Ivan Jubert Guimarães
26/09/2007

 



Silva, quando jovem, até que era um sujeito apessoado. Vestia-se bem e estava sempre disposto ao trabalho. Silva era vendedor de uma loja de roupas masculinas e tinha orgulho de trabalhar lá. Quando algum cliente descontente com alguma coisa queria reclamar de algo e pedia para falar com o Sr. José Silva, lá ia ele enfrentar a parada. Afinal de contas ele não era um Zé qualquer, era um José Silva e ele nem levava em consideração que era apenas um xará do fundador da loja. Um belo dia a loja fechou suas portas definitivamente e Silva foi o que mais sentiu. Ele não perdeu só o emprego, ele perdeu a pose também.

Sentia-se um derrotado, pois só sabia fazer aquilo. Ninguém lhe dava emprego tal era a sua cara de desânimo e ele se perguntava quem daria emprego a um falido.
O desânimo tomou conta dele e as pessoas mais próximas começaram a se afastar dele.
Sentindo-se cada vez mais sozinho, Silva começou a descuidar de sua própria aparência. Deixou de se barbear todos os dias como era seu costume, as roupas já não lhe caiam tão bem como antes e aonde quer que ele fosse, a primeira coisa que fazia era procurar um lugar para se sentar. E lá ele ficava pensando lá sabe Deus o quê.

Os poucos amigos que lhe restavam procuravam animá-lo, mas Silva dizia estar cansado. Recusava passeios, visitas e foi-se isolando cada vez mais do círculo social. Começou a definhar, perdeu a postura e pareceu que seus ombros caíram. Andava meio curvado já, num desânimo! Era tão grande seu desânimo que chegava a ser contagiante.

A família insistia para que ele procurasse outro emprego, mas sabe como é, vendedor de loja quase nunca tem curso superior e Silva era um deles. Insistiram para trabalhar como alfaiate, mas tudo o que ele sabia fazer era pregar alfinetes. Um dia ele soube que os Correios estavam realizando um concurso para admitir novos carteiros e ele, por imposição da família, foi prestar concurso.

Sentiu que tinha ido bem no teste e seu ânimo melhorou um pouco. Quando o resultado saiu, ele estava entre os aprovados. Fez exames médicos e novamente foi aprovado. Admitido na empresa foi encaminhado para o setor de treinamento. Ele quase não conhecia nenhuma rua da cidade, mas isso não seria um problema tão grave. O maior problema eram seus ombros caídos o que fazia com que a sacola de correspondência caísse no chão a toda hora.

Foi dispensado ainda no período de experiência. Todos os parabéns que recebera quando aprovado transformaram-se em críticas e Silva foi-se encolhendo cada vez mais.

Além de fazer a barba apenas uma vez por semana, resolveu que banho também deveria ser apenas uma vez por semana. Passou a ficar dentro de casa e não saia à rua por nada nesse mundo. Quando acontecia algum acidente, ou uma briga qualquer, ele pedia para alguém lhe contar o que tinha acontecido.

Pobre Silva. Perdeu todo seu objetivo de vida. Na verdade ele nunca tivera um, a não ser
tornar-se um vendedor das Casas José Silva.

Chegou a um ponto em que além de não sair mais de casa, ele passou a não sair mais do quarto, a não ser para ir ao banheiro. Mas isso durou pouco, pois em pouco tempo ele deixou de sair do quarto para ir ao banheiro. A preguiça dele era tanta que ninguém
mais ligava. A comida era levada ao quarto e uma faxineira fazia a limpeza. Como o fedor era tão grande, passaram ele para o quarto de empregada, nos fundos da casa, e ele nem
percebeu a mudança. No quarto dos fundos ele foi ficando cada vez mais esquecido, tão esquecido que às vezes esqueciam de lhe levar a comida e o pior de tudo é que ele nem
reclamava.<BR>Coitado do Silva! Ele já não fazia falta à sua família. Outrora tão falante, tão garboso, ele agora era um trapo de gente. Fedia e mesmo as pessoas mais queridas evitam contato com ele.

O tempo foi passando e ele só comia quando alguém lembrava de lhe levar um prato de comida e água para beber.

Teve um final de semana que uma sobrinha dele ia se casar no interior do Estado e toda a família foi viajar, menos ele que preferiu ficar em casa. O casamento era num sábado e
logo pela manhã todos viajaram e deixaram comida pronta na cozinha para ele esquentar quando tivesse fome.

Na noite de domingo a família toda estava de volta, tomaram banho e foram preparar algo para comer quando perceberam que a comida que fora deixada para o Souza estava intacta. Correram, então, para o quartinho dos fundos e constataram que Souza estava deitado na cama, mortinho. Souza morrera de fome, por preguiça de comer, pela preguiça de viver.
 



Ivan Jubert Guimarães


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