Ivan Jubert Guimarães



Quando, ou se, a Seleção Brasileira perder um jogo na Copa do Mundo, milhões de vozes irão se levantar contra a comissão técnica e também contra os jogadores, principalmente contra os mais famosos deles. As vaias ecoarão pelas cidades, enterros simbólicos serão realizados por todo o país. Perder no futebol é a maior vergonha nacional. E deve ser mesmo, principalmente quando temos um presidente que usa e abusa das metáforas futebolísticas, embora, eu confesso nunca tê-lo ouvido dizer que seu governo deu zebra.
Mas não é contra o presidente que eu quero falar, quero falar contra o povo que só se manifesta nas coisas sem importância. Ganhar ou perder uma copa do mundo é, para o governo, a mesma coisa: a atenção será toda desviada para a então incompetência de nossos jogadores, sabidamente reconhecidos como os melhores do mundo. Ganhando ou perdendo, o povo irá às ruas se manifestar. Ah! Esse filme já passou tantas vezes!
A paixão nacional que o futebol provoca no brasileiro não é a mais exagerada do mundo não. Sabe-se que torcedores fanáticos existem no mundo todo. Em certos países desenvolvidos, são até muito mais violentos que aqui. A diferença é que em muitos países, o povo vai às ruas exigir outras coisas de seus governos. Ele vai às ruas para protestar contra leis que os prejudicam, contra decisões erradas tomadas pelos que os dirigem. Protestam contra guerras que seus países não participam, mas que são coniventes. Protestam contra as altas de preços, e muitas vezes conseguem mudar alguma coisa, até leis.
Há um ano estamos assistindo a uma copa da corrupção. No início, todos ficaram alegres porque as coisas estavam vindo à tona. Deu até para pensar que o país, finalmente, tinha chegado ao futuro. Mas quando os jogos das CPIs começaram, o que se viu foi que a arbitragem também agia de má fé. E o que revolta é a omissão do povo. Ele até reclama dentro de sua casa, alguns falam diante das câmeras de televisão quando perguntados pelos telejornais. Mas é só. No geral o povo está omisso.
Está na hora de lembrar de um poema de Maiakowsky de quem roubei o título para essa crônica:

 

 

O Preço da Omissão.
 


Na primeira noite,
Eles se aproximam
E colhem uma flor
De nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite,
Já não se escondem:
Pisam nas flores,
Matam nosso cão,
E não dizemos nada.

Até que um dia,
O mais frágil deles,
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a luz e,
Reconhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.

 



Ivan Jubert Guimarães


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