Ivan Jubert Guimarães
1988



Tobi era um cãozinho muito bonito, mas levado que ele só. Tão levado que seus donos não agüentavam mais suas estripulias. Ele, como não tinha com quem brincar, brincava sozinho e puxava as roupas dos varais, derrubava as vassouras e vivia atazanando a dona da casa.

Quando as crianças chegavam da escola, Tobi fazia a maior festa para elas, mas elas chegavam tão cansadas e com tanta fome que mal lhe davam atenção.

À noite, na hora do jantar, ele procurava fazer festa para os donos da casa, mas estes ordenavam que ele ficasse quieto. Apesar de muito levado, Tobi era um cãozinho obediente.

Às vezes Tobi conseguia entrar dentro da casa e fazia uma bagunça danada, pois corria pela casa inteira e chegava a derrubar coisas, tirar tapetes do lugar e o pior de tudo é que enchia a casa de pêlos. Quando a casa recebia visitas então nem se fala. Ele ficava agitado, latia e latia querendo atenção. A visita até tentava um carinho, mas era desencorajada por algum dos moradores.

Sempre que alguém tocava a campainha ele desatava a latir. Não era um cão agressivo, mas as pessoas não sabiam disso e o entregador de gás tinha medo de entrar na casa para trocar o bujão.

Tobi tinha uma casinha comprada quando ele era ainda um cãozinho bem pequeno. Como já havia crescido bastante, passava a maior parte do tempo fora dela, entrando apenas quando o sol estava muito forte ou então quando chovia.

As pessoas da casa não eram más com ele. Todo mundo até que gostava dele, mas raramente alguém brincava com ele ou o levava para dar um passeio na rua. E quando isso acontecia, ele ficava doido de tão feliz. Queria correr e brincar com todo mundo, sem falar que parava em quase todos os postes da rua, cheirava tudo que encontrava pelo chão e latia quando encontrava outro cão passeando. Era duro segurar a guia e por causa disso, quase ninguém mais saía com ele.

Para evitar que ele ficasse pulando nos varais, o dono da casa comprou uma corrente que o prendia em sua pequena casinha. Como a corrente era curta Tobi quase não conseguia mais se movimentar pelo quintal e passou a ficar ao lado da casinha ou então dentro dela. Com isso, ele parou de incomodar as pessoas com suas correrias e latidos. Os donos da casa então, também o prendiam à noite para que não ficasse latindo a cada vez que alguém passasse em frente da casa. E assim foi indo e Tobi passava o dia todo preso, coitado.

Com o passar dos dias, Tobi ia ficando cada vez mais quieto, cada vez mais triste. Nem com as crianças ele fazia mais festa quando estas chegavam da escola.

Ele via as pessoas se divertindo e ele sempre tão triste que um dia ficou cansado de ser um cãozinho, ele queria virar gente, poder andar livremente pela casa, sair, comer sem que tivessem que colocar ração em sua tigela, poder brincar com outras crianças, enfim, fazer tudo o que ele via as pessoas fazerem sem que ele participasse.

Numa determinada noite, enquanto as pessoas jantavam notaram o silêncio e ficaram até preocupadas, pois Tobi não fazia o menor barulho. Alguém abriu a porta da cozinha e viu o cãozinho deitado e este apenas levantou a cabeça levemente. Parecia que tudo estava bem e um pouco mais tarde, todos foram dormir.

E foi nessa noite que Tobi sonhou. Sonhou que era um menino de verdade, que era gente de verdade. E ele brincava, se deliciava com as guloseimas e tinha um quarto grande só para ele. Todas as pessoas da casa conversavam com ele e prestavam atenção quando ela falava alguma coisa, E como ele falava!

Dentro da casa todos dormiam e todos sonhavam o mesmo sonho. Eles sonhavam que eram cães e que moravam no quintal de uma casa e viviam presos durante todo o dia. Queriam correr e não podiam pois a corrente não lhes deixava dar mais do que alguns poucos passos. Queriam brincar, mas ninguém parecia se importar com eles. Sentiam fome e sede, mas tinham que esperar que alguém se lembrasse disso. E nesse sonho, todos se sentiam infelizes,

No dia seguinte, bem cedinho, todos os moradores da casa se levantaram antes que o café estivesse pronto, mas ninguém pareceu se importar com isso. Foram quase juntos para a cozinha da casa, abriram a porta bem lentamente e dirigiram-se à pequena casinha onde Tobi ainda dormia pesadamente e parecia estar sorrindo. O dono da casa abaixou-se perto dele e acariciou sua cabeça e livrou-o da corrente.

Tobi acordou, levantou e espreguiçou-se gostosamente e ouviu todos os moradores da casa dizerem: "Bom dia Tobi!"
 

 



FIM


Ivan Jubert Guimarães


Direitos reservados ao autor