Ivan Jubert Guimarães
09/02/2007
 


Quando eu era criança era comum ver pelas ruas o que chamávamos de “a carrocinha” um caminhão da prefeitura que trazia alguns laçadores que passavam sempre pelas ruas da cidade atrás dos cães sem licença. Lembro-me que eu e meus amigos saíamos correndo pelas ruas espantando os cachorros para tentar livrá-los de serem apanhados e irem parar numa fábrica de sabão.
Na adolescência já nos tornamos mais ousados; era avistar a carrocinha e começávamos nós a corrida atrás dos cães, pegando-os e levando-os para uma das casas que tivesse quintal ou, de preferência garagem na frente. Com isso salvamos muitos cães de virarem sabão.
Hoje, já não vejo pelas ruas tantos cães como antigamente. Parece que a população dos vira-latas diminuiu bastante em relação ao passado, principalmente como numa cidade como São Paulo. Tanto é que a carrocinha ainda existe, mas vê-la é uma raridade.
Os cães saíram das ruas e foram para dentro das casas e dos apartamentos um fato que criou uma fatia de mercado para as indústrias do mundo inteiro. Os cães de hoje já não comem os restos de comida de seus donos. Hoje eles comem ração e tem ração de todos os tipos para todos os tipos de cães. Sabores, então, nem se fala.
Os Pet Shops proliferaram pela cidade parecendo ter mais lojas desse tipo do que padarias. Algumas oferecem o serviço de delivery, buscam e trazem seu cão de volta para o banho e a tosa. E cada parada numa dessas lojas é uma farra. Você volta para casa carregado de bugigangas para seu cachorro, caminhas macias, coleiras novas, guias, biscoitos, ossinhos, sacos de ração, toalhas descartáveis para eles fazerem nelas suas necessidades, saquinhos e pazinhas para você levar consigo quando levar os cães para passear nas ruas, bolas de todos os tipos para os cães brincarem, você joga a bola e eles vão pegá-la, você se cansa, mas o bicho quer continuar e você já se arrependeu de ter comprado a bola.
Uma outra coisa rara de se ver hoje em dia é cachorro com rabo. É, virou moda cortarem o dito cujo quando o cão nasce. Parece que a Natureza ainda não se tocou que está cometendo erros quando fabrica cães. É incrível. Não se vê mais cachorros correndo atrás do próprio rabo, hoje eles correm atrás de coisa nenhuma.
Veterinários então, estão sempre de prontidão nos pet shops, e seu cão até recebe um tratamento amigável deles e você sai de lá carregado de remédios. Seu cão não reclama de nada, mas você insiste que ele tem alguma coisa diferente, talvez seja porque no almoço de domingo ou no churrasco ele tenha comido um pedaço de carne que jogaram para ele. Gente maldosa, onde já se viu dar carne para cachorro? E parece que esses veterinários de hoje só sabem tratar de cães e gatos. Qualquer dia levarei uma tartaruga e vou inventar que ela anda muito devagar e ouvir o que ele tem a dizer.
Hoje tem hotel para cachorro, tem bordel, você leva seu cão e ele fica por lá até arranjar um companheira que o aceite e vice-versa. Os cães de hoje tem estresse e para isso existem psicólogos. Não sei como é o tratamento, mas fico imaginando o cão conversando com seu terapeuta. O que será que aquele danado está contando sobre você?
Em alguns lugares, mais longe das periferias, existem pet shops que na verdade recebem outro nome: coiffeur. Tem uma entrada chique, manobrista na porta e você mulher, entra para dar um toque em seus cabelos e é informada de que ali só tratam de cães e gatos. Você sai frustrada de lá porque na verdade queria um penteado novo como o da poodle de sua vizinha.
Nessas casas, e nas outras também, você se assusta quando vai buscar seu cão: ele chega meio envergonhado, todo perfumado, com fitinhas ou brinquinhos pendurados nas orelhas e você pensa consigo mesmo que levou um cachorro e de volta está levando um idiota para casa.
Agora, tem lugares em que seu cão sai da cor que você escolheu e com os pelos tipo punk. Já vi cães cor-de-rosa, verde, vermelho de todas as cores; têm cães até multicoloridos. Você sabe que se trata de um cão, porque alguns ainda conseguem latir.
Virou moda fazer festa de aniversário para cães, com direito a bolo e tudo o mais, bexigas, refrigerantes, etc. Na hora do Parabéns a Você os cães ficam nos colos de suas donas que fazem com que eles batam palminhas. É o fim! Quando você olha certas fotografias você vê como os cães têm a cara de seus donos. Em muitos casos os penteados das madames são iguais, da mesma cor dos pelos do cão. Você tem até a impressão de que ela carrega o cachorro na cabeça.
Agora tem aquele cão machão, os pit bulls da vida e outras raças ditas perigosas, e são mesmo. Você vê seus donos passeando com estes cães, desfilando pelos parques ou pelas ruas como que dizendo:”afastem-se de mim”. São tão musculosos como seus cães. E às vezes dá vontade de dizer que eles é que precisam de focinheira. Possuem carros grandes, picapes na maioria. E você não sabe se sente medo da picape, do cachorro ou do dono.
Os cães de hoje são diferentes mesmo dos cães de antigamente, levam uma vida de rei, não têm nem que procurar comida nos lixões, fogem de ratos, e alguns até de baratas.
As indústrias de alimentos para cães e gatos faturam cada vez mais e são, na maioria, multinacionais. E continuam investindo nesse mercado, lançando sempre novos produtos. E isso me leva a pensar nos homens, mulheres e crianças que estão famintos pelo mundo, gente que daria um braço por um punhado de ração.
Mundo estranho esse em que vivemos: cães nababos e homens, moradores de rua, mal cheirosos e maltrapilhos, tornaram-se vira-latas na busca de algo para comer. Seu cão urina num daqueles tapetinhos próprios para isso e o homem tem que mijar no poste!
 



Ivan Jubert Guimarães


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