Ivan Jubert Guimarães

24/09/2015

 

 

 Josué de Castro foi um grande brasileiro que ficou conhecido como Cidadão do Mundo graças ao seu trabalho voltado para a fome no Brasil e no mundo. Recebeu muitos prêmios no exterior. Foi um influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor, ativista brasileiro que dedicou sua vida ao combate à fome.

Apesar de ter sido presidente do Conselho da ONU junto à FAO e, também, embaixador brasileiro junto à ONU, Josué teve seus direitos políticos cassados após o golpe militar de 1964 tendo sido exilado em Paris onde morreu em 1973.

Em 1967, eu ainda um estudante secundarista li um de seus livros intitulado “Sete Palmos de Terra e um Caixão”. Logo no início, Josué de Castro dizia que o Brasil havia sido descoberto duas vezes: a primeira, por Portugal em 1500 graças a um erro de navegação; a segunda em 1960, pelos Estados Unidos, graças a um erro de interpretação. Aquilo ficou guardado na memória até hoje e esse livro foi um dos melhores que li em toda a minha vida.

Hoje os tempos são outros e talvez a leitura não demonstre mais tanto interesse como naquela época, embora a fome ainda seja um grande problema no Brasil e no mundo.

O título do livro refere-se ao fato de que naquela época, o trabalhador agrícola tinha direito apenas a sete palmos de terra e um caixão. Quase 50 anos após eu ter lido o livro pela primeira vez, me parece que as coisas ainda não mudaram.

Mas, voltando ao descobrimento do Brasil, houve uma terceira descoberta em 1975, feita por Luiz Inácio da Silva, o Lula, ao ser elevado ao cargo de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo que, para quem não sabe, congregava quase a totalidade das montadoras e fornecedores dessas indústrias.

Nessa função o ex-metalúrgico ganhou destaque internacional, foi preso pelo DOPS, mas logo posto em liberdade.

Foi um dos fundadores do PT, Partido dos Trabalhadores, em 1980, e em 1986 candidatou-se a Deputado Federal tendo sido eleito por larga margem de votos. Participou da Assembleia Constituinte de 1988 onde começou a colocar as mãos de fora, sendo favorável a algumas medidas que já mostravam seu verdadeiro interesse político. Quis limitar o direito à propriedade privada, foi favorável ao aborto, à redução da jornada do trabalho, a uma soberania popular, ao voto aos 16 anos, à estatização do sistema financeiro, à criação de um fundo de apoio à reforma agrária e ao rompimento de relações diplomáticas com países que adotavam políticas de discriminação racial.

Em 1989 o descobridor do Brasil candidatou-se à presidência do país e foi derrotado, pois havia muito medo de se eleger alguém vindo do povo e tendo sido um sindicalista. Senti que Lula no debate com Collor se acovardou diante das injúrias ditas por este candidato. Com a renúncia forçada de Collor por motivos de corrupção, seu vice Itamar Franco assumiu o governo. Nas novas eleições, o descobridor do Brasil concorreu contra Fernando Henrique Cardoso e tornou a perder, fato que se repetiria quatro anos mais tarde.

Mas, como água mole em pedra dura tanto bate até que fura, Lula consegui se eleger presidente do país que descobrira anos antes, derrotando José Serra e sendo reeleito quatro anos depois ao derrotar Geraldo Alkmin.

Como dono do país que sempre acreditou haver descoberto conseguiu fazer sua sucessora e reelege-la ao fim do primeiro mandato feminino na presidência do Brasil.

Todas as promessas feitas durante as campanhas presidenciais, todos os discursos feitos como opositores de outros governos, tornaram-se vãs promessas.

Lembro-me das palavras de D. João VI ao seu filho Pedro I que proclamasse a independência do Brasil caso algum aventureiro tomasse posse da terra. D. Pedro obedeceu ao pai, mas os brasileiros, anos depois, mostraram total desconhecimento desse conselho e elegeram por duas vezes um aventureiro comunista e permitiram que ele elegesse por duas vezes sua sucessora.

Apesar dessa evolução política, ele ainda não se tornou rei e nem imperador, mas tem-se mostrado um grande ditador. Nossas Forças Armadas estão sucateadas e, caso haja uma guerra, nós não temos bala para aguentar um dia de batalha contra qualquer que seja o inimigo.

Os hospitais públicos estão lotados de doentes e vazios de médicos e enfermeiros. Todos os dias vê-se nas reportagens dos telejornais a situação crítica dos hospitais federais, estaduais e municipais. Parece até haver um complô do governo para exterminar a população, como fez Hitler, Stalin e Lenin. Há falta de tudo nos hospitais e postos de saúde, desde medicamentos, de gesso, esparadrapo e qualquer coisa que possa aliviar o sofrimento do povo.

Há quem diga que o povo se faz de coitadinho para receber benefícios do governo. Eu mesmo já disse isso em outros tempos, porque não sentia na carne esse tipo de dor.

Mas vendo in loco o que acontece em muitos lugares, ouvindo pacientes reclamando que não encontram medicamentos de alto custo para conservar o órgão que lhes foram doados em transplantes, observando pessoas em filas que demoraram horas, não posso me calar. Eu mesmo já fiquei seis horas, a maior parte do tempo delas em pé, para receber uma cartela de medicamento com 30 comprimidos, sob um calor de matar.

O sistema de saúde existe de fato e na sua concepção é bom, coisa que não existe em quase nenhum país do mundo. O que falta é uma boa e honesta administração.

Todos os anos são formados mais de 16 mil médicos no Brasil e onde eles estão? Segundo dados de 2012 havia cerca de 390 mil médicos no Brasil número que vem sendo aumentado em 16 mil ao ano. Os médicos cubanos estão fora dessa conta.

Os hospitais particulares não vinculados ao SUS – Sistema Único de Saúde, também estão lotados. Doentes que, em outros tempos, seriam internados estão sendo mandados para suas casas.

Esse número de médicos sai de quase 170 faculdades de medicina existentes no país. A gente sabe que a educação aqui do lado debaixo da linha do Equador é muito deficiente. Eu, pelo menos, não concebo a ideia de que haja uma faculdade de medicina sem um hospital. O que um médico pode aprender dessa forma? Aquele médico de família de antigamente já morreu e hoje nos vemos diante de especialistas que não sabem muita coisa. A gente vai a uma consulta e sai de lá com pedidos de exames como Raios X, Ultrassonografia, Tomografia, Ressonância Magnética, isso sem falar de exames mais avançados da medicina nuclear, caríssimos por sinal. Muitos médicos nem tocam em você porque é muito mais fácil pedir exames, que não sabem analisar, e dependem do laudo médico de quem realizou o exame, pois mal conseguem entender as imagens.

O que falar da Educação? Aqui se aprende o que o governo quer que se aprenda. O resultado é ver adolescentes escolares que nada sabem. Não há professores com conhecimento para ministrar uma aula, não há salas de aula decentes para receber alunos e não há jovens e crianças interessados em aprender alguma coisa. Não são estudantes, são escolares; frequentam a escola, mas não estudam.

Como resolver o problema da fome, da saúde e da educação neste país que teve o azar de ter sido descoberto três vezes por ladrões, imperialistas e por comunistas?

Em minha opinião só há uma maneira: uma revolução! E quando digo revolução não me refiro a conflitos bélicos, mas parar com tudo o que aí está e começar de novo: uma “re-evolução” social e política. Talvez não dê tempo para desfrutarmos de um novo país, mas devemos pensar em nossos filhos e netos e naqueles que ainda estão por vir.

 

 

Ivan Jubert Guimarães

 

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