Por Marilda Diorio Menegazzo, poetisa

 

O sol, com seu esplêndido despertar, surge e ilumina o dia todo e em seu horário certo se põe suavemente, deixando morar em nossa mente a beleza do seu adormecer.

Entre o despertar e o anoitecer do sol, muitas coisas acontecem fervilhando os momentos ora de alegria, ora de tristeza, muitas vezes apagando a luz da esperança, fazendo escurecer os nossos sonhos. Assim é a vida, partículas de esperança, partículas de desânimo, sonhos em espiral bailando diante do nosso querer no vai e vem do acreditar.

Às vezes é preciso cair para aprender a levantar. O bem e o mal caminham juntos; aprende-se a diferenciar um do outro pela estrada a seguir. Ao rebobinar o trecho de vida já vivido, sente-se o quanto se patinou nas descrenças da raiz do mal, o quanto fomos infectados por acontecimentos ruins, mas não esquecemos que aos nossos olhos momentos de quimeras existiram, encontro de almas amigas aconteceram, o amor nos visitou e a felicidade apareceu em nuvens passageiras, prometendo retornar em novos momentos especiais. É o bem e o mal ajustando o nosso aprendizado. É a nossa força guerreira acreditando que as mazelas se vão e que a nossa demanda de amor e de esperança será vencedora, indicando o trajeto da vida em largas alamedas de viçosas flores escolhidas por nós. É o melhor para se desenhar a vida.

Quando, finalmente, percebermos que a simplicidade da vida é captada pela sensibilidade da alma, ouviremos e sentiremos a melodia dos clarins afinados dos Querubins aconchegando-se ao nosso coração. Nesse momento, podemos dizer não somente que a vida é bela, mas que os degraus da sabedoria que vamos conquistando dia a dia contribuem para dignificar a nossa existência.

É esse exercício que sinto no desfile de sonetos esplendidamente entrelaçados que nos apresentam as poetisas Regina Coeli Rebelo Rocha e Cleide Canton. Elas desenham palavras com nuanças de alegria, de tristeza, de esperança, de saudade e de sonhos. Com pinceladas ora firmes, ora suaves concluem uma tela poética de rara beleza, emoldurando com harmonia e sintonia pertinentes sonetos mesclando os tons da infância com os da maturidade num Dégradé da vida e da sua rota de aprendizado.

Para um momento de deleite só seu, procure um cantinho sossegado, acomode-se, respire fundo, abra a alma e o coração e junto com Regina Coeli e Cleide Canton siga e sinta essa viagem em puro Dégradé.
 

 

 

 

 

 

 

 

Regina Coeli

No chão de terra se formavam montes,
Montes de folhas em mescladas cores,
Formas, desenhos, cheiros e sabores
E por trás deles, luas em despontes...

Pingos dengosos vindos de suas fontes
Faziam das folhas córregos de amores
A transportar a criança entre as flores
Lindas, abrindo aos sóis seus horizontes...

E foi assim... As árvores frondosas
Trocavam folhas pra abrigar os ninhos
De onde eclodiam flores-passarinhos...

Com a vassoura construí montinhos
E os decorei com pétalas formosas
Que vi cair das perfumadas rosas.

Rio de Janeiro/RJ, 19 de julho de 2014.
 

 

 

 

Cleide Canton

Ao ver cair, das rosas perfumadas ,
pétalas puras, vivas, multicores,
deixei nos montes mesclas das mil cores
junto a folhinhas tantas, descoradas.

Foram projetos desses meus amores
que em tempos de cantigas bem letradas,
sorriram ao frescor das madrugadas,
no revoar de pássaros cantores.

Sorri também ao céu a descoberto,
olhando estrelas, vendo-as de tão perto
que quase eu as toquei sem me enganar.

Mas como as folhas secas, recolhidas
em montes junto às pétalas caídas,
meus sonhos também foram descansar.

 


São Carlos, SP,12/08/2014 - 23:16 horas
 

 

 

 

Regina Coeli

Lembrar as tantas folhas descaídas
E as pétalas de rosas pelo chão
Reabre o portfólio da emoção
E deixa ver a flor das despedidas.

Meus montes, majestosos em subidas,
Guardavam ternamente uma ilusão.
Não percebi, tão criança o coração,
Que as cores já estavam esmaecidas.

Até senti o aroma vir das rosas
Que em pétalas coroavam cada monte
De folhas secas que pensei sedosas...

Imaginei mil sonhos em desponte
A me enlaçar em cores vaporosas
Se evaporando, rindo, no horizonte.
 


Rio de Janeiro/RJ, 14 de agosto de 2014.
 

 

 

Cleide Canton

E foram-se os montinhos perfumados
brincar de esconde-esconde, em desafios,
mas chuvas os levaram para os rios
e lá ficaram sós e aprisionados.

Às margens, em recônditos sombrios,
no aguardo de ainda serem reclamados
procuram, pelo odor, ser relembrados
embora se esparramem nos vazios.

Em decomposição sobram louvores
ao perceberem grandes os favores
que prestarão à terra desgastada.

Em tempo brotarão outras florzinhas
que poderão, talvez, não serem minhas,
nem formarão montinhos nas calçadas.
 


São Carlos, SP, 13/12/ 2014 - 16:00 horas
 

 

 

 

Regina Coeli

Os sonhos somem por detrás dos dias,
Tão cabisbaixos pelas madrugadas
Quase tropeçam em flores nas calçadas,
Amontoadas pelas chuvas frias.

Por onde andam aquelas alegrias
Sonhadas junto a nuvens algodoadas
Em suaves voos cheios de risadas,
Flores nas mãos vibrando as euforias?...

Se tantas flores coroaram instantes
De sonhos lindos que enfeitavam a lida
Como jamais se havia visto antes,

Que me perfume a rosa renascida
No cume dos montinhos tão distantes
Nos quais amontoei a minha vida.
 


Rio de Janeiro/RJ, 01 de Janeiro de 2015.

 

 

 

Cleide Canton


Meus sonhos rebordados em matiz
acordam os demais, bem escondidos,
e dançam nos altares erigidos
ao deus do amor que só de amor me diz.

Recordam-me, burlando os preferidos,
das dores de um viver que não se quis
nos tempos em que a flor era de lis
e amores eram muitos.. E traídos.

Invernos e verões já foram tantos,
revividos no amargo dos meus prantos
que não mais incomodam meu sorriso.

Só rosas e jasmins fazem a festa
ao perfumar o tudo qu'inda resta
no meu céu onde bordo o paraíso.

 


São Carlos, SP, 02/01/ 2015 - 18:00 horas


 

Regina Coeli

O pensamento voa pro passado,
Desfeitosos montinhos lá encontrei,
Sofregamente neles procurei
Por algo pelo tempo soterrado.

Por entre o lixo já deteriorado,
As pétalas de rosa imaginei
Na base das lembranças que evoquei
E de mim não se tinham evaporado.

Se cor, sabor, perfume eu pretendia
Pra temperar a minha solidão
E dar aos versos laivos de poesia,

Mora na doce infância a real ilusão
De que a Vida é uma eterna fantasia
Quando se guarda a flor no coração.



Rio de Janeiro/RJ, 03 de janeiro de 2015.


 

Cleide Canton

E foi passando o tempo... Meus montinhos
de amareladas folhas, na lembrança,
guardaram muito tempo de esperança
e alguns ainda vibram nos seus ninhos.

Saudade que vem deles sempre alcança
as dores que restaram dos carinhos,
cravadas no meu peito qual espinhos...
Mas passa, sem fazer qualquer cobrança.

Vão-se os montes mas ficam seus odores
que encontro, no buscar dos meus amores,
em cada flor plantada em meu jardim.

Em tempo colherei as margaridas
para cobrir as marcas das feridas
que a vida fez brotar dentro de mim.

 


São Carlos, SP,05/01/2015 - 13:40 horas

 

 

 

Regina Coeli

Os tons e semitons esmaecidos
Se alegram, ganham vida suavemente
Quando são projetados para a frente
Reflexos e mais reflexos já luzidos.

As aquarelas vibram seus sentidos
Tocadas pelo sol que invade a mente,
Embriagam o pincel em cor tão quente
Que se aferrolham as portas dos ouvidos.

Silêncio para ouvir o próprio Ser.
Sentir-se um universo soberano
A se vestir de aurora ou anoitecer,

Pintando estrelas num encardido pano
E ousando uma vez mais reverdecer
As flores mortas por qualquer engano.

 


Rio de Janeiro/RJ, 06 de janeiro de 2015.
 

 

 

 

Cleide Canton

Ainda planto flores, varro montes
de folhas pelo tempo destronadas,
no meu jardim de cores desgastadas
à espera de outros sóis nos horizontes.

As primaveras chegam, encantadas,
dançando no frescor das minhas fontes,
deixando meus pecados quase insontes
no peso das bagagens atreladas.

Percebo-me curvada, mas espanto
a fúria que se encosta, como manto,
por sobre os ombros frágeis e cansados...

Mas ao ouvir cantar os passarinhos
em revoada, longe dos seus ninhos,
meus sonhos novamente são bordados.
 


São Carlos,SP, 08/01/2015 - 10:15 horas

 

 

 

Regina Coeli

Por fora, o monte é folha desbotada,
mas no seu coração é primavera
na rosa que acredita na quimera
de ter sua cor pra sempre engalanada.

Quem sabe seja o brilho ao fim da estrada
O fosco que luziu, ao fim da espera,
Um mar de sonhos que se bem quisera
Rugissem lindos os sóis na madrugada...

Castelos de ilusão são formosura,
É um sonho-passarinho a se emplumar
No ninho pra ganhar, no céu, altura.

Na ponta do montinho, a me acenar,
Sorriem cores jovens de ternura
Pra colorir-me as asas. E eu voar.

 


Rio de Janeiro/RJ, 12 de janeiro de 2015.

 

 

 

Cleide Canton

Brindando esses montinhos coloridos
que abrigam tantos sonhos encantados
de outonos, de invernos já passados,
que foram pelos ventos preferidos,

retorno aos meus verões enluarados
alçando voos altos, reprimidos
no tempo em que não eram bem vividos
e agora surgem calmos, mas ousados.

Quem sabe, neste fim eu recomece,
tecendo de carinho a minha prece
embriagada em nova fantasia.

Em dégradé as cores vão vibrando
no carnaval que venha proclamando
o império do sorriso, da alegria.
 


São Carlos,SP, 12/01/2015 - 20:47 horas


 

 

Regina Coeli

Um dia é sol, no outro a chuva vem
E o dia que era claro e ensolarado
Fica escuro, sisudo e acinzentado,
Mas não deixa de ser belo também.

O mar em ondas dança o seu vaivém
Com véu de seda puído e já esgarçado
E a lua, num vestido muito usado,
Baila, tão linda, à espera do seu bem.

Por dentro dói, mas há beleza e encanto
Vestindo as nossas horas de magia
Pro nosso sonho não mofar num canto,

Pois sonhar é varrer com euforia
As folhas pra formar um monte santo
De onde se veja a Vida com poesia.
 


Rio de Janeiro/RJ, 13 de janeiro de 2015.

 

 

Midi: Papel Marché - Instrumental