Ivan Jubert Guimarães

18/01/2019

 

 


Outro dia, resolvi comparecer a um encontro marcado há tempos, mas que sempre adiava o compromisso alegando outros afazeres. Muitas vezes era apenas preguiça e, confesso que um pouco de medo também.

Dirigi-me ao local destinado, mas não havia ninguém a minha espera. O ambiente era pequeno e na parede havia apenas um espelho. Não era uma sala e sim um banheiro. Resolvi sair, mas dei uma olhada no espelho e lá estava ele a me olhar com seriedade.

Minhas pernas travaram e tive que me apoiar na pia e logo abri a torneira para jogar um pouco de água no rosto. Ao me enxugar, notei que ele me observava com ar de curiosidade e me perguntou: “Quem é você?”.

Fiquei sem ação e respondi que eu era ele, ou que ele era eu. Fiquei confuso ao ver que ele agora tinha um sorriso zombeteiro. Não aguentei e parti para o ataque:

“Olha aqui imagem distorcida de mim, você é um prepotente que acha que tem mais sabedoria do que eu vive me criticando e provocando sentimentos de remorsos em mim”. “Você é uma pessoa que habita uma zona de conforto e está acomodado, nunca sai do lugar a menos que alguém o leve”.

Ele só me olhava com um sorriso indignado. Continuei:

“Você é um fraco, egoísta e orgulhoso que muda de aparência de acordo com a vontade dos outros”. “Ao mesmo tempo em que sua imagem reflete compaixão, reflete também sua ira contra pequenas coisas”. “Você é teimoso, está sempre insistindo para que façam aquilo que você quer, mas é dissimulado e finge aceitar as opiniões contrárias às suas”.

Percebi que seu olhar já estava mudando e que não havia mais aquele jeito zombeteiro. Aproveitei e continuei:

“Você deveria olhar mais para dentro de você; sei que faz isso com frequência, mas foge quando encontra algo que lhe desagrada e volta a olhar somente para fora”.

Eu estava zangado, mas o olhar dele já era de compreensão e senti um pouco de respeito da parte dele. Quando percebi um ar de aprovação, achei que tinha vencido a discussão (se é que houve uma) e sorri, sorri bastante. Ele não perdeu a deixa e falou: “Por que você não é sempre assim, como está agora?”. “Assim, eu reconheço você, um sujeito calmo, bondoso e tolerante”. “Você teve coragem!”.
“Pare de ficar rodando a esmo”.
 

E foi assim o encontro marcado comigo mesmo.
 

 

Ivan Jubert Guimarães

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