Ivan Jubert Guimarães
14.02.2007
 


Quando entrei pela primeira vez no saguão do hospital onde iniciaria a radioterapia para curar um câncer, entrei com muita confiança e logo fui cumprimentando as pessoas em geral com um sonoro “boa tarde!” Neste primeiro dia, apenas um casal respondeu ao cumprimento e quando se retiraram eles se despediram.
Nos dias que se seguiram continuei com o mesmo comportamento numa tentativa de levar para dentro daquela sala um pouco de otimismo e de alegria. Cumprimentava a todos e foi bacana acompanhar a evolução disso tudo: hoje todos se cumprimentam e o mais importante, conversam, dividem seus dramas.
Pacientes e acompanhantes já ousam sorrir, pelo menos um pouco. Claro que os casos são de diferentes graus de gravidade, mas o que se percebe em cada olho é esperança. O tratamento provoca efeitos em alguns, deixam-nos abatidos, mas a perseverança prevalece. Ninguém desiste, ninguém entrega os pontos, pois todos ali desejam viver. Já não importa como cada um adquiriu a doença, quantas mágoas carregou, quanta raiva segurou, ou quantos cigarros fumou. Todos que estão ali estão atrás do mesmo objetivo, um torcendo pelo outro, dando um incentivo ainda que com um sorriso tímido, todos querendo viver!
Mas eu quero voltar a falar do casal do primeiro dia com o qual eu tenho conversado diariamente: José Roberto e Sandra formam um lindo casal. A gente percebe o carinho da esposa pelo marido, a força que emana de seus olhos, de seus braços e de sua mente, além de seu sorriso. Eu acho que ficamos amigos ou pelo menos, estamos ficando amigos, pois estamos atrás do mesmo objetivo: viver!
Eles vieram do Nordeste para cá para que ele fizesse o tratamento e a coragem dele me surpreende e me causa inveja. É a quarta vez que luta contra um câncer. Já venceu outras três batalhas e continua lutando, sem desistir e eu tenho a certeza de que ele vai superar mais essa luta. E estou torcendo muito por ele. Acho que só falta encontrar algo para fazer quando se recuperar, o que eu acho que ele já está considerando: construir uma casa no sítio. Plantar flores, árvores junto com a esposa.
Eles comemoram bodas de prata neste ano e tenho certeza de que farão uma linda festa na companhia dos filhos e netos.
O tratamento dele termina antes do meu e provavelmente eu não os verei mais e já comecei a sentir saudades deles dois. Mas o importante é que se, de início, foi a dor que nos uniu, hoje já existe um carinho e um respeito muito grande entre nós, e essa amizade que está se iniciando vai continuar, tenho a certeza, para todo o sempre.
José Roberto e Sandra, que tenham lindos dias pela frente! Eu nunca me esquecerei de vocês.
 


Ivan Jubert Guimarães


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