Ivan Jubert Guimarães
14.08.2006
 



Mário era um sujeito comum em seus trinta e poucos anos. Sujeito esforçado, trabalhador e honesto. É, talvez não fosse tão comum assim. Mas estamos falando de uma outra época, do final da década de 50. Ele trabalhava a semana inteira numa loja de calçados da Rua São Bento, no centro de São Paulo. Por ali, passavam diariamente muitas pessoas e, naquela época, as pessoas se vestiam bem para ir ao trabalho. E era ali por perto que ficava o centro bancário da cidade.


A loja onde Mário trabalhava era das mais movimentadas da região, sempre apresentando novidades e os últimos lançamentos da moda em calçados masculinos e femininos.


Quando um cliente se sentava à sua frente, era muito difícil sair sem comprar pelo menos um par de sapatos, o que fazia de Mário um excelente vendedor.


Agora, quando uma mulher bonita se sentava à sal frente, Mário ficava diferente; ao fazê-la experimentar o calçado escolhido, ele tocava o tornozelo feminino com um toque todo especial. Colocava o calçado no pé da mulher e com os dedos ele puxava levemente a perna da moça e ela nem percebia a visão que proporcionava ao Mário. Os elogios que ele fazia, acabavam por convencer a cliente a comprar aquele par de sapatos e, muitas, vezes, acabava vendendo um outro par de um outro modelo para ser usado em outra ocasião.


Todo mundo gostava de ser atendido por ele quando entrava na loja, pois ele entendia de pés. Quando o freguês estava indeciso entre um par e outro, Mário fazia com que ele comprasse os dois pares, pois a indecisão era sinal de que o cliente havia gostado dos dois.


Quando chegava os sábados, Mário trabalhava até às 15 horas quando a loja fechava. Ele pegava seu paletó, vestia-o e saía para fora da loja que já havia baixado suas portas.


Caminhava pela Rua São Bento e pegava a Rua Direita em direção à Praça da Sé, onde pegaria o ônibus para ir para casa. Antes de pegar o ônibus, porém, ele sempre parava em um bar de esquina onde tomava um vermute tinto. Era seu aperitivo preferido.


Já em casa, Mário descansava alguns minutos sobre sua cama e por volta das seis da tarde começava a se preparar para a noite de sábado. Fazia a barba usando uma navalha profissional, aparava o bigode, tomava um banho e depois penteada seus cabelos, colocando um pouco de Quina Petróleo. Ia para o quarto, abria o guarda roupa e escolhia aquele terno listrado de sempre, vestia a camisa de colarinho, fazia um nó perfeito na gravata e, antes de sair de casa, pegava um cravo e colocava em sua lapela. Estava pronto para mais uma noite de sábado.


Voltava ao centro da cidade, vestido com aprumo e dirigia-se ao Avenida Danças, onde ele comprava alguns tíquetes e dançava quase a noite toda com as dançarinas profissionais. Ele adorava dançar e as mulheres adoravam dançar com ele. Ele sabia todos os ritmos musicais e se houvesse um concurso, certamente ele seria o vencedor. Suas noites de sábado sempre terminavam na manhã de domingo, pois de madrugada já não havia ônibus. Mário então quando não conseguia a companhia de uma das dançarinas ia parar num dos muitos bordéis da região. Ele era gentil com as mulheres, tratava-as como clientes, embora ali o cliente fosse ele. Muitas vezes precisava sair com a madrugada ainda escura, mas às vezes conseguia dormir um pouco mais. O que diferenciava Mário dos outros clientes das putas, era que na hora em que ele partia, sempre tirava o cravo da lapela e o pousava no travesseiro junto com o pagamento pela companhia.

 


Ivan Jubert Guimarães


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