Ivan Jubert Guimarães
26/10/2013

 

 

Há momentos em que eu fico a me perguntar sobre o que é real hoje em dia. Já recebi diversos e-mails que trazem lembranças dos anos 50 e 60 principalmente, e que foi um período mágico para quem teve oportunidade de viver naquela época. Claro que os mais velhos de então não gostavam muito daquela modernidade e nem dos movimentos culturais provocados pelos grandes nomes da música e das artes em geral.


Havia críticas sim, mas essas críticas abriam o diálogo entre pais e filhos que embora rebeldes respeitavam os "velhos".


Com a chegada da televisão no início dos anos 50, surgiram os televizinhos que se juntavam aos que possuíam o aparelho para assistir a determinados programas. Por volta das 18 horas, era a criançada que ficava à frente do aparelho para assistir as sessões de desenhos animados.


Após o jantar a família se reunia em volta do aparelho e todos juntos assistiam um musical ou seriado. Isso até a chegada das primeiras novelas.


Os noticiários eram ao vivo, mas as imagens não existiam e só eram transmitidas horas ou dias depois por filmes. Vídeo tape era ainda uma novidade americana e só chegaria no começo dos anos 60.
A grande diversão da juventude era adquirir um álbum musical, que chamávamos de Long Play, e quando estava sendo lançado um novo disco fazia-se filas em algumas lojas de discos para comprar a mais recente novidade das paradas de sucesso. Quando se conseguia adquirir o LP, a volta para casa era rápida para poder ouvir o disco de preferência na companhia de algum amigo ou amiga. Era uma festa e já no primeiro sábado, cadeiras eram encostadas nas paredes e o bailinho rolava com os novos sucessos.


Mas nem tudo que reluz é ouro e já no começo dos anos 70, muitos daqueles jovens estavam se casando, mas ainda frequentavam bailes de formatura. Os LPs foram sendo substituídos por fitas cassetes e os sons eram cada vez mais altos.


A antiga Cuba Libre também foi sendo substituída por bebidas mais fortes e a elas foram sendo adicionadas algumas drogas vindas ainda dos anos 60, como o LSD, por exemplo. Os jovens não ficavam apenas bêbados, mas drogados também.


Chegou, então, a televisão colorida e aí esta se tornou o grande sonho de consumo da família brasileira. Com o passar do tempo a televisão foi ficando na sala, mas outros aparelhos foram indo parar nos quartos de dormir e as famílias começaram a se separar.


Daí em diante, as indústrias passaram a declarar uma guerra contra os telespectadores de todas as idades através dos comerciais de televisão, cada vez mais bem produzidos. Comidas de todos os tipos passaram a ser oferecidos e passaram a substituir as refeições tradicionais. Fumar era sinal de status, de sucesso, de aventura. Brinquedos cada vez mais engenhosos iam aparecendo diariamente deixando loucos os pais que não podiam pagar por eles. Estes, por sua vez, se encantavam cada vez mais em possuir um novo carro no qual sempre havia uma mulher bonita no banco de passageiros.


A sociedade foi-se endividando, os currículos escolares pioravam a cada ano e as crianças foram ficando burras, porém mais espertas com a tecnologia.


Os computadores tomaram o lugar dos professores e a iniciação sexual dos jovens passou a ser virtual. Ninguém ligava mais para os "catecismos" de Zéfiro, pois a internet passou a mostrar tudo ao vivo.


Os celulares tomaram conta das mentes humanas. Em qualquer lugar em que você esteja, observe as pessoas mexendo nos seus brinquedinhos e imagine se em suas mãos não estivesse um aparelho celular. Ia parecer um bando de loucos ou doentes do mal de Parkinson cujas mãos tremem ao contato com os pequenos teclados. Há lugares em que casais de namorados ficam cada um com seu aparelhinho nos saguões de cinema ou teatro. No meu tempo a brincadeira era usar os dedos e ouvir da menina: "Ai meu amor, aqui não pode" Você insistia e ela dizia: "Ai meu amor, aqui não"; nova insistência e ela: "Ai meu amor, aqui", "Ai meu amor", "Ai meu", "Ai"!


Os computadores, de todos os tamanhos, mudaram o perfil da humanidade. Hoje pais e filhos conversam pelos celulares ou pelas redes sociais. Antigamente, rede social era formada pelos amigos, pelas famílias e pela própria sociedade em si. As reuniões eram festivas e os protestos populares eram espontâneos e nenhum vidro era quebrado.


A violência está tão grande que segurança é o bem mais desejado hoje em dia. Pensa-se mais em segurança do que na própria felicidade, uma vez que esta virou um bem intangível, pois o medo superou o desejo de ser feliz. As televisões mostram assassinatos ao vivo, assassinos são entrevistados em horário nobre, mulheres de todas as idades são estupradas todos os dias por seus maridos, por seus pais, por vizinhos, por padrinhos e por irmãos e até pelos avós.


As guerras são mostradas ao vivo, pessoas ensanguentadas e mutiladas choram diante das câmeras bem no horário de sua refeição. São tão reais as cenas de sofrimento humano que os antigos filmes de guerra americanos parecem histórias infantis.


Os governos do mundo inteiro estão tornando burros os jovens de todo o mundo. As crianças de trinta e poucos anos não saem mais da frente dos jogos de vídeo game e gritam quando matam um alienígena como se estivessem na frente dele. Passam horas matando inimigos, destruindo tudo o que a tele põe em sua frente.


Sabem tudo relacionado a computadores, a festivais de rock, mas quase nunca leram um livro, um bom livro, não estas bobagens que existem por aí e não acrescentam nada ao seu intelecto.
Hoje os jovens acreditam em tudo o que a mídia lhes diz, não são capazes de ter ou de formar um pensamento baseado em suas próprias opiniões ou conclusões.
São pensadores de massa e incapazes de pensar por si. Já não sabem o que é a realidade e confundem-na com a virtualidade.


Temos culpa nisso sim, pois foi com as mudanças que ajudamos a provocar que deixamos que tudo isso acontecesse.


Mas tudo passa e isso também passará!
 

 

Ivan Jubert Guimarães

 

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Midi: Medieval Song