualquer outra coisa achada na rua.

     Certa vez, apareceu por lá um garotinho que foi convidado a compor um dos times que estava com um jogador a menos. Ninguém botou muita fé naquele pirralho escurinho.

     Corríamos para cima e para baixo em nosso “campinho” e ninguém passava a bola para o moleque. Mas sabe como é futebol de rua, a bola bate na sarjeta e volta nos pés daquele moleque. Aí foi um Deus nos acuda! O garoto driblava todo mundo e ninguém conseguia tirar a bola de seus pés. Naquele jogo, ele marcou muitos gols, não sei quantos. Só sei que dali em diante, ele era sempre o primeiro a ser escolhido no par ou ímpar.

     Eu quase sempre jogava contra ele e, felizmente, não era todos os dias que ele aparecia por lá. Mas dava gosto ver aquele moleque fazer com os pés os malabarismos que fazia com a bola.

     À medida que fomos crescendo o futebol de rua foi acabando e nunca mais vi o menino Adão.

    O tempo passou, eu cresci e me tornei adulto e um belo dia aquele moleque tornou-se jogador profissional do Corinthians e revelou-se um craque do futebol. Seu azar é que o titular do time chamava-se Rivelino, mas Adãozinho jogou muitas vezes ao seu lado.

     Lembro-me de um jogo contra o Palmeiras no qual o primeiro tempo acabou com o Corinthians perdendo por dois a zero. No segundo tempo o técnico colocou Adãozinho em campo e o garoto estraçalhou. O Corinthians ganhou aquele jogo e os torcedores viram um dos mais belos gols marcados no estádio, justamente pelo menino Adão, num chute de fora da área.

     Adãozinho estava no time do Corinthians que foi campeão em 1977, após um jejum de 23 anos. Não me lembro porque parou de jogar no Corinthians e em quando.

     Passaram-se mais de 30 anos e voltei à Vila Clementino, onde faço um trabalho voluntário em uma associação de pacientes transplantados renais.

     Um dia, ao pegar um táxi no ponto tornei a ver Adãozinho. A partir dali, conversávamos de vez em quando ou apenas trocávamos cumprimentos. Soube que Adão era um paciente renal crônico devido ao diabetes. Dias depois, soube que estava internado no hospital.

     Hoje, ao ler os jornais, a triste notícia: Adãozinho não conseguiu driblar a morte.

 


Ivan Jubert Guimarães

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