Ivan Jubert Guimarães
14/12/2103

 

 

Desde pequeno Joaquim dos Santos Filho ganhara o apelido de Quinzinho, para não ser confundido com seu pai na hora em que um deles era chamado por qualquer motivo. De origem lusitana nunca pensaram em chamar o menino de Júnior, coisa de americano, dizia o pai.

Quinzinho foi criado dentro dos mais rígidos costumes de Évora, cidade natal de seu pai com muita tradição religiosa. Ele nasceu, cresceu e morou em Évora e nunca saiu de lá, já que a cidade sempre recebe milhares de turistas o ano inteiro. Com muitas igrejas, Quinzinho frequentava muitas delas, mas não gostava muito de ir à Capela dos Ossos, dentro da Igreja de São Francisco. O motivo é que a capela é totalmente revestida com ossos humanos e uma inscrição na entrada sempre assustou Quinzinho: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos".

Cidade conhecida por suas escolas, fez com que Quinzinho recebesse uma educação exemplar que fazia questão de demonstrar dentro e fora de casa.
Vestia-se com apuro, estava sempre asseado e sempre foi um menino educado, atencioso e respeitador dos preceitos morais e religiosos.

Tornou-se um rapaz bonito e atraia a atenção das moçoilas de sua cidade. No entanto não ia aos bailes e nem às festas populares. Não gostava de agitação e nem das bebedeiras próprias das festividades. Preferia recolher-se e ler os livros de seus autores prediletos.

No auge da mocidade Quinzinho não namorou, embora não lhe faltasse belas pretendentes, mas sua timidez era tanta que evitava até um simples flerte. Não que não gostasse de mulheres, muito pelo contrário; além dos livros comprava muitas revistas que exploravam a nudez das mulheres. Cada vez que abria uma delas, Quinzinho sonhava.

Ao contrário dos pais e dos irmãos, e também dos tios, Quinzinho não soltava gases na frente dos outros e arrotar após as refeições nunca passou por sua cabeça. Achava muita falta de educação de seus parentes e não queria ser visto de maneira igual por outras pessoas.

Um belo dia, sua família recebeu a visita de parentes que moravam ao norte de Évora e a visita tinha um propósito. O irmão de seu pai queria casar a filha Maria Bernadete Silva Santos e o pretendido era Quinzinho.

Quinzinho não gostou muito da ideia, mas como era costume e já começavam a falar de sua masculinidade nos arredores, concordou em namorar a moça.

Bernadete não era gorda e nem magra, um tanto rechonchuda e um rosto até que bonito apesar de uma penugem acima dos lábios, aliás, uma característica das moças portuguesas. Ao usar o nome do marido passou a se chamar Maria Bernadete Silva Santos dos Santos.

Veio o casamento e Quinzinho continua igual, respeitoso, educado e muito cortês. Continuou morando com a esposa em Évora, cidade produtora de vinhos, azeites e oliveiras, além do turismo e indústria. Uma cidade próspera, e Quinzinho destacava-se nos negócios do pai.

Como uma tradicional família portuguesa, comida era o que não faltava e Maria Bernadete era excelente cozinheira. Quinzinho começou a engordar e a cada semana parecia mais gordo que antes.

Quando havia algum almoço com as famílias de ambos, era costume os homens arrotarem depois de terminada a refeição. Muitas vezes os arrotos eram seguidos de mais vinho e mais arrotos. Isso não se aplicava a Quinzinho. Vontade ele até sentia, mas engolia o arroto. E conseguia fazer isso até com a flatulência. Normalmente sentia dores fortes no abdome quando ia dormir ou mesmo no trabalho durante a tarde. Comprimia a barriga e prendia a respiração.

Começou a ter dificuldades para andar e sua respiração ficava pesada, quase forçada. Todavia, em meio a tantos arrotos e flatos, ninguém nunca percebeu que Quinzinho se abstinha de tal prática. Sua barriga crescia a olhos vistos e sua mulher sentia-se incomodada com aquilo. Sua mãe também chegou a sugerir uma dieta, mas o pai, orgulhoso, dizia que aquilo era sinal da prosperidade da família.

Um dia, Quinzinho sentiu muitas dores no peito e na barriga, chegou a cair no chão e rolar de tanta dor. Seu gemido era gutural e seu grito parecia o uivo de um urso ferido. Quinzinho fez o que costumava fazer nessas ocasiões, prendeu a respiração e comprimiu a barriga, mas a dor no peito não passou e Quinzinho morreu ainda no chão.

A família em prantos tentava reanimá-lo, mas Quinzinho jazia imóvel no chão ladrilhado.

No velório, as pessoas iam chegando e os comentários eram sempre os mesmos, "tão jovem", ou "esbanjava saúde", ou "talvez bebesse demais" e por aí afora.

A viúva chorava sentada e era consolada pelos familiares. O padre chegou para encomendar o corpo como se dizia, quando na verdade seria a alma a ser encomendada. Feita a oração, o caixão iria ser fechado, pois o mau cheiro já começava a ser exalado pelo defunto a ponto do algodão em suas narinas ter escapado e se acomodado na gravata que Quinzinho usava.

Na hora e fechar o caixão, Maria Bernadete, em prantos descontrolados, jogou-se em cima do corpo de seu falecido marido para o último abraço. E foi aí que aconteceu. A viúva também tinha engordado um pouco e seu peso na barriga do falecido causou uma explosão de gases acumulados durante anos. Parecia um trovão e todos os presentes se assustaram e saíram correndo do velório. Maria Bernadete desfaleceu e uma nuvem de gás mal cheiroso tomou conta do velório e ninguém se apresentou para fechar o caixão de Quinzinho.

 

Ivan Jubert Guimarães
 

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