Ivan Jubert Guimarães

 

 

 

 

Capítulo I

 

            O BMW parara quase defronte aquele majestoso edifício de escritórios de nove andares. Depois de alguns segundos parado, o vidro traseiro do carro desce lentamente parando um pouco acima da metade. Dentro do carro, percebe-se a figura de um homem de meia idade, cabelos grisalhos e óculos escuros, que percorre com a vista de lado a lado, de baixo para cima, todo o conjunto de salas daquele condomínio de luxo. Ele sobe o vidro, diz alguma coisa para o motorista e desce do carro e este segue seu caminho.

            O homem para à entrada do prédio vira-se para a calçada e para a velha praça do outro lado da rua. Atrás dos óculos seus olhos tornam-se brilhantes e ele se esforça para não deixar as lágrimas aflorarem em seu rosto.

            Era o primeiro mês de funcionamento de sua empresa naquele endereço e a emoção de entrar no prédio mais uma vez era muito grande.

            Dirigiu-se lentamente para a entrada do prédio, olhando para todos os lados como que buscando uma nova identidade com o local. Com exceção da velha praça do outro lado da rua, nada lhe parecia familiar.

            Parou na entrada do átrio e, resoluto, entrou no edifício sendo saudado pelas recepcionistas e pelos seguranças. Ele nem reparou que acima da porta principal do prédio, estava esculpida a expressão SM Empreendimentos.

            O prédio era grande, mas acomodava poucos funcionários em suas dependências, a maior parte deles formada por engenheiros e arquitetos.

            O primeiro andar, inteiro, era como se fosse uma grande sala de espera, com grandes e confortáveis poltronas de couro e as paredes revestidas de belas pinturas da arte brasileira e num painel formado por uma das paredes, fotografias antigas ilustravam o ambiente. Quem observasse com atenção, iria perceber a velha praça que ficava em frente ao imponente edifício.

            No segundo andar ficava o refeitório da empresa, muito bem arrumado e aconchegante. Lá todos os executivos e funcionários de qualquer nível faziam suas refeições que eram preparadas no próprio local em cozinha limpa e moderna. Não havia opções para escolha, mas o cardápio da semana seguinte, distribuído todas as sextas feiras, era cumprido à risca.

            No terceiro andar funcionava o setor de serviços gerais, como expedição, central de cópias, ambulatório.

            O quarto andar era uma área exclusiva para lazer, com sala de TV, leitura e jogos recreativos.

            O quinto e sexto andares eram os andares produtivos da empresa, onde ficavam a maior parte dos engenheiros, arquitetos e projetistas.

            No sétimo andar ficava uma sala de reuniões e uma sala para receber visitas.

            O oitavo andar era a Diretoria e foi lá que o elevador conduzindo aquele senhor de cabelos grisalhos parou. Assim que deixou o elevador, foi saudado por dona Beatriz: - Bom dia Dr. João Caetano!

            - Dona Beatriz já faz muitos anos que venho dizendo para a senhora que eu não sou um doutor, mas bom dia assim mesmo.

            Dona Beatriz apenas sorriu, mas ela sabia que João Caetano não era doutor, mas adorava tratá-lo dessa maneira. Ele podia não ter diploma, mas tinha uma capacidade enorme como construtor.

            E, finalmente, no nono andar, ficava um grande auditório que seria usado em reuniões gerais com todos os funcionários da empresa e havia um acesso para a cobertura, onde os funcionários poderiam se reunir às sextas-feiras para um happy hour.

            No prédio todo, não trabalhavam mais do que quarenta pessoas. O espaço era bem grande e todos se locomoviam e trabalhavam sem atropelos.

            João Caetano era um homem com um coração de ouro e era admirado por todos e ninguém, absolutamente ninguém, tinha coragem de ter uma opinião contrária à sua, não porque ele fosse intransigente, não, mas ele era o mais sensato homem que todos ali já haviam conhecido.

            Ninguém sabia ao certo como ele havia começado a empresa há 30 anos e, principalmente, como ele havia conseguido sobreviver sem construir obras para o governo. Em toda a existência da SM Empreendimentos, ele nunca participou de nenhuma concorrência pública, embora sempre fosse convidado a fazê-lo.

            Em certa ocasião, um jovem engenheiro estava todo animado numa reunião e apresentou uma idéia para que a empresa participasse de uma concorrência pública para a construção de uma grande avenida na cidade. João Caetano disse apenas isso:

            - Meu jovem, a construção de uma avenida implica em desapropriações de muitas pessoas e de demolição de um sem número de residências. A SM Empreendimentos é uma construtora e não uma demolidora.

            De fato, esse era um princípio adotado por João Caetano. E ele o seguia à risca. A filosofia de sua empresa era construir, jamais destruir. Claro que algumas de suas obras implicavam na demolição de antigas construções, mas já eram locais abandonados e vazios. Quando ocorria algum caso de necessitar uma demolição de algum conjunto de casas, ele tratava pessoalmente de arranjar novas acomodações para os moradores, e sempre fazia uma oferta justa, a valor de mercado pelo imóvel que seria demolido.

            Suas construções eram elogiadas por todos os especialistas do ramo, pela funcionalidade dos projetos, pelos prazos sempre cumpridos, pela inexistência de acidentes de trabalho e pela qualidade dos materiais empregados. Sua especialidade era a construção de edifícios tanto comerciais como residenciais, mas o que ele gostava mesmo era de comprar terrenos fora da Capital e construir vilas residenciais, pequenos e grandes condomínios de alto e médio padrão. Mas a SM também dedicava uma parte de seu tempo para a construção de casas populares, sem vínculo nenhum com o governo e com financiamento direto aos compradores.

            Ninguém entendia a mágica de João Caetano. Como ele podia ganhar tanto dinheiro sem trabalhar para o governo e ainda financiar imóveis populares? Quando alguém o questionava por isso, ele apontava para trás de sua cadeira, um pouco acima de sua cabeça, um quadro onde estava a seguinte inscrição: “Deus dá o frio, conforme o cobertor”.

            - Pense nessa frase e o dia que entendê-la você vai entender porque fazemos isso.

            Um pouco acima desse quadro havia uma moldura pequena, com uma antiga foto, também pequena onde um jovem João Caetano aparecia abraçado entre dois outros jovens, todos mal vestidos. Todos já haviam visto aquela foto, mas nunca ninguém teve a coragem ou curiosidade de perguntar quem eram aqueles homens que pareciam extremamente tristes, com lágrimas nos olhos.

                                                         

 

            João Caetano, em seu primeiro dia no novo escritório, estava sentado em sua velha poltrona de couro, lendo alguns papéis, óculos caídos no nariz, quando Dona Beatriz entrou na sala:

            - Dr. João, está aí fora a moça que vai produzir o vídeo para comemorar o aniversário da empresa. Posso mandá-la entrar?

            - Pode sim Dona Beatriz. Ela está sozinha?

            - Está sim.

            - Está bem, faça-a entrar e, por favor, sirva-nos água e café.

            - Sim senhor.

            Logo depois, uma moça de aparência muito bonita e elegante entra na sala e, imediatamente, João Caetano se levanta para recebê-la.

            - Bom dia Dr. João, meu nome é Marisa e eu trabalho para a empresa que vai produzir o vídeo comemorativo do aniversário da SM. Eu sou jornalista e vou querer ouvir a história da empresa, contada pelo senhor, e também ouvir a história vista pelos seus funcionários mais antigos. Ouvi dizer que aqui existem pessoas trabalhando há muito tempo com o senhor.

            - E verdade senhorita.

            - Como isso vai levar tempo, mas também o prazo para a produção é curto, eu gostaria de iniciar nossa conversa o mais rápido possível. Para quando podemos marcar nossa entrevista?

            Dona Beatriz entra trazendo água e café.

            - Eu sei da urgência, podemos marcar para amanhã de manhã? Reservarei o dia inteiro para isso!

            - Está perfeito Dr. João. Provavelmente eu virei com mais uma pessoa para me ajudar, está bem?

            - Desde que seja tão bela como você, pode vir. E, por favor, eu não sou doutor em nada!

            Marisa sorriu diante do galanteio, agradeceu, e despediu-se:

            - Tenha um bom dia então Sr. João.

            - Até logo senhorita.

*

            Assim que Marisa saiu para falar com os funcionários mais antigos, e alguns dos novos também, João sentou-se em sua poltrona e pediu que Beatriz também se sentasse.

            - Há quanto tempo estamos juntos dona Beatriz?

            - Há mais de 20 anos Dr. João, há mais de 20 anos.

            - Gosta daqui não é?

            - Sim, gosto muito Dr. João – e Beatriz ficou pensando o porquê daquela conversa nesse momento. Ela tentara sair diversas vezes, mas João sempre a segurava com aumentos de salário e nem permitia quer ela se aposentasse. Ela ia ficando, pois o amor que sentia por João era grande demais e só o fato de vê-lo todos os dias, compensava todo o cansaço provocado pelo seu trabalho. Ela já não era uma mocinha, mas uma senhora de mais de sessenta anos que chegava ao trabalho sempre bem cedo e quase nunca tinha hora para sair.

            João, por sua vez, era dedicado totalmente ao trabalho e quase nunca falava de sua vida pessoal. Quase ninguém sabia nada de sua vida. A única pessoa que conhecia alguns detalhes de sua vida e carreira era Beatriz e João confiava muito nela.

            - Sabe Beatriz? – era a primeira vez que ele não a tratava por “dona” – eu estou ficando muito cansado e sinto que a vida já se esvai e estou pensando em parar de trabalhar.

            - Parar Dr. João? Mas sua vida inteira está aqui! O que pensa fazer?

            - Não sei ao certo, mas tenho dinheiro suficiente para o resto de meus dias e já está na hora de arrumar um sucessor. Nunca me casei, não tenho filhos e nem parentes que eu conheça. Sou sozinho, construí esta empresa com estas mãos, até hoje calejadas. Tenho uma casa numa pequena cidade do estado, Águas de São Pedro, já ouviu falar?

            - Sim, claro que já. Ouvi dizer que é uma cidade muito bonita e pacífica.

            - É verdade, é um lugar muito aplausível, mas só tem uma coisa Beatriz: eu não queria ir sozinho para lá.

            - Mas o senhor não tem família Dr. João, o que pensa fazer?

            - Me casar.

            - Casar? – o rosto de Beatriz ficou perplexo. Mas que conversa era aquela?

            - Sim casar. Case-se comigo Beatriz! Estamos juntos há tanto tempo que eu não saberia viver sem você por perto.

            - Mas Dr. João, o senhor sabe o que está falando? Não acha que já passamos da idade de falar em casamento?

            - Estou te pedindo em casamento Beatriz. Quero ouvir um “sim” ou um “não”, como resposta. Não quero iniciar uma discussão.

            - Sim, mas...

            - Ótimo, temos que tomar algumas providências então. A primeira delas é convocar uma reunião com todos os diretores de área. Elaborei um plano para minha sucessão e preciso participar isso a eles. Agora venha até aqui que eu quero beijar minha noiva.

            Beatriz não sabia o que fazer. Esperava por algo assim há mais de vinte anos e de repente acontece o que ela tanto desejara, sem mais nem menos. Ela aproximou-se dele, timidamente, e ele a beijou na testa com ternura e respeito.

*

            A reunião fora marcada para as 14 horas e todos os cinco diretores estavam presentes, não sem um misto de curiosidade e ansiedade. Afinal, não era comum marcar reuniões de surpresa, sem que houvesse uma pauta previamente elaborada. João entrou na sala e todos iam se levantando, mas ele fez sinal para que se sentassem. Beatriz entrou logo atrás dele e sentou-se ao seu lado, afastada da mesa, como fazia sempre quando participava de alguma reunião. Por isso, ninguém estranhou sua presença ali.

            - Boa tarde senhores – começou João – eu agradeço a presença de vocês aqui e espero não estar atrapalhando nenhum compromisso importante de vocês.

            Um murmúrio de vozes dizendo que nada estava sendo atrapalhado se fez ouvir. João, então, continuou:

            - Bem, o motivo desta reunião é fazer a vocês três comunicados importantes. Antes, porém, eu gostaria de ouvir de cada um como anda a situação em cada uma das áreas dirigidas pelos senhores. Quem quer começar?

            Um a um os cinco diretores resumiram rapidamente o que se passava em cada área e, aparentemente, nenhuma delas estava passando por nenhuma dificuldade. A empresa estava sendo muito bem administrada e o contentamento dos funcionários era muito grande, principalmente nas novas instalações, onde poderiam desfrutar de todo o conforto tanto para o trabalho, como para o lazer. A satisfação era total, a carteira de pedidos estava superior ao planejado, e o projeto de construção de casas populares de boa qualidade estava se revelando bastante promissor.

            João ficou satisfeito com as colocações de seus diretores e fez um ligeiro comentário que apenas Beatriz entendeu: “Parece que minha presença aqui não é mais necessária”. E, aprumando-se à mesa o Dr. João Caetano deu seqüência à reunião:

            - Bem senhores, como todos sabem, na sexta-feira da próxima semana faremos uma festa de inauguração de nossas novas dependências. Eu quero parabenizar a todos vocês pela presteza empenhada na construção deste prédio e gostaria que esses cumprimentos fossem estendidos a todas as equipes que se esforçaram para que esse projeto ficasse pronto dentro do prazo. Nos próximos três dias eu estarei à disposição da senhorita Marisa, uma jornalista que ficará alojada aqui no prédio ouvindo a minha história pessoal e a história desta empresa.

            João Caetano olhou fixamente para os componentes da mesa, pigarreou e continuou:

            - Ela irá produzir um vídeo e eu gostaria muito que vocês, quando o virem, tomassem como exemplo de vida, não a minha vida pessoal, mas a vida desta empresa. Nós formamos uma empresa incomum no mercado da construção civil. Neste país, sabe-se que nenhuma construtora sobrevive sem fazer obras públicas. Corrigindo: quase nenhuma. Sei que vocês estranham muito essa minha atitude de não querer participar de concorrências públicas, mas o motivo vocês já sabem, para se vencer uma concorrência é preciso corromper alguém e dependendo da obra tem-se que corromper muitas pessoas. E, na minha visão, o corruptor é pior do que o corrupto. Este muitas vezes é um coitado que vê uma oportunidade de ganhar um dinheirinho extra. Outros já querem enriquecer com dinheiro fácil e não enxergam o mal que fazem para o país.

            João Caetano parou um pouco de falar, olhou cada um de seus diretores bem nos olhos e constatou com felicidade que eles estavam de acordo com ele e, assim, ele continuou:

            - Já o corruptor é mais ladrão que o corrupto, é mais canalha que o corrupto, pois além de corromper o homem, ele ainda faz chantagens no futuro. E nós não precisamos disso. Nestes 30 anos de empresa, nunca eu dei ou recebi bola de ninguém. E eu me orgulho disso. Trabalhei a vida inteira e sempre escolhi a dedo quem iria trabalhar comigo. Vocês sabem que antes de eu ver seus diplomas de engenheiros quis conhecê-los a fundo, a cada um de vocês. O homem é mais importante do que qualquer outra coisa.

            - Vocês todos estão aptos a me sucederem na empresa. Eu, é claro, tenho um nome de minha preferência. Mas vocês são amigos entre si e eu gostaria que a escolha de meu sucessor saísse de vocês. Esta é a primeira notícia que eu queria dar aos senhores: vou me aposentar.

            A sala, até então silenciosa, pareceu entrar em burburinho, com diversos comentários simultâneos e desencontrados:

            - Mas chefe, a empresa não pode ficar sem o senhor.

            - Não aceito sua aposentadoria.

            - Não nos deixe agora senhor, temos muito ainda que aprender.

            E por aí afora. Mas João Caetano foi firme e eles sabiam que o chefe, como o chamavam, não era de voltar atrás em uma decisão.

            - Já está decidido. Eu estou com mais de 60 anos de idade e trabalhei a vida inteira e agora quero aproveitar os dias que me restam para descansar, ler um pouco mais e viver mais perto da Natureza. Gostaria que amanhã, pela manhã, vocês me dessem o nome de quem será o novo presidente da empresa. E não adianta vocês votarem em mim. Quero que seja assim porque se a escolha partir de vocês, eu tenho certeza de que haverá harmonia entre vocês e isso possibilitará a continuidade do sucesso da empresa.

            Nova pausa e pairava certa tristeza no ambiente, todos os executivos rabiscavam seus papéis e percebia-se que de alguns rostos rolavam algumas lágrimas.

            Beatriz que até aquela altura estivera em silêncio completo pediu licença para falar e todos estranharam esse pedido dela, pois ela sempre se mantinha quieta nas reuniões apenas fazendo anotações e na abertura de cada nova reunião, ela lia a ata da reunião anterior.

            - Senhores, com a licença do Dr. João Caetano eu queria reforçar para que os senhores nunca perdessem de vista os objetivos que essa empresa teve no mercado, oferecendo imóveis bem construídos e que nunca se esquecessem, também, da missão social que sempre tivemos perante a sociedade. Graças ao trabalho de cada um dos senhores esta empresa cresceu sólida e desfruta do melhor conceito junto ao mercado. Obrigada.

            As palavras de Beatriz ecoaram pela sala e mais uma vez fez-se silêncio. Aproveitando-se disso, João Caetano tomou de novo a palavra:

            - A segunda notícia que tenho para dar é menos dramática. Eu gostaria que não tivéssemos expediente na sexta-feira da semana que vem, mas quero a presença de todos, todos os funcionários na empresa a partir das 17 horas. Digam que quero rostos felizes, pois será um dia de festa.

            - Agora, a terceira notícia: quero que dona Beatriz continue recebendo seu salário regularmente e espero que o novo presidente concorde com isso, pois ela também vai se aposentar para se casar comigo.

            Se até aquele instante não tinha acontecido nenhuma explosão na sala de reuniões, agora a situação tinha mudado. Todos se levantaram e correram em direção aos dois e os cumprimentos se revezavam entre todos. Era tanto barulho que do lado de fora as pessoas se perguntavam o que estaria acontecendo.

            Alberto, um dos diretores, foi até o frigobar e pegou uma garrafa de champanha e pôs-se a abri-la. Todos brindaram alegremente aquela notícia. Todos eles sabiam do amor que Beatriz sentia por João Caetano pelo modo que ela olhava para ele e cuidava de suas coisas.

            Após o brinde, João Caetano dirigiu-se a seus executivos e fez-lhes uma recomendação:

            - Senhores eu realmente gostaria que vocês todos fossem honestos com vocês mesmos na hora de votação. Sei da amizade que existe entre todos e da lealdade que sempre tiveram para comigo. Aquele que for eleito deixará uma vaga em aberto na diretoria e eu gostaria que essa vaga fosse preenchida por algum de nossos gerentes, e que para o lugar dele fosse promovido alguém da própria empresa. Estão de acordo?

            Todos assentiram.

            - E tem mais uma coisa, segredo absoluto em tudo que foi conversado nesta sala. E, finalmente, quero que se lembrem de que esta empresa tem um estatuto onde estão descritas todas as normas de funcionamento, toda nossa filosofia de trabalho, que não poderá ser desrespeitada em nenhuma hipótese. Estou me aposentando, mas a empresa ainda é minha, embora não vá interferir no dia-a-dia de vocês. Não se esqueçam de nossa filosofia jamais. Nosso caráter e nossa honestidade foram e são as nossas grandes armas no mercado. Tenham uma boa tarde. Agora tenho muito que fazer.

            João Caetano deixa a sala acompanhado por D. Beatriz e dirige-se para sua sala. Lá chegando, senta-se à sua mesa e dá um grande suspiro. Beatriz parada no centro da sala olha para aquele homem com muita admiração para logo em seguida ir cuidar de seu serviço, mas logo lhe ocorre que também terá que arrumar uma substituta para a secretária do diretor que for eleito e começa a pensar nos nomes.

            Na sala de reuniões os cinco diretores ainda estão pasmos com o que ouviram e, pela primeira vez estavam com medo de tomar uma decisão. João Caetano sabia que eles iriam tomar a decisão certa, até porque eram sua cria, cada um aprendera muito com ele nos últimos vinte anos. Quase nenhum deles se arriscava a ser o primeiro a falar, até que Carlos Alberto, o Diretor Comercial, mais falante que os demais, se adiantou:

            - Amigos, o Dr. João nos colocou numa posição bem difícil e acho até que deve estar sorrindo agora, sabendo da dificuldade em que nos colocou. É próprio dele e servirá de mais uma lição para nós. De todos nós, eu sou o mais intempestivo, pois meu trabalho é vender e entendo que tenho executado muito bem minha função e conheço bem a empresa e também a filosofia do Dr. João Caetano e, além do mais, gosto muito do que faço. Assim eu declino de concorrer à presidência. Serei mais útil se ficar no cargo onde estou.

            Todos ficaram mudos diante da colocação de Carlos Alberto, pois pensavam que ele iria reivindicar o cargo, por ser o homem que trazia faturamento para a empresa.

            O segundo a falar foi o Dr. Rui de Castro, Diretor Administrativo e Financeiro da empresa:

            Pessoal, a exemplo de Carlos, eu também gosto do que faço e, por falha minha não tenho ainda um substituto à minha altura e me desculpem a falta de modéstia. Além do mais terei que manter o novo presidente muito bem informado da situação da empresa e, sendo assim, eu também declino de me candidatar ao cargo.

            Ainda restavam falar Pedro Paulo, Diretor de Engenharia, Marcos Oliveira, Diretor de Novos Projetos e Arquitetura e Joaquim Barbosa, Diretor de Obras.

            Carlos Alberto tomou a palavra novamente e disse que seu voto iria para Marcos Oliveira, levando em conta que o grande sonho do Dr. João, casas populares de alto padrão estava em suas mãos. E ao dizer isso, todos se levantaram e selaram o voto de Carlos Alberto com uma salva de palmas.

            Marcos não sabia o que dizer e agradeceu a todos sua indicação prometendo cumprir fielmente os desejos do Dr. João e disse em tom de brincadeira que eles haviam feito uma boa escolha. Mas, em seguida, disse que pensava votar em Carlos. Após todos os cumprimentos e desejos de boa sorte a Marcos, os cinco amigos dirigiram-se à sala de João Caetano a fim de dar-lhe a notícia.

            Assim que entraram, Carlos Alberto deu um passo à frente e anunciou: “Já decidimos”. E João Caetano disse: “Sentem-se”.

            - Como está se sentindo Marcos? Está disposto a dirigir esta empresa?

            - Sim, mas...

            - Como eu soube? Conheço os homens que eu tenho. Meus parabéns a todos vocês. Agora vão comemorar e discutir quem será o substituto de Marcos e, ao saírem, peçam para Dona Beatriz entrar, por favor.

            Assim que Beatriz entrou, João Caetano levantou-se e abraçou-a gentilmente. Ela aninhou-se em seus braços, suspirando, e nunca se sentiu tão feliz nos últimos anos como naquele fim de tarde. Esperara vinte anos por aquele momento e para ela não tinha nenhuma importância que já houvesse perdido sua juventude. Na verdade, ela nunca se sentiu tão jovial como naquele dia.

            João Caetano levantou o seu queixo para olhá-la bem dentro dos olhos antes de dizer-lhe:

            - Me perdoa Beatriz!

            - Perdoá-lo de quê?

            - Por eu ter demorado tanto tempo para criar coragem de pedi-la em casamento. Eu sempre amei você e sempre soube que você me amava; não havia razão para tanta demora. Mas eu tinha um objetivo na vida, conquistei-o e tinha que passá-lo adiante e isso se deu hoje.

            - Eu sei meu querido – e ao dizer isso seu rosto ficou vermelho de vergonha, pois era a primeira vez que não o chamava de Dr. João Caetano.

            João Caetano sorriu e disse apenas:

            - A partir de amanhã, você saberá mais coisas a meu respeito, durante a entrevista com aquela moça. Como é mesmo o nome dela?

            - É Marisa doutor...

            - Beatriz, comece a treinar para não me chamar de doutor, até porque eu nunca me formei em nada para merecer esse tratamento. Marisa, uma bonita moça você não acha?

            - Acho sim – e gaguejou na hora de chamá-lo simplesmente de João.

            - Janta comigo esta noite?

            - Eu não vim vestida de acordo para isso João.

            - Você está linda, muito linda Beatriz. Vamos, faça a felicidade desse velho bobo.

            - Você não é velho e muito menos bobo meu querido. Estou imaginando a cara de minha irmã quando eu chegar em casa e contar a novidade para ela. Ela não vai acreditar.

            - Façamos o seguinte, então, que tal nós dois contarmos a ela? Pegue o telefone e avise-a de que está levando um colega para jantar. Espero que ela não se aborreça com isso.

            - Não vai se aborrecer não, ela gosta de conversar e fica feliz quando recebemos visita em nossa casa.

 

  

Capítulo II

 

            A noite anterior fora muito proveitosa para João Caetano. Ele e Beatriz se divertiram muito com o susto de Rita, irmã de Beatriz, e também com o seu espírito alegre.*

João já estava quase chegando ao escritório e ia pensando em como deveria conduzir a entrevista de logo mais. Só faltava isso para o filme ficar pronto, pois dias antes o pessoal da filmadora já tinha estado por lá filmando todas as dependências e também no velho edifício de onde haviam saído. Mas o fato de ter que ficar diante de uma câmera o assustava.

            Ao entrar no edifício viu que Marisa já o esperava com o cinegrafista, um jovem bonitão que fez João Caetano dizer para Marisa: “Eu disse que tinha que ser alguém tão bonita como você”. E foi estendendo a mão para o rapaz. Convidou-os para subirem juntos no elevador até seu andar.

            Ao adentrarem no escritório Marisa foi logo dizendo:

            - Doutor João, ontem eu vi o material que já filmamos aqui e tenho certeza de que irá gostar. Está muito bonito e a trilha sonora também. Agora só falta seu depoimento.

            - Eu gostaria que muito do que eu falar, que minha voz seja em off como vocês dizem. Não quero cansar as pessoas, mas, ao mesmo tempo, gostaria que nada se perdesse, pois desejo passar um pouco da experiência que adquiri principalmente para os mais jovens. Quando começamos?

            - Agora mesmo se o senhor quiser.

            Marisa e o cinegrafista prepararam os equipamentos, luz, câmera e pediram que João ajeitasse a gravata e os cabelos. Isso feito, João sentou-se à mesa e chamou Beatriz. Marisa estranhou e antes que pudesse falar qualquer coisa João se antecipou:

            - Senhorita Marisa, espero que não se incomode com a presença de Beatriz. Ontem eu a pedi em casamento e ela só sabe de mim os últimos 30 anos de minha vida, que é o tempo em que estamos juntos. Eu quero que ela conheça o João que havia em mim antes desse tempo.

            - Meus parabéns Dr. João e a você também Beatriz – disse Marisa jogando um beijo para ela, e virando-se para João, perguntou – Podemos começar agora?

            - Vamos lá! Mas não me chame de doutor está bem?

            - Está bem. O senhor é daqui de São Paulo mesmo senhor João?

 

            - Nasci aqui no Estado, mas vim de uma pequena cidade interiorana, da zona noroeste de São Paulo, Na verdade, eu nasci na roça. Meu pai tinha uma pequena terra arrendada e ali a gente plantava alguma coisa para nosso sustento e vendíamos um pouco de coisas, leite, queijo, milho e mais algumas coisas de época, como frutas. Era uma vida difícil que levávamos. Eu tinha dois outros irmãos que já faleceram. Sou o caçula da família, e fui mais privilegiado que meus irmãos, pois tive a oportunidade de estudar, naquela época, até o ginásio. Quando meus pais morreram, eu não tinha mais porque ficar naquela região e resolvi vir para a Capital tentar a vida por aqui.

           

João faz uma pausa, como se estivesse vivendo aquela cena, fato que preocupou Beatriz e Marisa. Mas, logo em seguida, ele retomou a narrativa.

           

- Vendi todas as coisas que tinha um ônibus, fiz uma baldeação em Bauru onde peguei um trem e vim embora. Quando cheguei por aqui logo pensei em voltar, claro que São Paulo não era como é hoje, mas as pessoas não davam informações e para alguém saído de uma cidade pequena e da roça eu me perdia muito por aqui. Tinha um forte sotaque caipira e embora tivesse um pouco de estudo, coisa rara naquela época, eu só consegui um emprego de lavador de pratos em um restaurante de segunda categoria. O que era bom é que eu almoçava e jantava de graça. Até que não era tão ruim, tanto é que fiquei por lá durante dois anos e de vez em quando o dono me pedia para ajudar no atendimento às mesas e aí era bom porque eu ganhava algumas gorjetas. Um dia, porém, o restaurante fechou. Ia passar uma avenida por lá e o prédio seria derrubado. O dono já estava meio velho e disse que iria se aposentar e de uma hora para outra fiquei sem emprego e logo depois a dona da pensão também me despejou porque eu já não ganhava nada e estava com os pagamentos em atraso.

           

Nova pausa, e um silêncio ensurdecedor se fazia na sala. Todos estavam imaginando a vida que João levara antes de ser o que era hoje.

           

- Saí de lá com uma trouxinha de roupas, sem saber para onde ir. Perambulei pelas ruas e quando já estava bem cansado sentei num banco de uma praça e ali eu passei a noite. Acordei pela manhã com um sujeito me cutucando perguntando se eu tinha cigarro para lhe dar. Eu disse que não e ele disse que sem cigarro eu não poderia dormir na praça. Eu já ia me levantando do banco da praça para ir embora quando ele me segurou e eu pensei que fosse apanhar por não ter o cigarro que ele queria, mas aí ele me mostrou um casarão que ficava do outro lado da praça e me disse que ele morava ali e que sempre caberia mais um. Eu nem acreditava no que ouvia. Era um sobrado velho, mas bonito. Devia ter sido de alguém muito rico e meu novo amigo me explicou que ali moravam algumas outras pessoas, mas todas elas gente do bem. Eu não devia me preocupar. Ele perguntou meu nome e ao dizer-lhe que me chamava João Caetano ele fez uma cara que nunca vou me esquecer e disse: “Ih eu também me chamo João e todos me conhecem aqui pelo meu nome. Você escolhe outro nome para você”

           

- E que nome o senhor escolheu senhor João? – perguntou Marisa.

           

Eu olhei bem pra ele, dei de ombros e disse que qualquer nome era bom, que eu poderia ser João II. Aí ele começou a rir e disse que eu não era rei  para ser chamado assim e que eu escolhesse entre Caetano e Joca. Preferi Joca. Perguntei o que ele fazia e ele me disse que era um vagabundo, mas que fazia música de vez em quando, que cantava nos botecos com os amigos, vagabundos como ele. Falei que queria trabalhar e ele me disse que se eu arranjasse emprego teria que sair dali, pois ali só podia morar quem não podia pagar pensão ou aluguel. E eu fui ficando por ali.

           

- E quanto tempo o senhor ficou ali?

            - Tempo demais senhorita, tempo demais. A companhia era boa, os amigos eram bons e a gente dividia tudo, roupa, sapato, comida. O que um tinha era de todos. Mas deixa-me continuar.

           

- A gente se divertia muito. Durante o dia a gente andava bastante procurando coisas jogadas no lixo, mas a gente só ia nos lugares finos, onde o lixo era melhor. E com isso a gente ia mobiliando nossa maloca. Até rádio a gente tinha. E quando a noite chegava a gente ouvia muita música e o João, o outro, dizia que um dia ele teria suas músicas tocadas numa rádio também. Quando fazia muito frio, a gente acendia uma pequena fogueira dentro de uma grande taxa de óleo e ficávamos cantando as músicas do João e fazendo batucadas em caixas de fósforos. Bons tempos!

            - Um dia surgiu mais um João na minha vida. Eu e o outro João estávamos passeando pela Estação da Luz, a gente ia muito por lá, para ver os trens chegando com esperança e partindo com tristeza. E foi num desses dias que encontramos um terceiro João. Ele estava sentado, encostado na parede e a mala do lado. Parecia estar esperando alguém que ficara de ir buscá-lo.

            - Fomos conversar com ele e ele confirmou nossas suspeitas. Tinha chegado na noite anterior de Corumbá e a pessoa que tinha ficado de ir buscá-lo não apareceu e ele não tinha para onde ir. João, sempre bondoso, ofereceu-lhe nossa pousada, como havia feito comigo tempos atrás. João fez as apresentações:

             “Eu sou o João e este aqui também se chama João, mas adotamos o apelido de Joca para ele. E você, como se chama?”

            “Bem eu, eu também me chamo João”.

            “Pára de brincadeira, fala a verdade!”

            “Falo a verdade, meu nome é João de Jesus”.

            “De João eu não vou te chamar e muito menos de Jesus”

            “Mas por quê?”

            “Ficar te chamando de Jesus, vai que o verdadeiro Jesus aparece e resolve me levar embora. Vamos ter que escolher um nome para você. Donde você veio mesmo?”

            “Corumbá”.

            “A partir de agora teu nome é Corumbá.”

            “Não pode ser não, To fugindo de lá e quero esquecer aquele lugar. Nunca mais quero ouvir o nome daquela cidade”

            “Ta bom então, que tal Mato Grosso?”

            “Também não gosto, mas é melhor do que Corumbá”.

            - Eu só conseguia rir do diálogo daqueles dois que seriam meus melhores amigos.

           

- Aquela foto atrás de sua mesa senhor João, são vocês que aparecem ali? – perguntou Marisa

            - Somos nós sim.

            - Parecem tão tristes e estão abraçados, o que vocês estavam olhando?

            João virou-se na cadeira, olhou um longo tempo para a foto e quando voltou a olhar para Marisa seus olhos estavam marejados.

            - Mais tarde eu falo sobre isso está bem?

            - Tudo bem. Então conte mais um pouco de sua história com seus amigos.

            - Como eu disse, a gente se divertia muito. Eu estava me acostumando com aquela vida de vagabundo, embora no fundo, no fundo, a gente trabalhava bastante ajudando os outros. Nesse instante João pareceu entrar em transe, como se estivesse vivendo aqueles momentos de seu passado.

           

- Nós três nos tornamos inseparáveis e nos divertíamos como se estivéssemos bem de vida. Aí nós aprendemos o valor de uma amizade. Éramos como os Três Mosqueteiros, “um por todos e todos por um”. A gente se ajudava muito e nenhum de nós deixava o companheiro se meter em confusão. Se era para brigar todos nós brigávamos. Teve uma vez que a gente foi numa festa e de repente começou voar mesa, cadeira e garrafa de cerveja. Ninguém soube como começou e como terminou. Teve até polícia, mas a gente conseguiu escapar rastejando no meio da briga. Os caras começaram a brigar por causa de mulher, um mexeu com a mulher do outro e aí começou. A mulherada saiu correndo da festa e como a gente também saiu, a gente se deu bem.

           

- Vocês eram muito namoradores?

            - Éramos sim. A gente sempre estava indo em festas. Todo sábado tinha uma festa em algum lugar. Em boa parte delas a gente ia de bicão e pegava um sujeito qualquer da festa e ia puxando assunto e aí todo mundo pensava que a gente era amigo de alguém e a gente ia ficando.

            João Caetano parou um pouco sua narrativa e Beatriz aproveitou para ir buscar um café para todos. Enquanto aguardavam Marisa ia fazendo perguntas triviais a João:

            - Sr. João, apenas por curiosidade e isso não vai sair no vídeo: o senhor disse que todos eram muito namoradores. Como conseguiam isso se na maior parte do tempo não tinham dinheiro?

            - A gente de fato não tinha dinheiro, mas sempre tínhamos carinho e, bem lá no fundo, as mulheres preferem carinho a dinheiro. A gente era gentil com as moças, fossem elas de onde fossem a gente sempre as tratava muito bem. A gente sumia muitas vezes, e quando tornava aparecer, a gente sempre levava um mimo qualquer como prova de carinho.

            - E por que vocês sumiam?

            - É que a gente arrumava outras moças em outras festas e assim a gente ia levando nossa vida.

            Beatriz entrou trazendo o café e colocou a bandeja sobre uma mesinha de centro. E como ouvira o final da conversa emendou:

            - Hum, quer dizer então que o senhor era um grande namorador não é? E aqui sempre tão respeitador e precisou de trinta anos para falar comigo.

            - Todos riram do comentário, menos João Caetano, mas ninguém percebeu.

           

- A gente namorava sim, gostávamos de dançar e fazíamos isso muito bem. Só o Mato Grosso que era muito tímido, estava sempre encolhido e quase não dançava. Ele gostava mais de passear pela cidade, ver as obras, os prédios que cresciam e acho que ele teve só uma namorada firme no tempo em que esteve com a gente, Chamava-se Eugênia, moça simples, delicada e prendada. Daquelas que eram para casar. Eles pareciam ter sido feitos um para o outro. Começaram a namorar e como todo namoro sério, chega uma hora em que a moça começa a falar em casamento e nessa hora Mato Grosso sumiu. Tempos depois ele soube que Eugênia ia se casar e lá foi ele para assistir ao casamento lá na igreja de Santa Ifigênia. Voltou chorando, coitado. Por mais que tentássemos animá-lo ele não reagia. Acho que ficou isolado por mais de um mês e se maldizendo porque era pobre.

            - Já o João, esse já era mais boêmio, gostava da noite e de uma bebidinha. Tinha jeito com as mulheres.

            - Uma vez nós fomos a uma baile de Carnaval no Bairro de Vila Esperança e lá ele conheceu uma pequena que despertou nele muita atenção. Ela se chamava Maria Rosa e ele ficou deslumbrado com a jovialidade daquela moça e durante as três noites daquele Carnaval eles namoraram bastante, mas assim que caiu o último rolo de serpentina o namoro acabou. Até hoje eu não sei se foi ele ou se foi ela que terminou.

            - As histórias de amor sempre são tristes, nós tínhamos um amigo que vivia com uma mulher bonitona, mais alta que ele. Ela se chamava Inês e um dia nosso amigo não a encontrou em casa e ficou desesperado. Foi procurar em hospitais, delegacias e até no necrotério e nada da mulher. Quando voltou para casa é que ele viu o bilhete da Inês dizendo que ela estava indo embora e que não ia mais voltar.

           

- E o senhor, senhor João? Namorou muito também? O senhor nunca se casou, não tem família, construiu um império e não tem para quem deixar. O senhor nunca se apaixonou?

            - Namoro mesmo, não. A gente tinha muitos namoricos. Hoje a juventude fala em “ficar” e era o que a gente fazia naquele tempo.

            - Mas eu suponho que o senhor deva ter gostado de alguém.

.           - Me apaixonei sim, uma vez – e os olhos de João Caetano ficam marejados. Ele olha para Beatriz suplicando perdão por nunca ter contado a ela. Ela se levanta e vai até ele.

           

- Eu quase me casei há muito tempo, muito tempo. Era alguém que eu amava muito, moça simples, bonita e que me amava muito também. Eu era ainda um pobre coitado, começando a vida e não tinha nada para oferecer a ela. Mas nosso amor era muito bonito, muito puro.

            - Uma tarde nós tínhamos combinado um encontro no centro da cidade para irmos buscar nossas alianças para o casamento, com nossos nomes e data gravados. Ela desceu do ônibus no Largo do Paissandu e eu estava do outro lado da avenida. Ela veio ao meu encontro feliz da vida e quando foi atravessar a rua não olhou para os lados, olhava só para mim. Um carro ia passando, ela não viu, e foi atropelada. Eu corri, também não olhando para os lados. Meus olhos apenas viam o corpo dela inerte no chão, a bolsa longe. Eu gritava, chorava, implorava. A ambulância chegou, mas ela chegou sem vida ao hospital. Naquele dia eu morri também. Fiquei sentado no hospital um tempo grande demais e quando me pediram os documentos dela eu percebi que não havia apanhado sua bolsa no chão. Voltei ao local do acidente, procurei pela bolsa, perguntei para todo mundo, ninguém sabia de nada.

            - A única coisa que eu peguei no acidente foram seus sapatos que saíram de seus pés com o impacto do carro. E dentro da ambulância para ver os ferimentos dela, me deram suas meias para que eu as segurasse. E isso foi tudo o que me restou! Meias e sapatos e um retrato que eu tinha, mas que acabei perdendo com o tempo. As meias estavam rasgadas, eram de nylon, joguei-as fora, mas guardei os sapatos durante muitos anos numa caixa de papelão. Quando comecei a ganhar dinheiro mandei revestir um pé com bronze e ele fica ali. – E João se levanta, vai até um armário e pega o sapato, o segura e lágrimas caem de seus olhos. Beatriz o abraça e ele encosta sua cabeça em seus ombros.

           

- O senhor quer parar senhor João? – pergunta Marisa.

            - Não, me desculpe pela emoção, é que as coisas ficam tanto tempo guardadas dentro da gente, que quando vamos colocar pra fora, isso acontece sempre.

            - O senhor não disse o nome dela.

            - Iracema, ela se chamava Iracema, o grande amor que se foi embora.

            Nesse instante se podia ver lágrimas em todos os olhos presentes naquela sala.

 

  

 

Capítulo III

 

Após alguns segundos de compenetração, Marisa interrompe o silêncio:

- Senhor João Caetano, como o senhor conheceu Iracema? Consegue falar nisso?

- Foi numa festa de casamento – e João Caetano sorri e passa a reviver cada minuto do dia mais feliz de sua vida. Sua narrativa era como se estivesse vivenciando os acontecimentos daquele dia tão importante.

*

Joca e João andavam pela Rua Treze de Maio, Mato Grosso não quisera vir, quando repentinamente, uma forte chuva se abateu sobre a cidade. Joca e João correram para se abrigar e entraram na Igreja de N. Senhora de Achiropita.

- Vamos entrar aqui João. Ta caindo outro dilúvio!

- Vamos e toma cuidado para não escorregar.

- Ih rapaz ta tendo um casamento!

- Opa! Tomara que tenha festa!

- A gente não foi convidado João, você está louco?

- Louco não, mas to com uma fome danada, você não?

- Com fome eu to sim, mas como é que a gente vai entrar na festa se é que vai haver uma?

E você acha que com uma chuva dessas alguém vai pedir convite?

Lá no altar o padre vai encerando a cerimônia:

- E assim feitos os votos, eu vos declaro marido e mulher. Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Senhores convidados, os noivos mandam avisar que receberão os cumprimentos na Cantina Montechio, ao lado da igreja.

- Falei pra você Joca, é aqui do lado. Vamos nos misturar na multidão.

- Mas João, isso não se faz!

- Ora quem fala! A gente sempre fez isso!

- Mas não em festa de casamento não é?

- “Teikirise migão!”

E lá se foram os dois misturando-se aos convidados entrando na Cantina. Arrumaram uma mesa mais escondida e se sentaram. Dali a pouco os garçons começaram a servir aperitivos e o jantar e logo o ambiente foi ficando quente com as massas e os vinhos que eram servidos. João sentia-se como um príncipe, mas Joca ainda estava acabrunhado e, além do mais, não bebia. Seus olhos passeavam pela festa e foi aí que ele viu aquela linda mulher. Morena, cabelos longos e olhos esverdeados, mas, para seu desencanto ela estava acompanhada e o sujeito parecia bem forte. Mas Joca não conseguia desviar seu olhar e uma hora sentiu uma cotovelada e o aviso de João:

- Joca, nós viemos aqui para comer e beber e não para arrumar mulher e muito menos encrenca.

- Eu não estou buscando encrenca, só não consigo desviar o olhar daquela moça e fique tranqüilo que ela nem sabe que estou olhando para ela.

E foi nesse instante que seus olhares se cruzaram pela primeira vez, mas tão logo isso aconteceu, ela baixou os olhos. Joca estava quase sem fala, extasiado com a beleza daquela jovem e seus olhos não mais se desviaram dela.

A essa altura, João já estava bem abastecido de comida e de bebida e já estava querendo ir embora e tentava convencer Joca a acompanhá-lo, quando aconteceu o inesperado. Joca sentiu uma mão forte em seu ombro e quando se virou de cara com o estômago daquele gigante, quis levantar-se, mas a pressão que o outro fazia em seu ombro não deixava.

- Olha aqui meu chapa – disse o gigante – o que é que você tanto olha para minha mesa?

- Eu não olho para sua mesa, eu olho para sua mulher que é muito bonita.

Nesse instante, João põe as mãos sobre a cabeça, já sabendo o que iria acontecer dali em diante. Já estava acostumado com brigas em festas. E Joca continuou:

- E se eu fosse você ficaria olhando para ela ao invés de vir me incomodar.

O soco foi tão forte que Joca caiu de costas com cadeira e tudo e no exato instante que a moça passava por trás do gigante, envergonhada, deu tempo dela ouvir:

- Escuta aqui ô caipira, em primeiro lugar ela não é minha mulher, é só uma namorada e em segundo lugar eu manjo gente do seu tipo e aposto que nem foram convidados para esta festa, portanto, é melhor darem o fora.

João, meio cambaleante, ajudou Joca a se levantar e dirigiram-se para a saída. Um filete de sangue corria pelos lábios de Joca e seu queixo parecia ter entortado. Ele ainda estava meio tonto e João um pouco bêbado e, por isso, não conseguiam andar direito e, assim, sentaram-se na sarjeta. João foi o primeiro a falar:

- Mas eu não falei pra você que você iria arrumar confusão?

- Mas eu não fiz nada, eu juro. Eu só olhei para a moça.

- Só olhou? Você não tirou os olhos dela o tempo todo.

- Pára João! Eu já estou envergonhado por ter apanhado na frente dela. Acho que nunca mais a verei.

Uma voz se fez ouvir atrás deles:

- Você tem um lenço?

Quando Joca olhou para trás, quase caiu de costas novamente. Era ela que estava ali lhe pedindo um lenço. Mas para que ela queria um lenço? João, ao seu lado, pôs novamente as mãos em volta da cabeça.

- Tenho sim, tome.

A moça pegou o lenço e abaixou-se e passando um pouco de saliva numa ponta do lenço, começou a limpar o ferimento de Joca. Este estava encantado com o que estava acontecendo e não tirava os olhos dela. João quebrou o encanto:

- Obrigado moça, mas vamos embora agora Joca ou aquele gigante vem aqui e mata você.

- Ele não virá não, ele já se exibiu lá dentro e pelo olhar que eu dei nele quando ele disse que eu era apenas uma namorada, ele não virá não.

- E você é namorada dele mesmo?

- Não, nunca fomos namorados não, mas ele sempre pensou que sim.

- E por que você estava junto com ele?

- Ele é amigo do noivo e eu sou amiga da noiva. Só por isso estávamos sentados à mesma mesa.

- Ele tem um soco bem forte.

- Ele é lutador profissional, eu diria que você teve sorte – ela disse rindo.

- Tive sorte sim, se eu soubesse antes que você viria cuidar de mim eu teria ido até sua mesa e puxado os cabelos dele.

- Faria mesmo isso?

- Faria.

- Joca, vamos embora!

- Ele o chama de Joca, seu nome é José Carlos?

- Não, eu me chamo João Caetano, e você?

- Iracema.

- América

- O que?

- Seu nome. Seu nome é um anagrama de América.

- E onde você aprendeu isso?

- Na escola eu li o livro Iracema e o professor disse que era um anagrama da palavra América.

- É você tem razão, mas eu nunca tinha ouvido isso. Também li o livro e sei que meus pais escolheram meu nome por causa dele.

- É um nome muito bonito.

- Obrigada! Vocês moram por aqui? São amigos do noivo ou da noiva?

- De nenhum dos dois, estávamos passando perto daqui na hora em que caiu o temporal e corremos para dentro da igreja para nos proteger e aí assistimos ao casamento. E quando o padre falou que ia ter uma festa, a gente foi.

- E aproveitaram bastante?

- Eu adorei.

E riram e ao olharem para João quase dormindo, riram mais.

- É melhor você levá-lo para casa agora.

- Vou sim, mas será que nos veremos de novo?

- Quer mesmo isso?

- Quero sim, não importa quantos socos eu leve, quero sim.

- Não vai levar soco nenhum não. Mas eu moro um pouco longe daqui, lá em Campos Elíseos.

- Se eu chegar a Campos Elíseos e perguntar por Iracema todos saberão me indicar?

- Claro que não - e tirando uma caneta da bolsa anotou o endereço no lenço e o devolveu para Joca. Espero você no próximo sábado.

- Estarei lá, até logo Iracema.

- Até logo Joca. Seu amigo dormiu.

- Pode deixar, eu acordo ele, não vou carregá-lo não.

Iracema entrou novamente na Cantina e Joca levantou João e o apoiou sobre seus braços e caminharam de volta para casa. Quando chegaram, Joca colocou João em seu colchão e também se deitou de costas, olhando para o teto e vendo o rosto de Iracema.

 

 

A semana demorou a passar para Joca, embora ele tivesse tido dias bastante agitados procurando um emprego. Depois de muito procurar, achou trabalho como pedreiro numa construção. Era um trabalho pesado, mas era um trabalho que lhe daria almoço e ainda ficava perto do local onde morava. Assim, poderia economizar bastante.

O sábado finalmente chegou e Joca passou grande parte do dia se perguntando qual teria sido o horário combinado com Iracema. Ele não tinha certeza da hora em que deveria chegar para o encontro. Decidiu, então, que chegaria à casa da moça por volta das dezoito horas.

Durante todo o dia tentava convencer Mato Grosso a se distrair mais, esquecer-se de Eugênia até porque tinha sido ele a desaparecer das vistas dela, com medo de se casar.

- Olha Joca, que futuro eu poderia dar a ela? Sem trabalho, sem dinheiro, sem nada, moro numa maloca, nem roupas eu tenho mais, todas foram se rasgando com o tempo. A comida que eu como é de graça, sempre dada por alguém. Sou que nem um cachorro que não sabe cavar o chão para procurar seu osso.

- Mas pára com isso, você não é nada disso. Não é só você que está nessa situação. O João está há mais tempo que nós. Eu também entrei nessa vida, mas porque eu quis. Agora que conheci Iracema, até já consegui arrumar um emprego. Não é grande coisa, mas vou conseguir ganhar um dinheirinho. Por que você não faz a mesma coisa?

- Você sabe ler e escrever, freqüentou escola. Eu nem sei ler o meu nome.

- Eu posso ensinar você a ler, se você quiser aprender. A gente poderia estudar todas as noites e podemos convidar o João também.

- Quero aprender sim Joca, senão nunca sairei de lugares como esse.

- Ótimo, combine com João e veja se ele também quer aprender. Agora preciso me arrumar e ir até os Campos Elíseos.

 

 

Joca foi a pé até a Praça João Mendes e lá pegou o bonde Estações e ia imaginando como seria seu encontro com Iracema. Desceu do bonde, já perto da casa da moça e dirigindo-se para lá ia ensaiando o que deveria dizer. Distraído como estava nem reparou que já havia passado sob a janela da casa da moça, até que ouviu um chamado: “Joca, é aqui”! Atrapalhado, quase tropeça em si mesmo e envergonhado de ter sido apanhado falando sozinho ele voltou-se e a visão que teve de Iracema debruçada na janela foi a mais linda paisagem que veria na vida.

- O que você estava dizendo Joca?

- Nada, eu estava apenas resmungando.

- E o que eu te fiz? Escutei você resmungar o meu nome.

- Eu? Fiz isso não – mas o rosto pegava fogo e ele, então, teve que admitir – eu... eu estava ensaiando o que dizer.

- É mesmo? Mostre-me, quero ouvir o que ensaiou.

- Faz isso comigo não, vou bancar o bobo.

- Por quê? É ser bobo vir me encontrar?

- Claro que não Iracema, claro que não.

- Me chame de Cema.

- Gosto tanto de Iracema, que prefiro chamá-la assim.

- E eu gosto de João Caetano e prefiro chamá-lo assim também

Depois de pigarrear, Joca fala com a voz meio rouca, quase num gaguejo:

- Você vai sair ou me convidar para entrar?

- Me desculpe João, vou abrir a porta – disse ela rindo.

Ao entrar na casa de Iracema, Joca observou que era uma casa simples, mas muito bem arrumada por dentro. Havia um vaso com flores no centro da mesa e seus olhos foram percorrendo cada detalhe, cada enfeite, passaram pela cristaleira, divisou uma porta em frente que deveria ser a cozinha e quando terminou de circundar os olhos, deparou-se com a sala de estar, e num sofá estampado de verde, ele avistou um casal que olhava para ele.

Iracema, percebendo que Joca estava nervoso com aquela situação, foi logo o puxando pela mão e dizendo:

- Vem João, estes são meus pais. Meu pai chama-se Silvino e minha mãe é Maria da Conceição.

- Muito prazer, meu nome é João Caetano, ao seu dispor.

Silvino estendeu-lhe a mão e completou:

- É um prazer recebê-lo em nossa casa. Cema disse que viria. O que o senhor faz senhor João? Em que trabalha?

- Eu...

- Ele trabalha em construção papai, constrói casas.

- Ah muito bem!

Dona Maria da Conceição que havia saído da sala retorna carregando uma bandeja com bule e xícaras de café e pede que Iracema vá buscar o bolo de fubá.

Aqueles poucos segundos em que ficou sozinho com os pais de Iracema, pareceram-lhe horas. Sentia-se vigiado, observado e pouco à vontade. Mas, quando Iracema entra na sala carregando um bolo de fubá, ainda fumegante apoiado sobre suas duas mãos, Joca acompanhou-a com o olhar profundamente. Por instantes era como se ele estivesse no futuro, casado com Iracema e ela servindo café e bolo de fubá aos seus amigos. Estava tão absorto em seus pensamentos que nem percebeu que Iracema estava à sua frente, entendendo-lhe uma generosa fatia de bolo de fubá.

Atrapalhado, ele não sabia se pegava primeiro o bolo ou o café que a mãe de Iracema também lhe oferecia. Sentiu que precisava assumir o controle da situação e tentou puxar assunto com o pai de Iracema:

- E aí senhor Silvino, o Corinthians terá um grande jogo amanhã não é? O senhor irá ver?

- Sou Palestra!

Era o que faltava, um futuro sogro palestrino. O que estava acontecendo com o mundo? Quase todas as pessoas que ele conhecia eram do Palestra, também – pensou – é isso que dá morar em bairro italiano.

Iracema percebeu seu constrangimento e apressou-se em dizer que o pai não ligava muito para futebol e foi logo mudando de assunto:

- Você quer mais um pedaço de bolo João?

Outro fora, desta vez ele foi responder com a boca cheia e espirrou farelo por todo o tapete da sala. Sentia que havia estragado tudo com seu jeito desastrado, mas Iracema parecia não se importar com aquilo tudo e sugeriu que fossem dar uma volta pela vizinhança da casa, coisa que prontamente ele aceitou.

Ele queria ficar olhando para ela, mas seus olhos não tinham sustentação suficiente e ele os abaixava a cada instante que Iracema o olhava nos olhos. Ele caminhava com as mãos nos bolsos e ela ia andando com os braços para trás e as mãos entrelaçadas.

Caminhavam quase em silêncio, embora Joca fosse pensando em um monte de coisa para dizer. As pessoas que passavam, no entanto, notavam que ali estava um casal feliz e as palavras não eram necessárias, bastava olhar para os olhares delas. Olhos brilhantes, sentimentos mútuos, não, não eram preciso palavras.

Quando terminaram de dar a volta ao quarteirão, Iracema sugeriu passar em frente ao Palácio do Governo para que Joca visse de perto o lugar onde ficava o governador. Ao atravessarem a rua, Iracema ia ligeiramente à frente de João olhando para trás de vez em quando e sorrindo. De repente, João puxou-a pelo braço:

- Cuidado! Não se atravessa uma rua olhando para trás!

De fato, um carro passava e não fosse Joca tê-la puxado, um acidente poderia ter ocorrido.

Passaram em frente ao Palácio e João achou tudo muito bonito! Iracema ia explicando coisas a ele, que a guarda era trocada a cada duas horas, que cada vez que o governador saía ou chegava era acompanhado por motociclistas que serviam de batedores, essas coisas. Joca ficava extasiado, não com o que ela contava, mas com o som de sua voz. Era como se um canarinho estivesse cantando só para ele.

Voltaram para a casa dela e João tornou a entrar e nem chegou a sentar-se, pois entendeu que era hora apenas de se despedir dos pais de Iracema. Ela acompanhou-o até a porta e despediram-se com um aperto de mãos. Ele segurava a mão de Iracema como se quisesse levá-la consigo e foi com muito custo que a deixou.

  

O caminho de volta foi cheio de sonhos e fantasias. Bonde quase vazio e um Joca sentado com a cabeça apoiada sobre a janela, deixando nela os vestígios de sua respiração.

Quando o bonde chegou próximo à Rua Santo Antonio, Joca desceu e foi caminhando pelas ruas estreitas da Bela Vista e a imagem de Iracema estava fotografada em suas retinas.

Ele precisava trabalhar mais, ganhar mais, para dar a Iracema o que ela merecia. Os pais dela jamais deixariam que sua linda filha se casasse com um servente de pedreiro e que morava em uma maloca.

Decidido, Joca apertou o passo, queria chegar logo em casa e contar para os amigos. Estava apressado, cabeça abaixada para tentar escapar do vento frio que fazia, Joca nem percebeu que João e Mato Grosso, estavam envolvidos numa confusão em uma das casas do Bexiga. Era uma gritaria danada, coisas voando pela janela, gente entrando e gente querendo sair e um João esperto pulando e fingindo querer entrar quando a polícia chegou. Entrou junto com os policiais e puxou Mato Grosso pelo braço e saíram da confusão, tomando o caminho de casa.

Chegaram em casa e encontraram um Joca enfeitiçado, olhos parados no ar, um sorriso tolo na boca e João já sabia o que tinha acontecido. Ele mesmo já tivera aquele mesmo sorriso idiota na boca.

Mato Grosso estava agradecido por João ter voltado para resgatá-lo, pois ele vira quando João pulou pela janela. E João, sempre zombeteiro, disse:

- Fiz pelo nosso lema: “Um por todos e todos por nenhum”.

- É “Um por todos e todos por um” João – disse Joca, parecendo ter acordado de seus sonhos.

- Não, é do jeito que eu falei mesmo, todos por nenhum porque quando a polícia chega é pernas pra que te quero e caiu na gargalhada. Que festança da boa!

- Mas por que você voltou então João? – perguntou Mato Grosso.

- Voltei pra pegar o salame e aí eu vi você. Foi uma questão de opção.

Mato Grosso sorriu agradecido e João emendou:

- Peguei o salame e depois puxei você.

Riram tanto naquela noite, bebendo e comendo o salame que João trouxera da festa que nem houve tempo para Joca contar o que queria.

No domingo pela manhã, João fazia o café quando Mato Grosso ia acordar Joca, João segurou seu braço dizendo;

- Deixa esse aí dormir e sonhar com seu anjo!

- Que anjo João?

- Vai me dizer que não percebeu a cara de tonto que ele tinha ontem à noite? Esse “cabra” aí está morrendo de amor.

O domingo correu normalmente como todos os domingos para os três amigos. Sentaram na praça para tomar sol e à tarde sentaram na mesa de um boteco para ouvir o jogo pelo rádio.

Quando anoiteceu e com fome foram à cata de comida em uma das cantinas do bairro, que sempre lhes dava sobras dos jantares.

 

Na segunda-feira de manhã, acordaram com o barulho de caminhões e um trator em frente ao casarão. Saíram para a rua e viram que um sujeito de capacete amarelo e com cara de poucos amigos ia entrando na maloca e foi logo perguntando:

- Vocês moram aqui?

- Moramos sim, por quê? – respondeu Mato Grosso.

- Porque vocês precisam sair daqui imediatamente, porque vamos demolir essa casa.

- Mas por que demolir seu moço? Nós não tem pra onde ir. – retrucou Mato Grosso.

- O dono mandou derrubar tudo. Ele vai construir um prédio no lugar.

Os três amigos tornaram a entrar no casarão e juntaram sua coisas e com as respectivas trouxas penduradas nas costas foram para o outro lado da rua. Ficaram olhando os homens começarem o trabalho e os três com lágrimas nos olhos estavam abraçados e um fotógrafo de um jornal os viu e bateu uma foto que saiu no jornal do dia seguinte.

Ficaram sentados num dos bancos da praça e nem se lembraram da fome que sentiam, tamanha era a tristeza de todos.

Mato Grosso era o que mais sentia e chorando gesticulava querendo gritar, mas a voz não saia, e Joca disse aos amigos:

- Deus dá o frio, conforme o cobertor! Agora temos que procurar outro lugar.

Naquela noite eles dormiram nos duros bancos da praça e no dia seguinte, tomaram sol no gramado da praça.

João, que fazia muito tempo morava no velho casarão, disse que ia procurar pelo Ernesto e ver se ele poderia deixar ele morar lá por uns tempos.. Mato Grosso, ainda chorando, disse que apesar de não ser bem visto em Corumbá, ia voltar para sua cidade, pelo menos lá ele voltaria a se chamar João. Voltaria do mesmo jeito que saiu de lá, fracassado;

Joca, então, disse que se era assim, era melhor se separarem e cada um tocar sua vida. E foi assim que os três amigos se despediram.

Joca passou a dormir na obra, pelo menos teria um teto para se abrigar.

Os dias se passavam rapidamente e Joca se encontrando com Iracema e, a cada encontro, mas ficava apaixonado, mas, tímido como era ainda não havia beijado a moça.

Procurou ter notícias do João e soube que ele havia deixado a casa do Ernesto, onde ficara apenas uma semana, e voltado para o Bixiga. De Mato Grosso nunca mais soube de seu paradeiro.

Como morava na obra, Joca trabalhava muito mais que seus companheiros; começava antes e só parava quando o mestre de obras ia embora no começo da noite.

Como trabalhava bastante, logo foi promovido a pedreiro e teve um aumento de salário. Ele não gastava seu dinheiro e economizava bastante. Só gastava o dinheiro da condução quando ia se encontrar com Iracema.

Quando a obra ficou pronta, Joca pensou que seria demitido, mas foi novamente promovido para mestre de obras e seu salário tornou a aumentar.

No trabalho todos gostavam muito dele, pelo seu esforço e por estar sempre disposto a ajudar seus companheiros e tratava a todos com muito respeito.

Certo dia, vendo o trabalho que ele executava, um diretor da construtora o convidou para ele fazer uma reforma em sua casa aos fins de semana. Joca se prontificou e no primeiro final de semana lá estava ele. Trabalhar aos fins de semana não o incomodava, embora tivesse que voltar rápido para a obra onde trabalhava agora, tomar um banho e ir ao encontro de Iracema.

Quando terminou o trabalho da reforma, recebeu uma importância em dinheiro que era igual ao seu salário como mestre de obras. Ficou radiante e no primeiro sábado, após o término da reforma, foi se encontrar com Iracema.

Contou a ela tudo sobre o seu trabalho, que tinha morado numa maloca que foi demolida e que depois passou a morar na obra. Foi pedir desculpas a ela dizendo que não queria enganá-la por ele ser um pobretão e nem ter casa para morar, mas que estava economizando e que já havia guardado um bom dinheiro.

            Iracema, comovida, com a sinceridade de Joca lhe disse:

            - Ah meu querido, eu já sabia de tudo isso. Logo depois que nos conhecemos naquela festa alguém me disse que vocês três eram pobretões, mas eu nem liguei para isso, porque quando tinha ido cuidar de você, senti uma coisa muito bonita, era como se uma luz muito forte estivesse te iluminando. Não se preocupe com isso.

            E em seguida Iracema beijou-o nos lábios e aquele primeiro beijo, tornou os dois jovens mais apaixonados ainda.

            João começou a fazer alguns bicos de fins de semana para reformar ou até mesmo construir casas. Em pouco tempo estava ganhando mais dinheiro do que como mestre de obras e fez um acordo com seus patrões para sair da construtora e, assim, receber uma indenização pelos serviços prestados. Os patrões concordaram com ele, pois viram que Joca estava decidido e disseram que as portas estariam sempre abertas para ele.

            Joca já tinha alguns trabalhos contratados e teve que contratar alguns serventes de pedreiro para ajuda-lo. Com o dinheiro que estava ganhando, mais o que havia economizado, Joca deu entrada numa pequena casinha que passou a reformar quando saía de suas obras e aos fins de semana. Em pouco tempo a casa estava pronta para morar.

            Em uma tarde de sábado, Joca foi ao encontro de Iracema e levou-a para conhecer a casa e pediu-a em casamento. Ela enlaçou-o pelo pescoço e repetidamente disse que sim, sim, sim.

            Voltaram para a casa dela e Joca fez o pedido formal ao pai de Iracema. Os pais ficaram surpresos com o pedido e Joca tremia e suava bastante. O pai, então, perguntou:

            - Quando você esteve aqui da primeira vez, minha filha disse que você trabalhava com construção. O que você faz de fato?

            - Olha seu Silvino, eu de fato trabalhava com construção, mas era servente de pedreiro. Depois, fui sendo promovido e cheguei a mestre de obras da construtora e hoje eu trabalho por conta própria, construindo e reformando casas e até tenho algumas pessoas trabalhando para mim. Economizei dinheiro e comprei uma casinha que já reformei e hoje levei Iracema para conhecer e lá a pedi em casamento. Sou trabalhador seu Silvino e farei Iracema muito feliz.

            O pai de Iracema, diante da firmeza de Joca, concordou com o pedido.

            Mas não houve casamento, Iracema morreu atropelada faltando vinte dias para se casarem e Joca nunca mais se envolveu com nenhuma outra mulher.

 

 

 

  

Capítulo IV

 

Apesar da dor que sentia, Joca achou que tinha duas opções, entregar-se à tristeza ou trabalhar ainda mais do vinha trabalhando. Cada vez que se sentia depressivo, lembrava da frase que havia dito para Mato Grosso tempos atrás: “Deus dá o frio conforme o cobertor”. E com isso voltava a se animar e trabalhava cada vez mais. Passou a ser um homem sério, quase não sorria mais e o trabalho passou a ser seu único motivo para viver.

Cada vez tinha mais trabalho e teve que abrir uma empresa, registrou todos os seus empregados. Com isso eles trabalhavam melhor e com mais eficiência e a firma foi crescendo. Contratou até um engenheiro e, logo depois, um arquiteto. A empresa prosperava a grande velocidade e Joca revelou-se um ótimo administrador também, controlando bem os negócios e sabendo onde investir os ganhos.

O pequeno andar que ocupava em um prédio do centro foi ficando pequeno e Joca mudou a sede de sua empresa para um lugar maior e passou a ocupar dois andares.

Vivia só, mesmo já tendo se passado mais de dois anos da morte de Iracema. Às vezes ele se desabafava em pensamentos “Poxa, eu falava pra ela prestar atenção quando fosse atravessar uma rua”.

-Paciência Joca, paciência!

 

 

Uma tarde, passando pela rua onde morava na maloca, Joca viu que o casarão havia sido demolido, mas nada havia sido construído no local. Havia um muro e uma placa com os dizeres de Vende-se.

Joca, então, fez contato pelo telefone anotado na placa e, demonstrando interesse na compra, marcou uma reunião e fez negócio. Agora era dono do terreno onde havia o casarão que ele habitou com seus amigos.

De volta ao bairro, Joca foi ao boteco do Manoel e pediu um café. Manoel serviu o café e encarou Joca.

- Eu acho que conheço o senhor.

- Mas claro que conhece seu Manoel, eu sou o Joca que frequentava seu bar com meus amigos. Quando demoliram o casarão cada um foi para um lado e eu passei a trabalhar muito na construção e hoje acabei de fechar um negócio e comprei o terreno em que morávamos. Vou construir um prédio para o meu escritório de construção.

- Mas que beleza seu Joca! Quem diria não é?

- Pois é seu Manoel. Por acaso o senhor tem notícias do João e do Mato Grosso?

- Não tenho não. O João ainda passou por aqui logo depois da demolição, mas depois sumiu de vez.

Joca despediu-se do dono do boteco e voltou para seu escritório. Lá chegando foi logo avisando sua secretária Beatriz que já trabalhava com ele há bastante tempo, e era de sua total confiança:

- Dona Beatriz, chame os dois gerentes à minha sala e venha também, pois tenho um comunicado a fazer.

Logo em seguida Beatriz entrou com o engenheiro e com o arquiteto na sala de Joca.

- Tenho uma boa notícia para lhes dar, hoje comprei um terreno baldio no bairro do Bixiga e quero informa-los de que pretendo construir a sede de nossa empresa naquele local.  O que vocês acham?

Pedro Paulo, o engenheiro, ficou entusiasmado com a notícia e deu os parabéns para Joca. Marcos, o arquiteto também se alegrou e dona Beatriz nem sabia o que dizer e se limitou a dar um abraço em Joca e, em seguida, se afastou do patrão com o rosto vermelho de vergonha.

              

Capítulo V

 

            João Caetano, ajeitou-se na cadeira e disse:

            - É isso dona Marisa, eu sou o Joca, aquele que está no meio da foto. No terreno que comprei, construí esse prédio. Beatriz já sabia parte dessa história, mas desconhecia que eu morava em uma maloca, neste mesmo local.

            - Que história linda seu João, linda e triste – disse Marisa.

            Beatriz enxugava as lágrimas de seus olhos e abraçou João com muita ternura.

            João Caetano também ficou com os olhos marejados e disse:

            - Acho que todos nós estamos precisando de um café.

            Beatriz pegou o interfone e pediu à copeira para quatro cafés e água para a sala.

            - Marisa perguntou: Dr. João, e seus amigos? O senhor nunca mais teve notícias deles?

            - Tive sim dona Marisa. Eu soube que o Mato Grosso voltou para Corumbá e não arrumava trabalho e se deu a beber e já faz um tempo que o coitado morreu. O João virou compositor e suas músicas tocam no rádio de vez em quando, mas nunca mais nos vimos.

 

            Chegou o dia da festa e o salão da empresa estava apinhado de gente. À medida que alguns convidados chegavam, eram conduzidos ao auditório principal onde seria exibido o áudio visual, não sem antes os garçons servirem um coquetel.

            Muita emoção entre os funcionários e os poucos convidados. Após a projeção João Caetano anunciou seu afastamento da empresa e apresentou o novo comandante sob os aplausos de todos. E muitas lágrimas também.

            Marisa se dirigiu a todos os presentes e anunciou uma surpresa. Falou dos três amigos e de suas vidas e disse que um deles havia morrido e ante alguns sinais de desapontamento, disse:

            - Mas um deles está vivo e está aqui nesta noite.

            E João acompanhado de um conjunto entrou cantando:

            - “Deus dá o frio, conforme o cobertor”.

 

 

 

FIM

 

 

  Ivan Jubert Guimarães

 

Direitos reservados ao autor

 

 

Esperamos seu carinho no nosso Livro de Visitas