Ivan Jubert Guimarães

04/07/2015
 

 

Quem sou eu e quem é você? Todo mundo acha que sabe quem é, do que é capaz de realizar. Se for assim, o que é que você faz? Faz por gosto ou por uma obrigação?

O mundo parece estar maluco e a situação brasileira não é diferente. Alguns povos talvez ainda saibam se organizar em torno de algum ideal, mas se envolvem em conflitos religiosos há milênios. Outras culturas milenárias, com tradições seculares e muito respeito aos seus idosos, pois sabem que foram eles que construíram seus países, aparecem em alguns países do Oriente.

Mas os jovens são jovens em qualquer parte do planeta e a maioria deles não se importa com nada a não ser seguir os modismos que aparecem aqui e ali.

E o que é o Brasil?

O Brasil é um país que perdeu sua identidade cívica e moral. Parodiando Antoine Lavoisier, “no Brasil nada se cria, tudo se perde, tudo se transtorna” Não sabemos quem somos. Kate Lira dizia que brasileiro é tão bonzinho, se é que alguém ainda se lembra disso, já que somos, também, um país sem memória.

Os movimentos de protesto que surgem de quando em vez não partem do povo. Eles começam com ações de sindicatos, de parte da mídia e através das redes sociais. O indivíduo muitas vezes é contrário a certas manifestações, mas ele comparece, porque ele também é povo. E o povo gosta de ser manuseado, tocado como gado para o matadouro. Alguém grita uma palavra de ordem e o eco ressoa do meio da multidão. Não existe nenhum objetivo nessas marchas, cada grupo reivindica algo de seu próprio interesse.

Eu imagino que lá no Planalto, em frente da televisão, os maiorais se divertem, rindo do que assistem. Como quase sempre, nessas ocasiões, aparecem grupos de arruaceiros, verdadeiros vândalos a pau mandado, que com sua violência treinada dispersa os movimentos.

O governador manda a polícia militar e aí já é pobre contra pobre, enquanto que os ricos se divertem saboreando seus drinques nos restaurantes chiques espalhados pelas grandes cidades.

Quando o movimento grevista parte dos professores é a mesma coisa. Um sindicalista convoca uma reunião e grita uma palavra de ordem e os professores entram em greve e fazem passeatas atrapalhando a vida de quem trabalha. Esse é o verdadeiro motivo da greve criada por um sindicato, conturbar a ordem, ser visto como líder. Aí, de novo, chega a polícia militar com seus cassetetes e bombas de efeito moral e nova briga entre pobres acontece.

No Rio de Janeiro, a polícia quase já não dá conta de subir os morros onde se localizam as favelas e os traficantes, O exército entra na parada. Jovens recrutas mal treinados se encarregam de promover a paz na região e novamente acontece uma briga de pobre contra pobre. Os ricos homens do governo riem da mesma forma bebendo uísque e cheirando coca.

Mas nas favelas não existem apenas traficantes, há por lá indivíduos que trabalham e que ficam doentes e quando precisam de atendimento médico e não conseguem, perdem sua identidade e se tornam povo. Reclamam diante das câmeras de televisão, repórteres mostram a precariedade do sistema de saúde e fica tudo por isso mesmo. Faltam médicos, enfermeiros, remédios, instrumentos cirúrgicos e indivíduos morrem, mas viram apenas números nas estatísticas.

Nos consultórios médicos onde uma simples consulta vale mais do que um salário mínimo, os médicos marcam cirurgias muitas vezes desnecessárias e aumentam seus ganhos e os ganhos dos hospitais onde trabalham.

É triste constatar isso, parece mentira. Os erros médicos se sucedem absurdamente nas cirurgias, mas o corporativismo da classe impede qualquer medida de punição. As mulheres são as que mais sofrem, principalmente quando consultam um ginecologista. Os casos de estupros se avolumam e a mulher, de início, tem medo de fazer a denúncia, de delatar o ocorrido, pois nesse caso o prêmio da delação pode vir em forma de uma criança. E o que dizer para a família? Nas brigas de pobre contra pobre, todo mundo bate e todo mundo apanha, mas brigar com rico você só apanha.

No aspecto de Segurança, o que acontece é outra brincadeira. Leis arcaicas, códigos retrógrados e que os parlamentares insistem em manter. Não sei o porquê, mas acho que é por preguiça. Deve dar muito trabalho e quem é que trabalha no Legislativo?

Quando eu era criança e adolescente, crianças não cometiam crimes. De vez em quando se matava um pardal com estilingue e só. Hoje crianças e adolescentes estupram, roubam e matam. E não são punidos por isso, são “de menor”. Criou-se uma discussão sobre a redução da maioridade penal e começou uma nova briga no meio forense e na Câmara dos Deputados. Fala-se em desrespeito à Constituição e um monte de outras bobagens e, enquanto isso, os meninos menores de dezoito anos e maiores de dezesseis continuam brincando de matar. Quer saber minha opinião? Dane-se a Constituição! Eu iria além, reduzindo a maioridade penal para dez anos de idade ou no máximo para doze anos de idade. Crianças desta idade já sabem o que é certo ou errado de fazer.

E a educação? Criou-se o slogan de Pátria Educadora e a primeira medida foi um corte gigantesco no orçamento para a educação. Professores apanham dos alunos, são ameaçados até de morte e nada acontece. Novamente a briga de pobre com pobre. Parece que a máxima de que a vida é uma escola é entendida de forma errada pelos jovens alunos das escolas públicas e privadas.

Claro que existem aqueles que querem aprender e frequentam as escolas munidos com seus smartphones, ficam quietos durante as aulas e vão prestar exames do ENEM. Ensino médio para mim é um ensino apenas regular. Unificaram o antigo ginasial com o colegial e deu essa aberração que a gente vê por aí. Será por falta de professores? Digo: será pela falta de professores preparados?

Mas apesar dessa deficiência toda, muitos chegam às universidades. Estas proliferaram nas cidades. O que antes era motivo de orgulho frequentar uma universidade, hoje é motivo até de chacota, já que o nível de ensino é de uma pobreza imensa. O indivíduo sai de uma faculdade e não sabe absolutamente nada. O sujeito quer entrar porque quer entrar em uma faculdade, não importa o curso. Ele quer ser engenheiro, mas se a nota dele só der para entrar num curso de línguas para aprender armênio, ele vai. Ele perdeu sua identidade, tornou-se gado e segue a manada.

Salvo raríssimas exceções, o nível de ensino universitário, mesmo nas melhores universidades caiu muito, pois os grandes mestres ou se aposentaram ou morreram. O grande professor universitário de hoje, talvez o melhor deles seja o Professor Google, embora se engane algumas vezes.

O melhor ensino universitário é aquele das universidades gratuitas que por serem assim, todos querem ir para lá. Como a concorrência é grande, só entram os melhores alunos e os melhores alunos exigem os melhores professores. Já as outras universidades apenas universalizam o ensino.

E no entretenimento? Como nos comportamos? Novamente como povo. Não gostamos de muita coisa que a televisão nos mostra, mas nossos olhos não se desgrudam dela. Nos finais de semana, por exemplo, a programação é um acinte à nossa inteligência. Animadores de auditório grotescos que por terem um microfone nas mãos se acham no direito de dizer qualquer coisa aos seus convidados ou mesmo à plateia. Esta obedece ao apresentador como se fosse uma claque, se é que assim não seja. O apresentador diz entusiasmado que o público aplaude de pé e todo mundo se levanta, perderam a individualidade.

Mas têm também os talk shows, programas de entrevistas onde, na maior parte das vezes, o entrevistado assiste o entrevistador falar e quase nunca conseguindo dar sequência à sua resposta.

Os grandes cantores e cantoras envelheceram e muitos já morreram e não foram substituídos à altura por ninguém. Já há algumas décadas o país que perdeu sua identidade tornou-se sertanejo. Euclides da Cunha nem imaginava o quanto estava certo quando disse, em Os Sertões, que “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Os cantores sertanejos ganham fortunas e são transformados em ídolos antes mesmo de se tornarem conhecidos. E se morrem, então, viram ícones adorados pelo povo.

Coisa parecida acontece com o futebol brasileiro cuja seleção não tem mais jogadores que jogam no Brasil. Eles vêm de todas as partes do mundo e a convocação é feita não para chamar os melhores, mas para chamar os mais rentáveis em futuras negociações. As diversas competições internacionais de hoje são como o Jogo do Bicho. Você escolhe um time e aposta nele. Como já está tudo combinado, você enriquece da noite para o dia. Juízes são os donos da verdade. Confundem-se com juízes de Direito e dão o veredito de vencedor antes da partida começar. E lá no alto das arquibancadas cada indivíduo, transformado em massa popular, é ludibriado e sofre com sua paixão descabida. E pensar que houve um tempo em que se dizia que futebol era um jogo para homens, mas confundiram tudo. O jogo era jogado por homens de caráter que amavam o que faziam e não por esses garotos deslumbrados que pipocam nos dias de hoje.

O Hino Nacional Brasileiro que eu aprendi ainda na escola primária, hoje é cantado nos campos de futebol, mesmo nos campeonatos regionais. Foi banalizado e a gente vê jogadores cantando com raiva, com ódio, quando o hino deveria ser cantado com amor. Cantam e as torcidas cantam sem saberem o significado do que estão cantando.

Outro dia, quando ia assistir a um jogo de futebol que aconteceria na Inglaterra, houve um minuto de silêncio em uma homenagem póstuma ao ex-jogador da seleção inglesa, Bobby Moore, cujo falecimento se dera anos antes. O estádio ficou em completo silêncio. Aqui no Brasil não existe este respeito. O minuto de silêncio é para a manifestação das torcidas organizadas, um bando de débeis mentais fanáticos.

Perdemos, há muito, a nossa identidade e a nossa individualidade quando juntada a de outro indivíduo não nos transforma em um povo que sabe o que quer.

 

Ivan Jubert Guimarães

 

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Midi: Sonhos de um Palhaço - instrumental