Ivan Jubert Guimarães
22/12/93
 


No Viaduto do Chá, parado em uma banca de jornais, o homem lia as manchetes do dia que falavam no aumento de vendas das lojas. Nas revistas especializadas em economia, as matérias falavam do crescimento econômico e no aquecimento do mercado. A paisagem mostrava pessoas num corre-corre frenético, como de hábito acontece numa grande cidade. Muitas delas passavam carregando sacolas e pacotes e todas pareciam apressadas. Indiferente a toda essa correria, o homem continuou vendo os jornais. Cabeça inclinada, mãos nos bolsos, vazios, parecia não entender o que se passava. Vez por outra, olhava para o lado e via com ar de indignação a correria das pessoas. Afastou-se da banca e debruçou-se sobre a grade do viaduto e ficou olhando o movimento lá de baixo. Saíra cedo de casa à procura do trabalho que lhe garantisse ao menos um frango no jantar. Todos dormiam em casa quando ele saiu. Beijou a esposa e a filha. A menina dormia de meias e o dedão do pé aparecia inteiro em uma delas. Puxou suavemente a ponta da meia para cobrir o dedo da filha. Uma lágrima correu-lhe pela face. Era véspera de Natal e ele continuava de pé na amurada do viaduto. Nem reparou na chuva de papéis picados que caia das janelas dos edifícios. Também não sentiu a chuva de verdade que começara a cair. O movimento tornara-se menos intenso. As pessoas começavam a ir para suas casas. Algumas lojas começavam a fechar suas portas. Os bares estavam lotados. As pessoas bebiam e falavam alto. Aos poucos o movimento ia diminuindo e a cidade foi ficando vazia. Quando a noite chegou o homem pensou se voltava ou não para sua casa. Afastou a idéia de pular do viaduto, embora nessa hora a morte não lhe parecesse assim tão horrível. Caminhou pela já deserta rua Direita pensando no que fazer da vida. Na porta de uma loja fechada viu um Papai Noel sentado. Pensou consigo mesmo que ali estava mais um infeliz. Olhou para o homem e notou que alguma coisa nele lhe era familiar. Parou e ficou olhando. O homem levantou a cabeça e disse: aproxime-se, estava esperando você chegar. Ele foi de encontro ao Papai Noel e sentou-se a seu lado e por um momento ficaram ambos em silêncio.- Parece que seu Natal não está nada bom, disse o Papai Noel. - É verdade, respondeu. - Estou desempregado, sem dinheiro e com fome. O Papai Noel começou a falar do passado e o homem começou a ver sua vida passar em sua mente. Viu que naquele instante, um monte de gente fazia um movimento diferente daquele que ele observou durante todo o dia. Eram pessoas catando coisas do chão, deitando sob as marquises das lojas. Viu que não estava sozinho. Tinha uma família esperando em casa. Levantou-se cheio de coragem e quando ia se despedir do Papai Noel, este tirou do bolso alguns trocados e um pequeno embrulho e colocou tudo na mão do homem dizendo: - Isto é para o ônibus e este embrulho é algo que roubei da loja. Talvez possa ser útil para você. Tenha um Natal muito feliz. O homem pegou o que Papai Noel lhe entregava e partiu. No ônibus, a caminho de casa, abriu o pequeno embrulho e o que viu encheu-lhe os olhos de água: era o mais lindo par de meias que tinha visto.
 


Ivan Jubert Guimarães


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