Amigos Pares
Amigos leitores
Amigos simplesmente
 

 

O prazer a que nos leva a escrita, a criação, não se confunde com o prazer da leitura.
O primeiro, onde cada qual se esmera para produzir o melhor,é um parto onde a espera provoca uma ansiedade maior, uma preocupação com o resultado que compense e que se possa dizer: Brotou!
O prazer da leitura é aquele que sentimos ao receber um presente que pode ser grande, pequeno ou mesmo nenhum,
dependendo do gosto de cada leitor.
Agradar não é tarefa fácil e o criador de qualquer obra sabe muito bem disso, apesar do seu esmero e da sua dedicação.
Regina Coeli e eu encontramos muito prazer em escrever em parceria e vibramos quando podemos dizer: Brotou!
E brotou "Fragmentos", uma troca de visões diferentes, mas convergentes.
Hoje estamos dando um laço no presente que oferecemos a vocês com muito carinho e sem pretensão alguma, a não ser a "vontade" de agradá-los, antecipadamente agradecendo a sua leitura.

 

Regina Coeli e Cleide Canton
Setembro de 2013

 

 

 

Regina Coeli

Não mais que de repente aconteceu
e aquele olhar brilhou intensamente
e o meu sonhou ainda reticente
ganhar pra compensar o que perdeu...

Se tantas emoções em apogeu,
o peito agora nega o qu'inda sente
e agarra-se à verdade do que mente
e diz ser claridade o que é um breu...

Tranquem-se as bocas tolas e vazias
e o pranto sequem, olhos sonhadores,
que os pés farejam ilusões baldias...

O que é amar, senão sorrir em dores,
acreditar são bênçãos agonias
que explodem em ilusórias lindas flores?



Rio, 19 de fevereiro de 2011
 

 

 

 

Cleide Canton

"Se tantas emoções em apogeu"
explodem nesse peito cristalino,
as lágrimas perdidas no citrino
salpicam de dourado um véu de breu.

Retalhos de um amor que se viveu
na clausura de um sol já vespertino,
se cosem sob o olhar quase divino
que sonha e ainda canta o que sofreu.

O que é o amor senão a fantasia
que endeusa e bem completa a alegoria
calando a voz e a tese de um ateu?

É a vida revestida de euforia,
é o sonho que navega na poesia,
na rima que no fim não se perdeu.



SP, 20/03/2011
15:15 horas
 

 

 

 

 

Regina Coeli

"Na rima que no fim não se perdeu"
eu teço a veste do que não vestia
e busco olhar sedenta o novo dia
à espera do que não me aconteceu...

Trazer de volta um sonho como o meu
e dar ao verso um tom em euforia
é nele achar da vida a simetria
no traço solitário do meu eu...

E a cruz que se carrega em solidão
é a mesma que reveste a tez do verso
e o escora pra enfrentar o furacão...

No verso forte, puro, controverso,
a rima então bafeja o coração
e traz à tona o amor, tão submerso!

Rio, 26 de março de 2011.
 

 

 

 

Cleide Canton

"Eu teço a veste do que não vestia"
e tranço as franjas soltas, rebuscadas,
abrindo os nós das telas malformadas
no entardecer de um sonho em agonia.

Na letra de uma triste sinfonia,
as pausas se definem em ciladas
que sondam, nos finais das madrugadas,
o muito que restou da simetria.

Um novo manto, embora inacabado,
por sobre os ombros deita, imaculado,
deixando em desespero a solidão.

É a vida a despertar com a fragrância
da garra que persiste e, na constância,
encontra o que energiza um coração.



SP, 27/03/2011
14:50 horas
 

 

 

 

Regina Coeli

"Encontra o que energiza um coração",
assim sacode o pó a nossa vida
tão sábia, tão bravia e destemida
e a não deixar um filho seu no chão...

Os pés tropeçam, bravos os passos vão
beber em doce aleia, a mais florida,
sumo de amor na paz ali sentida,
que afaga e faz sorrir o coração...

O que é uma flor? A flor é um mimo em cor,
mui caprichosamente trabalhada
ela nos vem amar no desamor...

As pétalas colorem a passada
num tempo de viver, seja o que for,
qual dia que renasce em madrugada...

Rio, 28 de março de 2011.
 

 

 

 

Cleide Canton


"Beber em doce aleia, a mais florida",
a cor de cada sonho que viceja
é dar luz ao olhar que lacrimeja
pela mágoa que outrora foi vivida.

E colhe-se uma flor, a mais luzida
do galho em ousadia que a corteja
sabendo que ali mesmo ela é sobeja
e do seu velho altar será banida.

A cor do sonho muda, relutante,
sem mesmo perceber s'inda é constante
o belo que brotou num arrebol.

Ao vento vão as pétalas caindo,
as cores e o perfume vão sumindo...
Sementes serão sempre ao mesmo sol.
 


SP,29/03/2011
11:30 horas
 

 

 

 

 

Regina Coeli

"A cor do sonho muda, relutante",
percorre estranhas vias, sinuosas,
agouros a jardins com belas rosas
que após brilharem morrem num instante.

Os sonhos são as rosas num distante;
eles tão lindos; elas, majestosas,
até que realidades dolorosas
aos sonhos cortem voos de ir adiante...

Os sonhos choram, tristes titubeiam,
guardam da rosa ainda o seu perfume;
felizes elas vivem... E eles anseiam...

E despertando o amor, que é seu lume,
os sonhos chispam raios que clareiam
a linha do infinito, que é seu cume!
 


Rio, 31 de março de 2011.
 

 

 

 

 

Cleide Canton

"Agouros a jardins com belas rosas"
litigam entre si, sem compaixão,
enquanto o justiceiro coração
resguarda, do furor, as primorosas.

E voam sobre o cume das rochosas
distantes da esperteza do vilão
os sonhos que se deitam no perdão
tecendo suas vestes luminosas.

Das rosas o perfume é resguardado
das garras, da maldade do pecado
que trilha o mesmo rumo, em contramão.

Os sonhos são as rosas transformadas,
sem vícios de abordagens rebuscadas
e livres do temor da escuridão.
 


SP,31/03/2011
12:50 horas
 

 

 

 

 

Regina Coeli

"Das garras, da maldade do pecado"
que corta com sua língua de serpente,
a rosa se ergue e luze intensamente
do chão e da tristeza do seu fado,

pois não será um sonho malogrado
a condenar à sombra o que se sente:
uma vontade de seguir em frente,
amando o qu'inda não se fez amado.

Altiva a rosa, então recende em cor,
namora o sol num mar de fantasia,
vem perfumar a pedra e o mais que for,

sorrindo a pétala que não sorria.
E dos confins do sonho emerge o amor
e esculpe a rosa em rocha com poesia.
 


Rio, 04 de setembro de 2013.
 

 

 

 

 

Cleide Canton

"Pois não será um sonho malogrado"
se em frascos pequeninos, resistentes
a todos os tropeços dissidentes,
dessas rosas o olor for resguardado.

Mantém o seu frescor mui cobiçado
por tantos novos sonhos emergentes
em busca dos segredos insolventes
ocultos do domínio do pecado.

A essência é pura, basta-se por si.
Constrói a nova rosa e ela sorri
em versos esculpidos no rochedo.

No passo a passo dança em harmonia
o encontro de poema com poesia
traçando um novo rumo, um novo enredo.
 


São Carlos, 04 de setembro de 2013
14:00 horas
 

 

 

 

 

Regina Coeli

"A essência é pura, basta-se por si",
quem sabe é esta a chave do segredo,
ter sempre o coração num bom enredo
com rosa em flor, poesia em frenesi?

Mágoas e dores, podem ir daqui,
fechada foi minha estação do medo,
que ser feliz é bom, e o tempo é cedo
quando se acorda ao som de um bem-te-vi...

A Vida passa, passa de mansinho,
e rima sonhos, poemas e ilusões
numa lição que vem de um passarinho,

driblando ventos, brisas, furacões,
nada exigindo pra fazer o ninho
onde vicejam novos corações.
 


Rio, 04 de setembro de 2013.

 

 

 

 

 

Cleide Canton

"Quando se acorda ao som de um bem-te-vi"
a flor do amor desponta num sorriso
reabrindo os portais do paraíso
onde o perfume mora... E chega aqui!

Os medos da estação eu já esqueci.
Dores de amor se esvaem sem prévio aviso
na magia do tempo, que é preciso,
e se esgota levando o que vivi.

O que resta é precioso e tem sabor
de manjares servidos com rigor
em banquetes que nunca tem finais,

pois eterno é o que vem após o fim,
é o que traz o meu eu de volta a mim
sem passado e sem ranços vesperais.
 


São Carlos, 05 de setembro de 2013
12:10 horas
 

 

 

 

 

Regina Coeli

Pois eterno é o que vem após o fim,
quanta sabedoria vem e fala
ao coração e à alma, que se embala
vendo eclodir perfume em seu jardim!

Aquele pranto que morou em mim
saiu pra ver o sol e agora cala,
sentindo etéreo o tempo que ainda exala
o sonho de uma nuvem de onde eu vim...

Belo é sonhar, à Vida pôr seu manto
no trono que Ela tem em primazia
e do qual faço o meu maior encanto.

A rosa é o brilho meu de todo o dia
pra depurar o Amor, fazê-lo santo
quando se põe o sol, pra ser poesia.
 

 

Rio de Janeiro/RJ, 11 de setembro de 2013.

 

 

Midi: Meditation - Instrumental