Ivan Jubert Guimarães
09/04/2016


Hoje tirei o dia para lembranças; um lindo dia de sábado ensolarado e eu em um quarto de hospital olhando para a rua através das frestas das persianas entre as janelas. É como se eu fosse prisioneiro de mim e toda uma vida estivesse renascendo, brotando, crescendo, florindo e vivendo.

Num instante lá estava eu, menino ainda, lembrando-me de meus primeiros amiguinhos, o Nenê, o Vítor e mais um que me foge o nome no momento, também pudera, lá se foram mais de sessenta anos.

Num pulo, eu já estava com sete anos, outro bairro e tinha novos amigos, um deles tinha um cachorro chamado Bob com quem brincávamos muito. Não lembro se ele era do Jaiminho, ou do Teodoro ou um de seus irmãos. Talvez fosse da Luciane, mas não tenho certeza. Regina e sua irmã Sandra não tinham cachorro, nem Tânia que morava abaixo de meu apartamento. Lembrei-me de Maria Tereza, uma menina bonita que morreu de paralisia infantil e na época se dizia que ela pegara paralisia porque comera melancia gelada com o corpo quente e suado. Havia outros amigos, mas estes eram a minha turma.

Num estalar de dedos, lá estava eu em plena adolescência. Uma nova casa e novos amigos cujos nomes ainda me lembro. Joel era meu melhor amigo, sua irmã Sueli foi minha primeira namoradinha. Eu, mais Joel, Pascoal e José Antonio éramos inseparáveis. Tinha o Zé Eduardo, o Netinho, e à medida que íamos crescendo fomos mudando de turma e meus novos amigos já tinham apelidos: Carioca, Tonhão, Didi, Formiga e passamos a ser conhecidos como a turma da padaria. Junto com as meninas-moças do bairro fundamos nosso clubinho de danças e passeios, o Golden Lions Club. Todos os sábados tínhamos sempre um baile para ir e, aos domingos, era cinema ou sorveteria.

Como todo clube nosso também tinha suas regras: era proibido o namoro entre os sócios, mas era difícil resistir à beleza das meninas. Foi o fim do clube. As garotas desapareceram, Tammy, Rosana e Gilda acabaram se mudando e nunca mais tive notícias delas. Mas havia as garotas do ginásio e os colegas, Maria Inês, Stela, Bárbara, Kátia e os amigos Marco Antonio, Elias, Max, José Eduardo, Seixas e um monte deles.

Sueli tinha crescido e se transformado numa linda moça. Eu havia mudado de casa, ali por perto mesmo, e tive uma namorada de janela. Todas as tardes namorávamos escrevendo cartazes em cartolina e colocando-os nas janelas. Ela se chamava Vera Lúcia. A distância que separava minha janela na da janela dela deveria ter mais ou menos cem metros e precisávamos usar binóculos para ler o que cada um escrevia. Claro que chegamos a nos conhecer pessoalmente e eu costumava visitá-la com frequência. Foi uma época difícil, meu pai havia perdido tudo o que havia amealhado na vida e eu tivera que me mudar para um bairro mais distante. Este fato me afastou de todos os amigos que eu tinha tido até então.

Em razão disso tudo, parei com a viagem no tempo e liguei o computador; entrei em meu site e fui ler um dos contos que escrevi há dez anos cujo título é Encontro e Desencontro. Vinícius de Moraes já havia escrito que "a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida". Uma grande verdade do amado poeta do amor. Minha vida sempre foi palpada por encontros e desencontros. Não escrevi uma biografia e também não era uma pura ficção. Como misturei realidade com ficção batizei o conto como sendo uma memória ficcional.

O mais estranho quando ficamos vasculhando a memória é que parece estarmos fazendo uma viagem no tempo e no espaço (estes sim aspectos ficcionais), e vivenciamos tantas coisas acontecidas há anos, em poucos minutos. É como se fosse um sonho, que enquanto estamos sonhando o tempo voa, mas passam-se apenas poucos segundos.

Ao iniciar a leitura de meu conto fui transportado para um passado que me fez relembrar do primeiro grande amor de minha vida, dos amigos da época de meus anos dourados, dos bailinhos realizados nas garagens ou nas salas de jantar das residências. Essas visitavam minha mente, embora poucas delas estivessem retratadas no conto. A repressão provocada pelo golpe militar, as perdas, o desaparecimento de amigos e de professores e, claro, os desencontros.

Fiquei pensando em quantas pessoas eu conheci na vida, quantas delas ainda fazem parte dela e quantas já terão morrido.

Será que algum amigo ainda pensa em mim? Ou, pelo menos, se lembra de que um dia eu passei pela vida dele?

Em meu conto saio do passado vou direto para o futuro, sozinho como estou hoje. Que estranha premonição. No conto eu passo mal do coração e tenho que ser operado de emergência, outra estranha premonição, mas sou salvo por uma médica cardiologista que assim que me viu na sala de emergência de um hospital, prontamente me reconheceu. Um hospital, o mesmo lugar de onde escrevo estas linhas; outra premonição?

 

 

Ivan Jubert Guimarães


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