Ivan Jubert Guimarães



Nos dias de hoje, o homem nasce (quase) sozinho e morre (sempre) sozinho. Mesmo depois do desmame ele continua a depender, ao contrário dos outros animais, do alimento que seus pais dão para ele. O homem é o único mamífero que bebe leite por quase a vida inteira. Totalmente dependente.
Alguns poucos saem mais cedo de casa ou por causa de estudos, trabalho ou mesmo para conquistar uma independência. E como é bom ser independente e não ter que dar satisfações para ninguém. Tomar banho na hora que der vontade, comer só quando tiver fome, beber aquele uísque direto no gargalo. No final de semana, acordar só quando tiver vontade, seminu e zanzar pela casa quase como veio ao mundo ou até mesmo peladão.
Mas a noite anterior foi proveitosa e você não agüenta de vontade de contar para alguém, mas está sozinho em casa, ninguém para ouvir. E começa a nascer em você o desejo de morar com mais alguém. Logo você pensa em dividir o apartamento com um amigo, um companheiro de verdade e você imaginando quem poderia ser ele. Você até conhece uns caras legais, mas são muito diferentes de você. Um não bebe, o outro não curte sexo a quatro, o outro é cheio de manias, o outro vai usar suas roupas e assim por diante. A amizade vai acabar e durante um tempo você vai viver debaixo de um teto em total desarmonia.
Você então resolve comprar um cachorro, um bicho amigo, fiel e companheiro para todas as horas. Chega em casa carregando o bicho e assim que abre a porta você o solta e a primeira coisa que ele faz é urinar no chão da sala, por sorte, foi ali, pertinho do tapete. Você corre para a área de serviço, pega um pano de chão e vai secar a urina do bicho e quando chega na sala descobre que o intestino do animalzinho também funcionou, Tudo bem, é só o primeiro dia e logo ele vai acostumar que essas coisas têm lugar certo para fazer. Só que você se esquece de dizer isso a ele. E todas as noites ao chegar do trabalho você tem limpeza para fazer. Talvez aquele amigo cheio de manias tivesse sido uma melhor escolha. Chega o sábado e você vai tomar seu café peladão, como sempre faz. O bicho vai atrás de você e curioso mete o focinho onde não deve. Você dá um pulo e seu pé cai bem em cima de uma pasta mole que seu cão havia deixado no meio da cozinha. Você toma a decisão e logo depois do banho sai com seu animalzinho e o devolve de graça à loja onde o havia comprado. Chega de volta em casa perto do meio-dia, abre a porta do apartamento e diz: “Enfim só”! Tira a camisa, joga em cima do sofá e vai para a cozinha para ver o que tem para comer. Vê um pacote de biscoitos para cachorro e se deixa invadir por uma tristeza e um pouco de remorso. Distraído, morde um biscoito. “Já, já eu me esqueço dele”, você pensa. Não tem nada pronto e você resolve sair para comer algum lanche em algum lugar ali por perto. Volta para a sala, pega a camisa e vai vestindo-a enquanto sai do apartamento e corre para o elevador que ainda está parado em seu andar. Aperta o térreo e começa a descer enquanto abotoa a camisa. De repente, você sente uma ligeira umidade nas costas, levanta o braço e vai cheirar, é cheiro da urina do cachorro, aquele danado mijou no seu sofá. A tristeza e o remorso logo foram embora e você se sente livre de novo. Ao invés de procurar uma lanchonete transada, você opta por comer um sanduíche na padaria da esquina, ali ninguém vai sentir seu cheiro. Alimentado você volta para casa.
Assim que chega você corre para limpar o sofá e tirar aquele cheiro e ainda procura por mais surpresas, mas, felizmente, não encontra mais nada.
Sábado, livre, solto, agenda cheia de nomes de mulheres, começa a discar para ver se arruma algum programa para a noite. Mas qual, a semana inteira voltou cedo para casa por causa daquele infeliz daquele cachorro e não plantou nada e, assim, não vai colher nada.
A noite chega e você fica brigando com o controle remoto da TV. Num canal está passando Beethoven, aquele cachorro babão, no outro Scooby Doo, em outro K9, e no Discovery você vê um filme sobre corrida de trenós puxados por cães. Antes de mudar de canal novamente e dar de cara com Rin-Tin-Tin ou Lassie, você desliga a TV. Parece um complô contra você. Nada para ver, ninguém para conversar. "Amanhã vai ser pior" você pensa. E claro que não dá outra. Sai para caminhar no parque e assim que chega lá se desespera, parece que todos os cães da cidade levaram seus donos para passear no parque. Sai de lá correndo e resolve ir almoçar na casa dos pais, faz tempo que não aparece por lá e os velhos vão gostar.
Assim que chega ao portão, ouve um latido forte, parece ser um pastor alemão. O pai vai abrir o portão e vai avisando: “ele não morde”. Ele acredita e vai beijar a mãe e ouve um rosnado terrível à suas costas. Só faltava essa. Ele almoça de olho no cão e o cão o tempo todo com o olhar nele. Quase não fala, pois cada vez que vai abrir a boca o cão abre primeiro. Os pais, preocupados, querem saber o que passa com ele, embora a experiência saiba que se trata de solidão e sugerem: “Meu filho, temos uma surpresa para você, acho que vai gostar de saber que depois de dez anos a Ritinha voltou para cá. Ficou todo esse tempo estudando medicina em Ribeirão Preto e, agora, formada, voltou para São Paulo. Por que não vai visitá-la? Ele lembrava-se dela, sua primeira namoradinha, menina tímida e sardenta, mas domingo, sem nada para fazer, ele foi bater no vizinho. Uma jovem muito bonita sai ao portão e ele diz:”Vim visitar a Ritinha, soube que ela voltou de viagem”. “Eu sou a Ritinha, não lembra mais de mim”? Ele não conseguia articular palavras de tão admirado que estava com aquela mulher linda e madura à sua frente. “Na verdade, ninguém mais me chama de Ritinha, chamam-me mais pelo sobrenome”.
Ele não se lembrava do sobrenome, mas não tinha importância, pois para ele ela seria sempre a Ritinha. Conversaram bastante até quase anoitecer e ficaram de se falar ao telefone durante a semana.
No caminho de vota para casa foi pensando na jovem doutora o tempo todo e pela primeira vez na vida a idéia de casamento passou pela cabeça dele. Namoraram quando bem mais jovens e podia-se dizer que eram apaixonados um pelo outro, mas a vida seguiu seu rumo e cada um foi para um lugar. Agora, após o reencontro, quem sabe?
Falaram-se quase todos os dias naquela semana, saíram juntos para jantar algumas vezes e logo estavam namorando firme e, em pouco tempo, noivos.
O casamento não demorou para acontecer e, no início, foi tudo às mil maravilhas. Compartilhavam tudo. Mas a vida de cada um sempre segue seu rumo e começaram alguns desencontros. Uma noite, ele chegou com flores para ela e uma garrafa de um bom vinho. Ele estava a fim de um bom jantar caseiro e depois, um sexo de primeira. Ao abrir a porta do apartamento a primeira coisa que viu foi um bilhete em cima do móvel: “Querido, me pediram para ficar de plantão esta noite. Volto só amanhã para casa”. Deixou as flores em cima da mesa, abriu o vinho e começou a beber direto do gargalo. Foi ao banheiro e quando foi usar o papel higiênico ele estava ao contrário do jeito que ele estava habituado durante toda sua vida, mas ela insistia em colocá-lo sempre daquele jeito. Desta vez ele não suportou mais, desenrolou o rolo quase inteiro, espalhando papel por todo o banheiro.
Entrou no box para tomar um banho, tomou um gole do vinho, saboreou-o e, de olhos fechados, abriu a torneira. Sentiu algo macio nas mãos, mas esta suavidade o irritou. Ela tinha, de novo, deixado a calcinha pendurada na torneira. Ele não agüentava mais isso. Todos os dias havia uma calcinha pendurada na torneira. Ele nunca falou nada para não magoá-la. Ele a amava, mas sentia-se tolhido em sua liberdade.
No dia seguinte brigou com seu melhor amigo. Estava desabafando o que sentia e o amigo sugeriu: “Por que você não compra um cachorro”?

 


Ivan Jubert Guimarães


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