Ivan Jubert Guimarães

12/07/2016

 

 

Eu queria viver um pouco antes de morrer. Já passei antes por isso e talvez não tenha aprendido a lição, por isso, tenho que repetir a experiência.


Empobreci jovem ainda, da noite para o dia. Perdi muita coisa naqueles tempos, inclusive os amigos. Em minha casa ficaram apenas as camas, um fogão e uma geladeira. O resto foi tudo embora com oficiais de justiça. Foram dias de muita incerteza, eu não arrumava emprego, pois não estava quite com o Serviço Militar.


Os anos passaram, tive bons empregos e ótimos salários. Fui fazendo carreira por onde passava. Sempre me destaquei profissionalmente e sempre chega a hora em que se resolve tentar a carreira solo. Fui comerciante, editor e publicitário. Casei, descasei e tornei a casar, mas as doenças foram surgindo e fui perdendo clientes e também a força. Nova separação conjugal e hoje, além da solidão, ficou a tristeza do sentimento de abandono.


Os amigos tornaram a desaparecer, os convites nunca mais chegaram para passeios ou festas. Os parentes agregados, então, nem se fala. Basta separar-se do cônjuge e você passa a estar separado de toda a família.
Leio muitos livros e estudo muito também. Não tenho uma formação intelectual como alguns filósofos e historiadores da atualidade que ocupam a mídia mais tempo do que as salas de aula. Mas tenho os meus talentos também e humildemente gostaria de poder conversar com eles um dia qualquer, embora eu ache que todos eles possuem um arsenal de frases feitas que usam em quase todas as suas palestras. Nada contra as frases feitas, eu as uso também. Talvez eu esteja mais interessado nas frases feitas do que em suas opiniões. Eu já dei muitas palestras e escrevi dois livros, além de mais de mil crônicas e quase outro tanto de poesias e muitos contos. Mas não faço sucesso. Escrevo para poucos.


Ontem ouvi pensamentos de Hélio Ribeiro, meu mentor poético. Coisas ditas em seus programas de rádio há mais de trinta anos e que ainda são tão atuais. Meu pensamento voou àqueles tempos e pude constatar que nada mudou no mundo, apenas o avanço tecnológico que tem afastado os homens dos outros homens, embora eles achem o contrário. Conseguimos a proeza de afastar as famílias do convívio social. Hoje as pessoas não falam, elas digitam e criaram um novo idioma cibernético. Da mesma forma os palestrantes usam palavras estrangeiras e se autodenominam com nomes que os fazem parecer mais importantes do que realmente são.


Abrindo parênteses quero salientar que este texto não é proveniente de um sentimento de auto piedade Não mesmo. Não sinto pena de mim; no momento estou em pleno gozo da indiferença aos seres humanos, cujas atitudes egoístas e consumistas só contribuem para o estado de coisas que vemos diariamente nos noticiários. O triste é que isso tudo não é um problema do Brasil, mas mundial.


Quanta barbárie tem acontecido em tantas regiões do planeta, isso sem falar dos desastres naturais e das doenças novas que surgem de tempos em tempos e que estão ceifando vidas. Os esotéricos dizem que tudo isso já estava previsto para acontecer. Pode ser, mas se não podemos mudar essas coisas, de que nos serve o propagado Livre Arbítrio?


O mundo está do jeito que está porque nós queremos que seja assim. Nossa evolução depende do convívio social, mas ainda estabelecemos fronteiras entre os países. Muitos não querem perdem suas posições de reis, de presidentes, ditadores. A própria saída do Reino Unido da Comunidade Europeia é uma prova disso. Na verdade, os ingleses saíram de um lugar onde nunca estiveram, já que nunca oficializaram o Euro como sua moeda e continuaram usando a Libra.


As fronteiras inibem o direito do homem de ir e vir. Já os animais podem atravessar fronteiras sem ter que apresentar documentos e passaportes. São mais livres do que nós.
Algo de muito grave está para acontecer e vai acontecer muito em breve.
Eu confesso que estou cansado e, por isso, iniciei este texto dizendo que gostaria de viver um pouco antes de morrer.
 

 

Ivan Jubert Guimarães

Direitos reservados ao autor

 

 

Midi: O Que É, o Que É? (Gonzaguinha)