Ivan Jubert Guimarães
Outubro de 2006



Em 1942 a Segunda Guerra Mundial já estava em seu terceiro ano. O mundo vivia um período de grave crise. Hitler já havia invadido quase toda a Europa. De um lado as forças do eixo, formadas pela Alemanha, Japão e Itália. De outro, os ingleses e o que restava dos exércitos da França e de outros países ocupados pelos alemães. A França nem tinha mais exército, mas possuía uma forte resistência, formada por seus cidadãos que não se conformavam em ver seu país ocupado. Também na Iugoslávia, havia um forte movimento de resistência aos alemães. Entretanto, isso não era suficiente para expulsar as forças germânicas de seus países. Faltavam armas suficientes para isso, e homens também.
Após o ataque a Pearl Harbor feito pelos japoneses em dezembro de 1941, destruindo a armada norte-americana ancorada naquela base militar, os Estados Unidos entraram no conflito com a declaração de guerra feita ao Japão.
O Brasil apenas declara solidariedade ao país vizinho. Nesta época, o país vivia sob o regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, uma ditadura, portanto.
Era neste panorama em que Elisabete e o Tenente do Exército Luís Carlos viviam.
Elisabete era radiotelegrafista, profissão que aprendera de seu pai e, naquela época, quase não havia mulheres que sabiam essa profissão e, com o país vivendo conflitos internos e ainda com o mundo em guerra, seus trabalhos passaram a ser bastante solicitados. Ela gostava do que fazia e como era uma mulher muito atraente, costumava distrair a atenção dos outros telegrafistas, o que sempre era motivo de broncas dos supervisores, não a ela evidentemente, que era a mais eficiente do quadro.
Luís Carlos havia terminado a academia de Agulhas Negras há pouco mais de um ano, saindo de lá como Segundo Tenente, posto que ainda ocupava. Ele era originariamente de São Paulo, mas estava servindo no Rio de Janeiro. Luís Carlos descendia de uma família de militares, seu avô tinha sido General de Exército e seu pai era Coronel e ainda estava na ativa.
O pai de Elisabete havia sido sargento do exército e havia sido lá que aprendera o ofício de radiotelegrafista. Quando se aposentara prematuramente, devido a um acidente que fez com que passasse a andar mancando, sua vida meio que desmoronou. A insatisfação de sentir-se inválido provocou nele algumas mudanças, entre as quais, o consumo de bebidas. Sua mãe não suportando mais ver o marido daquele jeito abandonou-o e também a Elisabete, que na verdade preferia ficar com o pai e tentar curá-lo do vício dando-lhe um novo alento na vida.
Elisabete começou a trabalhar em uma tecelagem, mas como o salário era muito pequeno, e ela era uma garota estudada, logo mudou de emprego indo trabalhar numa fábrica de gorduras vegetais, na área comercial. Era uma exímia datilógrafa e seu serviço era muito requisitado. À noite, quando chegava em casa, Elisabete preparava o jantar para ela e o pai e procurava conversar bastante com ele. Aos poucos, o velho sargento ia diminuindo o consumo da bebida para poder estar sóbrio quando a filha chegasse, pois ela era a única pessoa que ele tinha para conversar.
Nessas conversas, o velho sargento contava coisas do passado para Elisabete e sobre o trabalho que fazia como radiotelegrafista e as vantagens que tinha em ser sempre o primeiro a saber das notícias.
Elisabete foi se interessando em aprender o código Morse e, em pouco tempo, ela já sabia operar o código como um profissional. Ás vezes ela e o pai se comunicavam em código Morse dentro de casa. Ele usando um lápis que batia na mesa e ela alguma coisa qualquer, às vezes, até uma velha máquina de escrever. A rapidez dela era tanta que seu pai começou a sugerir que ela deveria procurar um trabalho nessa área
Um dia, ela criou coragem e dirigiu-se a um grande jornal. Fizeram-lhe um teste de datilografia e iam admiti-la como datilógrafa, cargo que ela não aceitou, queria ser radiotelegrafista. Não foi aceita e, sem desanimar, procurou trabalho em agências de notícias onde conseguiu o cargo que queria, embora o horário de trabalho não fosse fixo, havendo escalas de serviço, fato que nem de longe a preocupou. Seu talento e precisão logo fizeram dela a principal radiotelegrafista da agência.
Numa determinada tarde de novembro de 1941, ela conheceu o tenente Luís Carlos. Este havia acompanhando um major do exército até a agência onde ela trabalhava, pois o major levava um “pedido especial” do presidente Vargas, para que todas as notícias falando da guerra, fossem enviadas imediatamente ao palácio do Catete, sede do governo na época. Após a curta reunião, o major pediu que o tenente ficasse no local e participasse da reunião que o pessoal da agência teria dali a minutos. Meio contrariado Luís Carlos cumpriu a ordem. Durante a reunião, o supervisor do setor explicou a todos os radiotelegrafistas as novas instruções e que o presidente da República exigia que todas as notícias falando da guerra na Europa fossem enviadas imediatamente a ele. Elisabete fora encarregada de compilar as notícias e contatar o tenente Luis Carlos. Eles dois seriam o elo entre a agência e o palácio do governo.
Luís Carlos ficou satisfeito com esta decisão, pois ficara encantado com a beleza de Elisabete e com sua simplicidade e inteligência.
Naquela mesma noite, quando ela deixou o emprego chovia forte no Rio de Janeiro e Elisabete, sem guarda-chuvas, esperava sob a marquise do prédio que aquele aguaceiro diminuísse para que ela pudesse ir para casa. Estava absorta em seus pensamentos quando uma voz atrás dela murmurou:
- Quando eu desci já estava chovendo e então resolvi esperá-la para, quem sabe, nos conhecermos um pouco melhor já que iremos trabalhar juntos a partir de agora.
Ela virou-se, quase que não entendendo direito o que aquela voz lhe dizia e deu de cara com o tenente que sorria para ela. Aquele sorriso pegou-a desprevenida obrigando-a sorrir também.
- Você mora longe daqui? – perguntou ele.
- Não muito, costumo vir e voltar a pé para casa. É aqui mesmo no Centro.
- Mas acho que hoje talvez seja melhor você pegar uma condução. Esta chuva não parece que vai parar tão cedo.
- Parece que é verdade, mas terei que ir assim mesmo para preparar o jantar de meu pai. Ele não anda muito bem de saúde.
- O que ele tem?
- Não é um problema clínico na verdade. Ele era sargento do exército e sofreu um acidente e foi aposentado. Isso o abalou bastante, minha mãe nos deixou há alguns anos e ele viveu momentos de depressão devido à bebida. Tem-se esforçado muito nos últimos tempos e quase não bebe mais, apenas para conversar comigo.
- Quer dizer então que temos algo em comum, familiares do exército. Acho que vamos nos dar muito bem. Me diz uma coisa, para que lado é sua casa? Direita ou Esquerda?
- Direita, por quê?
- Porque a Confeitaria Colombo fica aqui perto na Rua Gonçalves Dias e eu pensei darmos uma corrida até lá, tomarmos um chocolate e se a chuva não passar, você estará mais aquecida e mais perto de casa, o que acha?
- A idéia não parece má, mas a gente mal se conhece, não sei de devemos e depois chegaremos lá ensopados.
Luís Carlos não esperou ela terminar de falar, pegou-a pela mão e atravessaram correndo para o outro lado da avenida e foram caminhando a passos rápidos por sob as marquises dos edifícios. A confeitaria ficava a mais duas quadras de onde estavam quando ele perguntou:
- Cansada?
- E molhada – respondeu rindo.
- Logo estaremos lá.
Não foi difícil arranjarem uma mesa, pois com aquele tempo poucos se arriscavam a sair de casa, mas a Colombo nunca ficava fazia.
- Diga-me uma coisa Elisabete, em qual unidade seu pai servia?
- Ele servia no Quartel-General onde era radiotelegrafista.
- E como ele se feriu?
- Foi num exercício de manobra. Ele carregava o equipamento às costas e um jipe passou perto demais e ele caiu num barranco e quebrou a perna em dois lugares. Nunca voltou a andar normalmente e por isso foi aposentado.
- Qual o nome dele?
- Afonso de Freitas Lima.
- Sargento Liminha.
- Você conhece meu pai?
- Todo mundo conhece seu pai e suas histórias, um grande homem. Se você me permitir, gostaria de acompanhá-la até sua casa e revê-lo.
- Desculpe Luis Carlos, mas não sei se ele gostaria que você o visse do jeito que ele está agora e depois não sei dizer se ele está sóbrio, pois já passou do horário de eu chegar em casa.
- Eu entendo, mas eu ficaria muito feliz se pudesse revê-lo e tenho certeza de que ele ficará muito feliz em me ver também.
- Vocês eram íntimos assim?
- Não, na verdade quase nunca nos falamos, mas o pouco que ele me disse mudou minha vida. Por favor, se não for hoje que seja outro dia, mas gostaria muito de vê-lo outra vez.
- Tudo bem, verei o que posso fazer. – E olhando para fora: - a chuva ainda não parou. Eu preciso mesmo ir.
- Está bem, vou pagar a conta e iremos.
Saíram da confeitaria e a chuva ainda caía. Iam se despedir quando o tenente percebeu a aproximação de um táxi e fez sinal para que ele parasse.
- Vem, entra comigo e eu deixo você em casa e prometo que vou embora.
- Para onde vamos senhor? – perguntou o motorista.
- Eu vou para o Flamengo, mas a moça vai ficar aqui mesmo no Centro, me parece que indo em frente e no final à esquerda, é isso Elisabete?
- Isso mesmo, o senhor pode ir em frente até uma quadra antes do final da avenida e lá o senhor pega à esquerda.
Em menos de cinco minutos o táxi parava em frente do prédio onde Elisabete morava. Era um prédio pequeno de 3 andares e sem elevador. Ela morava no segundo andar. Luís também desceu para se despedir dela no mesmo instante em que a chuva diminuía de intensidade tornando-se apenas uma garoa.
- Bem, promessa é promessa, mas eu gostaria muito de tornar a vê-la. Acho que temos coisas em comum e gostaria de conhecê-la melhor, isso se não houver nenhum motivo que torne minha atitude inconveniente.
- Claro que não, pague o táxi.
- Como?
- Pague o táxi e suba comigo.
Luís pagou ao motorista e deu-lhe uma boa gorjeta e, em seguida subiu o lance de escadas atrás de Elisabete.
Quando Elisabete abriu a porta do apartamento teve uma surpresa. A mesa estava posta e seu pai estava acabando de preparar o jantar, coisa que ele nunca fizera antes. Ela ficou boquiaberta e seus olhos irradiavam felicidade quando beijou o pai.
- Temos visita papai! Está esperando lá na sala. Eu o conheci hoje e ele insistiu em me acompanhar até em casa
Quando Elisabete e o velho sargento entraram na sala, o tenente ficou em posição de sentido e apresentou-se: “tenente Luis Carlos, senhor”
A primeira impressão é que o velho sargento não sabia de quem se tratava e que estava confuso pelo fato de um oficial se perfilar para se apresentar a um velho sargento aposentado.
- Tenente Luís Carlos, é você mesmo?
- Sim sargento Liminha, sou eu mesmo e continuo vivo como o senhor me deixou no último encontro.
Elisabete olhava de um lado para o outro tentando entender o que os dois conversavam. Apesar do olhar atônito, ela parecia feliz ao ver os olhos do pai brilhando como há muito ela não via.
- Vocês dois querem me dizer o que está acontecendo aqui?
- Você nunca contou a ela sargento?
- Contou o quê papai? O que é que eu não sei?
- Nada demais filha, são histórias de quartel!
- Histórias de quartel coisa nenhuma pai, por favor, eu quero saber.
- São bobagens filha. Sabe como no quartel todo mundo gosta de aumentar as coisas.
- Luís, eu confiei em você, acho que você me deve isso, por favor me conte, seja lá o que for. Quanto a você pai, não sei o que preparou para a gente jantar, mas coloque mais um prato na mesa.
- Ta bem, filha, mas não acredite na metade do que ele te contar.
- Estou esperando Luís.
O velho sargento deixou a sala e foi para a cozinha terminar o jantar.
Luís começou sua narrativa:
- Bem Bete, posso chamá-la assim?
- Não
Ele corou.
- Meus amigos me chamam de Lisa – ela disse, rindo do embaraço dele.
- Bem Lisa, na verdade eu nem sei porque seu pai nunca contou essa história para vocês, pois é talvez a história mais bonita que ele teria para contar.
- Mas do que se trata, fala logo!
- É sobre o acidente de seu pai, não foi só um acidente isolado. Ele se atirou na frente do jipe.
- Como é que é? – Lisa estava atônita.
- É verdade, ele se atirou na frente do jipe que vinha em velocidade e meio desgovernado pelo barro da estrada.
- Ele tentou se matar? O que há de bonito nisso?
- Eu estava fazendo os exercícios com minha tropa quando pisei em falso em um buraco e caí, torcendo o tornozelo. Era um trecho em curva e só dava para escutar o barulho do jipe se aproximando. Quando seu pai percebeu o que ia acontecer ele atravessou na frente do jipe e me puxou, me pondo a salvo num barranco, mas não deu tempo dele subir, pois o jipe pegou suas pernas e o atirou longe, barranco abaixo. Foi assim que ele quebrou a perna em dois lugares e teve outros machucados também. Ele salvou a minha vida.
Lisa estava emocionada, os olhos marejados, e olhou para o lado e viu seu pai parado na porta que dividia a sala e a cozinha. Dirigiu-se a ele e o abraçou com muita ternura e carinho.
- Por que pai? Por que nunca contou isso pra gente?
- Não contei, porque antes mesmo de me lembrar de contar, eu ainda estava no hospital, sua mãe me deu bronca dizendo que aquilo tinha acontecido comigo porque eu devia estar bêbado. Por isso não contei. Ela já tinha feito o seu julgamento.
-Ah papai! Como o senhor deve ter sofrido com isso!
- Não, meu sofrimento maior foi ter dado baixa do exército.
- E aposto como nunca mostrou a ela sua medalha também. Por heroísmo! – e virando-se para Lisa – seu pai deu baixa como herói.
Lisa estava emocionada ao lado do pai e olhando para Luís, murmurava entre dentes: “obrigada, muito obrigada!”

O Brasil continuava com sua política de neutralidade até que no final de janeiro de 1942, Vargas finalmente corta relações com os países do eixo.
Navios brasileiros começam a ser afundados por navios alemães. No Rio, e nas principais cidades manifestações populares exigiam que o país unisse suas forças aos exércitos aliados para combater o fascismo e o nazismo, declarando guerra aos países do eixo. Fato que só iria acontecer em agosto daquele ano.
Lisa e Luís Carlos passaram a se ver quase todos os dias, quando não por causa do serviço, ele aparecia nos finais do expediente de Lisa e iam juntos para casa. Eles estavam se entendendo muito bem e conversavam muito sobre o trabalho dela na análise das notícias que chegavam diariamente. Parecia ser iminente que logo o Brasil teria que entrar na guerra, pois o país já vinha sofrendo pressões dos Estados Unidos.
Quando a declaração de guerra de fato aconteceu, Lisa ficou apavorada, pois ela sabia que Luís Carlos teria que ir para o front. Eles estavam cada vez mais apaixonados e não conseguiam mais ficar longe um do outro, embora isso acontecesse às vezes por força dos plantões que Luís tinha que dar no quartel
No mês de setembro, numa noite quente, ao chegar em casa Lisa deparou com a apartamento às escuras e imaginou que seu pai tivesse saído, pois nos últimos tempos ele vinha se sentindo muito bem, desde que a verdade foi contada por Luís, ele voltou a sentir orgulho de si mesmo. Lisa até sorriu um pouco pensando “velho danado” mas, ao acender a luz, viu os pés de seu pai próximo ao banheiro. O pai estava caído e imóvel. Ela chamava, gritava por ele, mas não obtinha resposta. Abriu a porta do apartamento e gritou por socorro, mas quase não aparecia ninguém, até que um morador do andar de cima desceu correndo e constatou que o velho sargento estava morto. Lisa entrou em pânico, tentando reanimar seu pai, mas o vizinho tentou acalmá-la dizendo que ele se fora e que não havia nada que pudessem fazer.
Refeita do pânico ela disse que precisa telefonar e como não possuía telefone, o vizinho ofereceu-se para ajudá-la. Ela não sabia que providências tomar e precisava da ajuda de Luís Carlos e tentou desesperadamente localizá-lo, mas era tudo em vão. Deixou diversos recados em todas os lugares onde ele poderia estar e, então, ligou para seu supervisor no trabalho e logo depois ele estava no apartamento dela. O vizinho chamou a esposa e os dois também faziam companhia para Lisa. Por volta das nove horas da noite chegou Luís Carlos que imediatamente começou a tomar todas as providências, ligando para o Hospital do Exército e também para seus superiores.
No dia seguinte, os jornais noticiavam a morte do heróico sargento Liminha, por um infarto fulminante do miocárdio. O enterro seria naquele mesmo dia e o sargento seria sepultado com todas as honras de herói. E foi no sepultamento que Lisa teve outro susto ao avistar sua mãe, chorando copiosamente, fato que deixou Lisa irritada, pois durante anos seu pai vivera só e sofrendo sozinho as dores do abandono da mulher que ele sempre amara, mas de quem nunca recebera um carinho sequer.
A mãe de Lisa aproximou-se dela e foi recebida com frieza.
- Eu não sabia que ele era um herói.
- Eu sei, pra você ele era um bêbado e ele só bebia porque você o julgou antes dele poder contar sobre o acidente.
- Me perdoe filha!
- Você não me fez nada. Não é a mim que tem que pedir perdão. Eu preciso ir agora, estão me esperando.
E foi assim que Lisa viu sua mãe após dez anos passados.
Luís Carlos acompanhou Lisa até seu apartamento e ela foi preparar um chá para eles. Ela estava exausta, com olheiras de tanto chorar e por ter ficado toda a noite em claro. Seu chefe a dispensara do serviço no dia seguinte, ordenando que ela descansasse bastante. Ela cumpriu bem as ordens e, ao acordar no dia seguinte, viu Luís Carlos dormindo no sofá. Ele havia passado a noite lá. Ela sorriu e beijou-lhe o rosto o que fez com que ele prontamente acordasse.
Os dias que se seguiram foram agitados. A política interna vivia momentos difíceis e a política externa vinha sofrendo muitas pressões também, pois era fato conhecido que Vargas tinha simpatia pela Alemanha, apesar de já haver rompido relações diplomáticas com os países do eixo.
Lisa e Luís Carlos, cada vez mais apaixonados, encontravam-se sempre que possível e na virada do ano de 42 para 43 eles passaram a noite juntos literalmente. Ela preparou um jantar bem especial, um assado, uma champanha e uma sobremesa deliciosa. Após o jantar Lisa disse para Luís Carlos:
- Meu querido, se você tiver mesmo que ir para esta guerra estúpida eu vou esperar por você todos os dias e prometo que quando você voltar vai encontrar uma mesa como esta, para que tenhamos um jantar maravilhoso de reencontro. Em seguida, ela o beijou com muita paixão e esta foi a primeira noite de amor dos dois.
Em 1943 a guerra tomava seus momentos mais cruéis com a participação dos exércitos aliados em toda a Europa já começando a expulsar os alemães de alguns territórios ocupados. Mas aqui no Brasil o confronto maior era interno com muita movimentação de protesto de estudantes e de políticos querendo a volta do país à democracia.
Nesse período todo Lisa e Luís Carlos viviam uma vida quase que em comum. Apesar dela não ter-lhe entregado uma cópia da chave, ele sabia que ela sempre deixava uma cópia em baixo do tapete na porta de entrada. Ele respeitava a vontade dela e só aparecia quando convidado por ela.
O tempo ia passando e as notícias de que o Brasil iria participar da guerra estavam mais fortes a cada dia o que apavorava Lisa. Luís Carlos era tudo o que ela tinha. Tinham pensado em se casar, mas a guerra fazia com que esperassem mais.
Os rumores estavam cada vez mais fortes, a pressão popular também.
Lisa recebia diariamente notícias da guerra, li-as, selecionava-as e depois fazia com que chegassem às mãos de Luís Carlos ou então iam direto para o Palácio do Catete.
Uma notícia chegada dos Estados Unidos fazia referência a morosidade que o Brasil vinha dando à Segunda Guerra, talvez pela simpatia que o presidente tinha pelos nazistas. Isso deixou Lisa preocupada, pois ela sabia que agora era só uma questão de tempo para o país entrar na guerra para valer.
Apesar da declaração de guerra em agosto de 1942, somente em maio de 1944 é formada A FEB Força Expedicionária Brasileira. E dois meses após, desembarcaria seu primeiro contingente na Itália.
Luís Carlos estava nesse primeiro contingente. Antes do embarque ficaram aquartelados muito tempo realizando os treinamentos necessários que os preparassem para os dias difíceis que estavam por vir. Desta forma ele ficou muitos dias sem ver Lisa e somente no dia do embarque é que puderam se despedir pessoalmente.
Na noite de despedida, Lisa estava chorosa, mas não queria passar essa impressão para Luís Carlos e, desse modo, quase evitava olhar para os olhos dele. Estavam sentados no sofá, ela com a cabeça apoiada nos ombros dele. Os dois praticamente em silêncio.
As horas haviam se passado rapidamente sem que eles conversassem sobre qualquer assunto. Ela queria apenas a proteção de seus braços e ele queria tocá-la por inteiro, mais uma vez.
- Lisa, se o mundo acabasse nesse exato momento, com você em meus braços, eu teria uma morte muito feliz.
- Saiba que eu também, meu amor!
Luís com as pontas de seus dedos levantou o rosto de Lisa, e ao ver aqueles olhos brilhantes, puxou-a para si e beijou-a docemente, apertando seu corpo contra o seu, sentindo-a mais sua do que nunca.
Lisa entregou-se de corpo e alma aquele homem que em poucos dias estaria numa guerra que não era a dele, mas para cumprir com seu dever de militar.
Luís Carlos beijava-a com ardor agora, e suas mãos percorriam todo o corpo de Lisa, arrancando suas roupas ao mesmo tempo em que ia tentando livrar-se de suas próprias roupas. Em poucos instantes, Lisa estava nua em seus braços, a pele arrepiada pelo desejo e Luís possuiu aquele corpo maravilhoso de todas as formas imagináveis e Lisa correspondia a cada carinho, a cada toque, como se fosse a última vez.
Pouco tempo depois, adormecidos um nos braços do outro, Lisa acariciava os cabelos de Luís Carlos e chamava-o baixinho. Era hora de partir.
Era julho de 1944 e a opinião de todos era que a guerra já estava quase em seu final. Os aliados estavam conseguindo expulsar os alemães dos países invadidos e, na verdade, nem precisavam da ajuda do exército brasileiro. A decisão havia sido mais política do que qualquer outra coisa, mas os dirigentes populistas sempre gostaram de se exibir. Da mesma forma, na Argentina, Perón declarou guerra à Alemanha quando esta já estava praticamente derrotada. Mas, ainda assim, A Europa era um campo de batalha muito feroz. A Alemanha já estava sendo cercada pelos ingleses, pelos americanos e, também pelos russos que já haviam iniciado uma contra ofensiva.
Nos campos da Itália, um exército já desmontado resistia mais pela honra do que pelo ideal e era num desses campos que estava a Força Expedicionária Brasileira. Parecia estranho brasileiros na Itália lutando contra alemães;
No início, logo após o embarque, Lisa escrevia quase todos os dias para Luís Carlos e ele para ela. Mas após o desembarque as cartas raramente eram entregues devido aos movimentos das tropas. Assim, Luís Carlos parou de escrever e Lisa continuou escrevendo, mas como não obtinha respostas foi diminuindo seu ritmo.
Diariamente, no entanto, ela acompanhava as notícias que chegavam do front e por elas sabia que Luís Carlos estava bem, pois seu nome não aparecia na lista de baixas. Quando da tomada do Monte Castelo, a batalha mais sangrenta que a FEB participou Lisa teve a notícia da vitória das tropas brasileiras, mas também ficou sabendo que o jovem, agora Primeiro Tenente Luís Carlos, sofrera um ferimento na perna e que havia sido conduzido para uma base aliada.
Diante do ocorrido, Lisa ficou aliviada, mas cada dia mais apreensiva, pois não recebia notícias.
Em abril de 1945, Lisa deu à luz a um menino. Na última noite que tiveram ela engravidara de Luís Carlos e esperava pela volta dele para registrar o menino, embora ela desejasse que o menino se chamasse Afonso, como seu pai.
O tempo foi passando e os aliados retomando a Europa. Os alemães já haviam se rendido e os americanos concentravam todas as sua forças agora contra o Japão, que também resistia como podia à ofensiva americana.
Com a rendição do Japão, após as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a guerra chegara ao seu final e Lisa sem notícias de Luís Carlos.
No Brasil havia muita alegria pelo final da guerra, mas a situação interna estava cada dia pior, com todos os segmentos da sociedade querendo destituir Vargas do poder, fato que iria acontecer ainda em 1945.
Lisa concentrava-se em seu trabalho, acompanhado diariamente notícias vindas da guerra na tentativa de descobrir algo sobre Luís Carlos. Até que um dia uma notícia dizia que o mesmo navio americano que transportara os soldados brasileiros estaria atracando no porto do Rio de Janeiro trazendo o mesmo contingente que havia levado para a Itália.
No dia anunciado como o dia da volta, Lisa dirigiu-se ao porto na esperança de reencontrar Luís Carlos, mas o táxi em que se encontrava não conseguia andar, pois milhares de pessoas acorriam ao porto vindos de todas as direções.
Seria impossível seguir em frente, então ela pediu que o motorista fizesse meia-volta e a levasse ao local onde ele a apanhara. Logo depois chegava em casa e correu para preparar o jantar para ela e para Luís Carlos. Afinal ela tinha certeza de que ele iria para casa o mais cedo que pudesse.
Pegou o bebê no apartamento do vizinho de cima e foi até a um açougue quase ao lado do prédio, comprou um bom pedaço de carne, batatas, verduras frescas e ainda uma garrafa de um bom vinho, voltando em seguida para o apartamento onde iniciou os preparativos para o jantar, olhando para o relógio a cada minuto.
- Vai dar tempo, eu sei que vai! – murmurava a cada segundo.
Enquanto a carne assava e o arroz cozinhava, ela correu para o banheiro e tomou uma ducha rápida, sempre murmurando: “vai dar tempo, eu sei que vai!”
Saiu do banho, olhou-se por segundos no espelho e ficou admirada, pois ainda era uma mulher muito bonita. Correu para a cozinha, ainda enrolada na toalha e o assado já estava quase no ponto e o arroz já estava pronto. Preparou rapidamente uma salada e foi se arrumar. Vestiu-se com seu vestido mais bonito, um vestido azul que ela quase não usara nos últimos tempos, mas que marcava bem seu lindo corpo.
Voltou à sala e começou a preparar a mesa, uma toalha bonita, os pratos, os talheres, as taças de vinho, o vinho, flores ao centro da mesa e... “falta alguma coisa” – pensou. “As velas!” Correu para o armário, pegou os castiçais, teve que limpá-los primeiro para tirar as marcas de oxidação da prata e colocou as velas. Foi até o quarto e o bebê dormia a sono solto.
Ela pôs uma música bem suave na vitrola, sentou-se e, de repente deu um pulo do sofá: “Meu Deus! A sobremesa!” Como havia se esquecido da sobremesa? Saiu correndo do apartamento, deixou a chave em baixo do tapete e foi correndo até a Confeitaria Colombo, que por sorte, era ali perto.
Um homem subia vagarosamente as escadas do prédio de Lisa, degrau por degrau, apoiando-se em uma bengala. Estava barbado e usava um uniforme em cujas ombreiras brilhavam as duas estrelas de primeiro tenente. Abaixou-se com certa dificuldade, tateou a mão sob o tapete e achou a chave. Colocou-a na fechadura e entrou.
O que viu deixou-o atônito, Lisa esperava alguém, a mesa posta, um cheiro bom vindo da cozinha, mas a casa parecia vazia. “Talvez esteja no vizinho” – pensou. Sentou-se no sofá para aguardar sua chegada quando um choro de criança despertou sua atenção. Dirigiu-se ao quarto e viu aquele bebê já crescidinho que acabara de acordar e por isso chorava. Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e imaginou que talvez tudo aquilo fosse o motivo de não ter mais recebido cartas de Lisa. Saiu do quarto, apanhou sua mochila no sofá, olhou em volta para as paredes e saiu do apartamento, deixando a chave no mesmo lugar onde a pegara, sob o tapete.
Desceu lentamente as escadas do prédio e, chegando à rua, fez sinal para o primeiro táxi que passou, dizendo ao motorista: “Estação Rodoviária”.
Assim que o táxi partiu, Lisa virou a esquina da rua onde morava . Andava apressada, com o coração pulando de ansiedade. Chegando ao prédio ela murmurava:”Vai dar tempo, eu sei que vai!” Subiu as escadas e já ofegante, abaixou-se para pegar a chave, ela ainda estava lá, no mesmo lugar em que ela deixara. Entrou em casa, foi ver o filho que choramingava, sorriu para ele dizendo:”Hoje você vai conhecer seu pai, você é muito parecido com ele”.
Pegou o filho no colo, terminou de arrumar a mesa, abriu o vinho, serviu-se de uma taça, sentou-se no sofá e esperou.
 



Ivan Jubert Guimarães


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