Regina Coeli
 

Ao ver-te, folha, pelo chão caída,
Seca, tristonha, dando à Vida adeus,
Eu afaguei todos os outonos meus...
... Também sou folha que já vê a partida!

Dourada e bela nos verões curtida,
Mas nos invernos de tão frios breus,
Quem sabe as flores percebessem os teus
Últimos tons na primavera ida?

Agora sós, e a vaguear ao léu,
Somos passado sem qualquer porvir,
Contando estrelas no eternal do céu...

E olhando a lua, sempre a refulgir,
Perene e linda e com olhar de mel,
Por que nós duas temos que partir?...
 


Rio de Janeiro/RJ, 22 de março de 2012.
 

 

 

 

Cleide Canton
 

"Por que nós duas temos que partir"
se após o inverno volta a primavera
e não será tão longa a nossa espera
por novas folhas vivas que hão de vir?

Se houve o ontem, o hoje é um porvir,
pois cada instante é circunstância mera,
acrescentando à fala mais sincera
um nobre tom que nos fará sorrir,

mesmo que sejam poucos os momentos
das explosões de belos sentimentos,
enquanto as folhas tendem a cair...

Talvez o chão as beije com carinho
e as aproveite para um novo ninho
onde outra rosa viva há de florir.
 


S.Carlos, 23/03/2012
10:39 horas
 

 

Regina Coeli
 

"Onde outra rosa viva há de florir"...
Que seja, então, a minha despedida
Por entre as folhas que largaram a vida,
Abrindo à rosa espaço pra existir...

Sumido o viço, possa eu ressurgir
Nos tons da linda rosa concebida
Para enfeitar e perfumar a lida,
Chamando um novo sol pro meu porvir.

E nos verões, invernos, primaveras,
Bocejarei meu derradeiro sono
E sonharei as últimas esperas...

Quando acordar, serei a flor de qualquer dono,
Com folhas a envergar paixões, quimeras,
Deixando-se cair de amor no outono...
 


Rio de Janeiro/RJ, 23 de março de 2012.

 

 

Cleide Canton
 

"Deixando-se cair de amor no outono"
a rosa, que soltou os seus condões,
sempre bela será, sem contrições,
e jamais será flor de qualquer dono.

Reluzente entre as damas e varões,
ilesa das angústias do abandono,
sorrirá da grandeza do seu trono
e eterna se fará nos corações.

Outonos, apesar das folhas mortas,
bem longe passarão das suas portas
blindadas pelo timbre do perdão.

E a rosa que serviu tantos amores
brindará, entre as folhas e outras flores,
a magia que adorna a criação.
 


S.Carlos, 24/03/2012
11:25 horas
 

 

 

Regina Coeli


"A magia que adorna a criação"
Envolve em tons a Vida esfuziante,
Sempre tão bela em cada seu instante,
Não lhe importando o nome da estação.

Se a rosa louvo e canto em oração
Por ser perfeita e, em pétalas, fragrante,
Também eu sei... seu tom apaixonante
Vai esmaecendo até no coração...

Ter sido eu rosa nos verões dourados
E ter-me aberto em intensas primaveras,
Foi só um brilhar entre mil tons mesclados...

Mas ser qual rosa, fênix em quimeras
De invernos e de outonos desbotados,
Ah, ri-se a sábia rosa e diz: "Quiseras!..."
 


Rio de Janeiro/RJ, 25 de março de 2012.

 

 

Cleide Canton


"Ah, ri-se a sábia rosa e diz: "Quiseras!..."
em noites onde tarda uma esperança
tão clara nos sorrisos de criança,
tão pouca quando morrem as quimeras.

E, sábio, o tempo mostra as novas eras
fazendo com os céus outra aliança...
O outono finda e torna-se lembrança
nos frios a antecederem primaveras.

Verões reproduzidos em dourado
nas páginas do livro amarelado
serão a fonte pura da poesia.

E a rosa deslumbrante há de viver
na candura de um novo amanhecer
dançando em sua eterna fantasia.
 


S.Carlos, 26/03/2012
20:00 horas

 

 

Regina Coeli

"Dançando em sua eterna fantasia",
Assim se iludirá a meiga rosa
E ainda que caída há de ser prosa
Fazendo de uma queda poesia!

E se fustiga um novo e triste dia
Com ventos a deter a brisa airosa,
A espera é joia mais do que preciosa
Florindo o rico chão de uma alforria...

Se as folhas vão caindo pelo chão,
Sempre voltando verdes e mais lindas,
Que seja o outono a minha inspiração

E caiam folhas dos cruéis aindas
Pra ser adubo à cálida emoção
De o verso ver chorar rimas infindas...
 


Rio de Janeiro/RJ, 27 de março de 2012.
 

 

 

Cleide Canton

"De o verso ver chorar rimas infindas"
rendeu-se ao canto doce da roseira
no afago dessa nuvem passageira
que limpa os céus dos teus "cruéis aindas".

E as ternas rimas só serão bem-vindas,
se ao lado da ilusão, já tão faceira,
o amor brilhar na estrela feiticeira
entre as demais, as quais também tu brindas.

Outonos, mensageiros de tristezas,
invadem tantas almas de incertezas
que hão de morrer no sol de outro verão.

Em meigas e nostálgicas poesias,
debandam-se do altar as alegrias
na busca de outro ninho em construção.
 


S. Carlos,27/03/2012
12:20 horas
 

 

Regina Coeli

"Na busca de outro ninho em construção,
Entendo em mim o verso mais sentido,
Percebo o até então despercebido,
Que o outono é da Vida uma estação.

Nele se guardam forças para a ação
De rebrotar o que se fez vencido,
Gasto, surrado e tão descolorido,
Que o tempo decretou: renovação!

Em viagem pelos anos, rasgo as horas
Que, sei, o outono vai amarelando
Os viços decantados nos outroras...

Hoje sou verso e a rima burilando
No rubro amor da rosa em meus agoras,
No versejar do outono em novo quando.
 


Rio de Janeiro/RJ, 27 de março de 2012.
 

 

 

 

Cleide Canton

"No versejar do outono em novo quando",
agoras são perenes, imortais,
em prosas que se tornam desiguais,
latentes em quem sente e vive amando.

E tecem melodias já buscando
os tons e semitons angelicais
que acalmam ironias outonais...
Devolvem a ternura ao seu comando.

Sinal de uma estação em harmonia
que vibra ao despontar de um novo dia
sereno na penumbra do luar.

As tantas emoções acumuladas
aguardam para serem relembradas
em versos qu'inda sonham transbordar.
 


S. Carlos,28/03/2012
12:14 horas
 

 

Regina Coeli

"Em versos qu'inda sonham transbordar"
Crepúsculos do amor que é eternal,
As rimas vou vestir de um outonal
Suave como um raio de luar...

Acenderei a estrofe pra brilhar
O verso encanecido e sazonal
Deitado sobre as folhas no quintal
No aguardo de sentir para rimar...

As folhas catarei suavemente
Já prenhes dos meus versos redentores
Pra encher de cor e amor a toda a gente.

E as soltarei ao som de mil louvores
Sobre a tarde de outono reluzente
Como se fossem pétalas de flores!
 


Rio de Janeiro/RJ, 28 de março de 2012.
 

 

 

 

Cleide Canton

"Como se fossem pétalas de flores",
as folhas cobrirão de cor o chão
por onde muitos versos passarão,
na espera de espargir os seus olores.

Por que não, até os pássaros tenores,
nos galhos já despidos acharão
os restos ainda mornos do verão
que viu nascer em chamas mil amores.

Em bando seguirão a liderança
buscando no horizonte de esperança
um sonho que na sombra se perdeu.

As folhas outonais não mais sentidas
trarão de volta as frases coloridas
nas rimas que o poeta concebeu.


S.Carlos, 29/03/2012
1:30 horas
 

 

 

Regina Coeli

"Nas rimas que o poeta concebeu",
A Vida são as folhas da ilusão
Presas nos galhos ou caindo ao chão,
Viagem que o olhar despercebeu.

Em dias de tristeza ou de apogeu,
O verso chora todo em emoção
E, sabe, muito poucos o lerão,
Qual folha que caiu, e se perdeu...

Floridas ou doídas as estações,
O verso tão saudoso do passado,
Voa seu hoje em tons e sobretons

E cai em outono, inútil, desprezado,
Abraçado a um poeta sem paixões,
sem ver um verbo seu ser declamado...

Rio de Janeiro/RJ, 29 de março de 2012.
 

 

 

Cleide Canton

"Sem ver um verbo seu ser declamado"
após tanto doar-se em harmonia,
o verso sente a morte a cada dia,
amando sem ter nunca sido amado.

O vento, ao ver em cinzas o gramado
cujo verde em bons tempos lhe sorria,
ainda tenta soprar-lhe a galhardia
que o deixou tão brilhante no passado.

O poeta, cantador dos sentimentos,
envolvido na trama dos momentos,
sente a dor da ramagem em partida.

Chora então, pena ao lado, sem ação,
na amargura a tomar-lhe o coração
"Ao ver-te, folha, pelo chão caída".

S. Carlos,30/03/2012
12:00 horas

 

 

 

 

Midi: Outono - Djavan - Instrumental