Ivan Jubert Guimarães
19/01/2012
 
 
            Essa menina que no início também cantava com os braços nunca teve vergonha de dizer que começou sua carreira imitando Ângela Maria. Passou por programas de calouros, cantou boleros até foi levada para as alturas por um arrastão, arrastão que ela viu e pediu que os outros o vissem entrar num mar sem fim.
 
            A menina cresceu e fez crescer muitos compositores da música popular brasileira. Lançou compositores fantásticos, Gil, Belchior, Ivan Lins, Milton Nascimento e muitos outros, muitos mesmo.
 
            A mulher Elis encantou o mundo com sua voz. Ela sonhou o sonho mais lindo, ergueu um castelo de mil quimeras. Sonhou com a volta do irmão do Henfil equilibrando-se sobre uma corda bamba de uma ditadura.
 
            Chorou atrás da porta, pediu que o Brasil cantasse, cantou Adoniran, cantou Roberto Carlos, cantou Piaf. Ela deitou e rolou por esse Brasil brasileiro, e falava com a negra do cabelo duro, com o menino das laranjas, com o mestre sala dos mares. Não tinha tempo ruim para ela. Todo mundo lhe era igual. Brigava com outras cantoras, mas dizia que quando não era ela, era Nara Leão.
 
            Quando Jair Rodrigues cantava "Se alguém perguntar por mim..." ela emendava "que é que eu digo Jair?" e Jair respondia "diz que fui por aí".
 
            Ela andou num trem azul, fez uma travessia enorme, usou um falso brilhante, se embriagou com uísque e guaraná e usou um band-aid no calcanhar.
 
            É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, um toco sozinho. E ela era assim mesmo, era pedra, briguenta e amorosa e Vinicius lhe fez uma linda poesia com uma única palavra: pimentinha.
 
            Era a cantora preferida da maior parte dos compositores brasileiros, desceu as curvas da estrada de Santos, andou sobre um cavalo numa romaria que nunca tinha fim. Ela queria uma casa no campo para esticar uma rede, ela que criticou tanto os mais velhos um dia reconheceu que todos nós éramos como nossos pais.
 
            Um dia ela disse que era uma estrela, era tão grande que já não cabia mais aqui neste planeta. Tornou-se uma estrela de primeira grandeza, que mesmo após 30 anos de ausência ainda brilha no firmamento.
 
            Se um dia resolverem fazer um filme sobre ela, não vai haver atriz que possa ganhar o papel, afinal, parafraseando Elizabeth Taylor, ninguém pode ser Elis Regina.
 
 
 
Ivan Jubert Guimarães
 
 
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