Ivan Jubert Guimarães
 



Jonas era conhecido por todos os comerciantes da cidade, policiais e transeuntes daquela região central. Ninguém sabia seu verdadeiro nome, ele só dizia chamar-se Jonas e ele era uma figura carimbada do centro da cidade de São Paulo, seu lar por adoção, não a cidade em si, porque ninguém sabia de onde ele era, mas adotara aquele lugar feio do centro para morar.
Já deu para notar, talvez, que Jonas era um morador de rua, como outros milhares de pessoas de uma grande metrópole. Estava sempre sorrindo e era conhecido e, pasmem, respeitado por todos.
Qualquer pessoa que estivesse perdida, procurando uma rua, um prédio público, um restaurante, seja lá o que fosse, era só perguntar ao Jonas e receberia as instruções mais precisas para chegar aonde queria.
Para um morador de rua, Jonas era um sujeito diferente. Estava sempre asseado e suas roupas eram razoavelmente limpas. Nunca pedia esmolas a ninguém e quando alguém lhe oferecia, ele recusava e mandava que desse aos pobres.
Ele tinha muitos amigos por aquela região onde vivia, perto das Avenidas Senador Queiroz, Cásper Líbero, Ipiranga e São João. Era seu quadrado mágico, como costumava dizer.
Tinha amigos policiais que só o abordavam para fazer-lhe perguntas como se ele fosse um informante, mas era perda de tempo, pois Jonas nunca via nada e nunca tinha nada para contar à polícia. Os policiais sabiam que isso era mentira daquele sujeito estranho, mas sempre acabavam respeitando sua posição de jamais entregar alguém, fosse quem fosse.
Jonas não possuía documentos, pelo menos não os carregava consigo e, mesmo assim, não era detido por este delito de não portar documentos.
Quando o dia amanhecia, Jonas esperava o primeiro bar abrir suas portas e para lá se dirigia. Usava o banheiro para suas necessidades e depois ele o deixava mais limpo do que quando entrara. Se houvesse um chuveiro, ele tomava banho, ou então se lavava com cuidado e esmero. Ao terminar sua higiene, já era aguardado no balcão com um copo de café com leite e pão com manteiga. Ele se alimentava, agradecia e saía para as ruas e perambulava aqui e ali. Se ele visse alguém procurando uma vaga para estacionar ele sempre ajudava os motoristas e, muitas vezes, auxiliava-os na manobra. Ajudava a empurrar carros quebrados, ajudava velhos e mulheres a trocar pneus furados e o espantoso é que nunca aceitava gorjetas.
Quando se aproximava o horário do almoço, Jonas começava a escolher o lugar onde iria almoçar. Como era conhecido, ninguém lhe negava um prato de comida. Ele fazia um sinal com a mão e esperava o movimento diminuir e só então almoçava. Após comer, um servicinho aqui ou ali pagava sua refeição.
No período da tarde, Jonas sentava em algum lugar, uma praça ou qualquer outro lugar tranqüilo e se dedicava a observar a Natureza e o movimento de pessoas que passavam de um lado para o outro. E fazia isso até quase o anoitecer. À noite, a freqüência dos lugares mudava bastante e as pessoas eram também diferentes das pessoas que ele costuma ver durante o dia. Mas ele tinha também os seus amigos noturnos.
Quando as lanchonetes começavam a fechar, lá ia Jonas em busca de seu jantar, não sem primeiro usar o banheiro e deixá-lo impecável após seu uso. Lavava-se muito bem e, se fosse possível, tomava um banho. Ajudava na limpeza do bar e depois comia com satisfação o que lhe era servido. Nunca escolhia nada e aceitava o que lhe era servido de muito bom grado. Despedia-se, agradecia e ia para “casa”. Ele não tinha um lugar especifico para dormir, isso variava de acordo com o tempo ou com seu humor. Mas ele sempre escolhia um lugar limpo e sempre esperava o caminhão que recolhia o lixo passar. Ao deitar-se, Jonas agradecia o dia que tivera e rememorava os acontecimentos que presenciara. E só então ele adormecia.
Eu o conhecia de vista, sabia um pouco de sua história, mas queria saber mais coisas da vida daquele homem. E foi assim que me aproximei de Jonas pela primeira vez. Ele tinha uma aparência forte e um porte até elegante.
- Olá Jonas, boa tarde! Meu nome é Carlos e há muito que eu passo por estas ruas e sempre o vejo aqui e ali. Tenho observado que muitas pessoas o cumprimentam diariamente com ares de admiração. Será que poderíamos conversar um pouco?
- Se você me deixar falar, podemos sim.
- Desculpe, acho que minha introdução foi muito longa, não foi?
- Foi.
- Hum, você parece ser um homem de poucas palavras.
- Falar demais nunca é bom.
- É força do hábito, sou jornalista e vivo de fazer perguntas.
- Parece que hoje tem muita gente vivendo de fazer perguntas: delegados, advogados, relatores de CPIs, entrevistadores de televisão, mas poucos fazem as perguntas certas.
- E qual é a pergunta certa?
- Essa provavelmente não é.
- Você é espirituoso não é?
- Nem essa.
- Acho que comecei errado.
- Acho que sim.
- Pelo menos concordamos em algo.
- Estamos só nós dois aqui, se estivermos de acordo não há o que conversar.
- Você não quer conversar.
- Não foi o que eu disse.
- Talvez eu esteja incomodando.
- Nada me incomoda.
- Sabe Jonas? Você é um tipo diferente.
- Eu sei, não existe ninguém igual ao outro, nem os gêmeos são iguais.
- Jonas é seu verdadeiro nome?
- É o que eu uso e deve ser verdadeiro, pois todos me chamam assim. E o seu é Carlos mesmo?
- Sim, eu me chamo Carlos de Almeida.
- Foi você mesmo quem escolheu?
- Não, por que pergunta isso?
- Então o nome não é seu, é desse tal de Almeida.
- Meu pai.
- Foi ele que deu seu nome. Você não o escolheu.
- Você está me dizendo que se chama Jonas porque escolheu assim?
- Claro.
- E por que Jonas?
- E por que não?
- Estou falando sério, por que escolheu Jonas?
- Por causa de uma baleia.
- Entendo, Jonas e a baleia que salvou o verdadeiro Jonas do naufrágio.
- Eu sou o verdadeiro Jonas. Você conhece o outro?
- Não, é só uma história bíblica.
- Pois é, então o verdadeiro Jonas sou eu.
- Mudando de assunto, você mora mesmo na rua Jonas?
- Moro
- E por que faz isso? Você não parece ser o típico morador de rua.
- Por que não?
- Ora, porque... porque você é inteligente, fala bem, está limpo.
- Pela sua lógica, quem não tem inteligência, fala errado e está sujo é um morador de rua.
- Não quis dizer isso.
- Mas foi o que disse, que não pareço com o típico morador de rua porque sou limpo, inteligente e falo bem. E no início você disse que eu sou um homem de poucas palavras. E como sabe que sou inteligente? O que é a inteligência?
- Ora Jonas, você articula bem as palavras.
- Políticos também fazem isso e você acha que são inteligentes ou espertos? Ou então pode ser que ache que Jonas seja um político.
- Não, você vive pondo palavras em minha boca.
- Desculpe a má pontaria, estou tentando por as palavras em seus ouvidos. Inteligência todo mundo tem Carlos. É um dom que foi dado a todos. Alguns a desenvolvem, outros preferem o comodismo. Cultura é diferente de inteligência, assim como a esperteza também o é. Inteligência é apenas a capacidade que temos de aprender e todos nós nascemos com isso.
- Entendo, mas você ainda não me disse porque é um morador de rua.
- Não, não disse.
- E por que não?
- Você não perguntou, só perguntou se eu moro na rua.
- Então me diga Jonas, por que você mora na rua?
- Porque eu gosto!
- Mas você não tem família?
- Ninguém é dono de ninguém Carlos.
- Mas deve ter havido uma mulher em sua vida Jonas.
- Houve.
- Filhos?
- Tive.
- E então? Tem notícias deles?
- Estão bem.
- E como sabe disso?
- De vez em quando eu os vejo em minhas andanças, pois sei onde moram.
- E você não sente saudade deles, nem do conforto de um lar?
- Não, e quando sinto vou vê-los.
- Mas nunca pensou que eles podem estar sentindo a sua falta?
- Não, se pensasse nisso, não teria saído de casa.
- E há quanto tempo foi isso Jonas?
- Dez anos.
- Tem uma foto deles?
- Não, a última que eu tinha rasgou e joguei fora.
- Mas por que fez isso?
- Porque eles não são mais como estavam na fotografia.
- Você é muito estranho Jonas.
- E você, Carlos, sempre conversa com estranhos?
- Não é meu costume, mas você me despertou a atenção.
- Se não é seu costume falar com estranhos, como conhece novas pessoas ou faz novas amizades?
- Você faz perguntas difíceis Jonas.
- Não, eu faço perguntas certas, aquelas que só você pode responder.
- Agora entendo o que quis dizer com fazer a pergunta certa.
- Que bom que aprendeu alguma coisa, isso pode melhorar nossa conversa.
- Tem muita gente morando nas ruas, não Jonas?
- Eu diria que tenho muitos vizinhos.
- E não tem medo de ser assaltado?
- Não, pois não tenho nada que possa ser roubado.
- Você não carrega dinheiro?
- Nunca.
- E como faz para comer?
- Eu ganho o que comer, faço três refeições por dia em troca de pequenos serviços.
- Já vi você ajudando pessoas em apuros com seus carros e outras coisas. Você ganha muita gorjeta?
- Nenhuma, pois aí ei teria que carregar dinheiro, peço que dêem aos pobres.
- E você não é pobre Jonas?
- Não, e você?
- Eu trabalho, tenho salário que dá para pagar as contas.
- Eu não tenho contas. E quanto sobra depois de pagar as contas?
- Muito pouco ou quase nada...
- Somos iguais Carlos.
- Mas eu tenho um endereço para dormir.
- E eu tenho muitos Carlos. Durmo sob marquises quando chove ou faz muito frio. Durmo sob as estrelas e o luar em algum banco de praça quando a noite está quente e limpa. E de manhã, de manhã eu acordo com o cantar dos pássaros. Como você mora Carlos?
- Moro em um apartamento.
- Acorda com os pássaros?
- Tenho um despertador.
- Você deve ser bem feliz Carlos, tem um despertador.
- Sou feliz sim Jonas, tenho um apartamento, uma família, um carro, um bom emprego e outras coisas.
- E está tudo pago Carlos? Você não deve nada?
- Devo o financiamento do apartamento e do carro, mas são meus.
- Seus ou da financeira? O que aconteceria se você não pagasse as prestações?
- Provavelmente iria para leilão, mas não existe essa possibilidade.
- Nem se perdesse o emprego?
- Não Jonas, eu me viraria de algum jeito portanto não há a menor possibilidade disso acontecer.
- Carlos, nós vivemos no reino de todas as possibilidades.
- Não entendi isso Jonas.
- Eu sei que não. Mas meu querido Carlos, o que aconteceria se por acaso, você perdesse tudo, por uma fatalidade qualquer, sua família continuaria com você? Pense bem antes de responder, pois nem sua família está paga meu amigo. Seus filhos estudam e você tem longas despesas pela frente.
- Claro que continuariam comigo Jonas.
- Como pode ter certeza disso? Na riqueza e na pobreza?
- Eu acho que sim.
- Você acha que sim
- Foi por isso que você saiu de casa Jonas?
- Não meu caro, eu saí para poder viver, para tirar lições da vida que só a rua poderia me dar. Antes eu saía do trabalho sempre tarde, chega sempre tarde em casa com mil preocupações na cabeça. Era prisioneiro do trabalho e escravizava minha família. Não via ninguém fora de meu ambiente e não saia de casa também.
- Não entendo você, abandona os filhos e vai viver com meninos de rua que nada mais são do que pequenos delinqüentes. Esses pivetes não te incomodam Jonas?
- São crianças Carlos, crianças. E não moro com eles.
- Sim são crianças, mas são delinqüentes.
- Oliver Twist não era um delinqüente.
- Ele nunca existiu Jonas.
- Como você sabe?
- Porque é uma criação de Dickens. E por falar nisso, você leu Dickens?
- Você leu?
- Não, mas conheço a história.
- Como pode conhecer a história se não a leu?
- De ouvir falar.
- Então você acredita em tudo o que houve falar Carlos?
- Claro que não Jonas!
- Mas acredita na história de Oliver Twist, uma fantasia.
- Isso é diferente Jonas.
- Pois eu não vejo diferença entre ouvir coisas de um ou de outro, sejam histórias, verdades ou mentiras. Você fica sabendo das coisas apenas pelo lado dos outros, não vive a experiência e nem medita sobre as coisas.
- Você não me respondeu se leu Dickens.
- Dickens e muitos outros, alguns dos quais eu acho que você nunca ouvir falar. E você deveria ler Oliver Twist, quem sabe lendo você acabaria com esse seu preconceito.
- Eu não tenho preconceitos Jonas.
- Claro que tem! A começar por sua análise sobre mim e agora com relação aos meninos de rua chamando-os a todos de delinqüentes. Isso é preconceito. E tenho certeza de que se eu fosse um negro, você nem teria se aproximado de mim.
- Eu não sou desse tipo não Jonas. Mas você está morando na rua há dez anos, onde você lê e guarda seus livros?
- Você foge dos assuntos quando eles pegam você em algum ponto. Pense nesse caso de preconceito e verá que tenho razão. Quanto ao fato de eu ler, eu não guardo os livros, livros foram feitos para circular de mão em mão. E se você olhasse mais para as ruas e visse tudo que existe nela, saberia que aqui bem pertinho existe uma biblioteca municipal onde são guardados as mais preciosas jóias da literatura mundial. É lá que eu leio.
- E você lê muito?
- O suficiente. Sempre que chove eu estou na biblioteca e só saio de lá na hora de fechar e se, por ventura, não acabar o livro, eu volto no dia seguinte para terminá-lo.
Nesse instante eu fiquei imaginando se tudo o que Jonas me dizia tinha algum fundamento de verdade; se de ato ele era um morador de rua mesmo.
- Aposto que você não acreditou em uma palavra do que eu disse até agora.
- E o que o levou a pensar isso?
- Pelos seus pensamentos meu amigo, pelos seus pensamentos.
- E além de livros, você também lê pensamentos?
- Todo mundo pode ler pensamentos depois de aprender a olhar as pessoas e pelo fato de eu morar na rua estou sempre observando as pessoas e posso dizer com segurança o que estão pensando, no que trabalham, se são felizes, se estão doentes, preocupadas.
- Pode me dar uma demonstração disso com as pessoas que estão aqui nesse bar?
- Posso, mas não o farei em respeito a elas. Mas posso dizer mais coisas a seu respeito. O que você gostaria de saber a seu respeito que ainda não sabe?
- Que conversa é essa Jonas? Você acha que me conhece melhor do que eu mesmo?
- Não sei se o conheço melhor, mas sei que tem muitas coisas sobre você que você desconhece, ou esconde.
- O quê, por exemplo?
- Não sei, mas você é quem poderia me dizer.
- Eu acho que sei tudo sobre mim.
- Você acha! Ninguém sabe quase nada sobre si mesmo. Por que seria diferente com você? Até há pouco você nem sabia que tinha preconceito. O grande mal da humanidade está no fato do homem não se conhecer meu caro Carlos. E por não se conhecer, o homem só pensa em si mesmo e o mundo está do jeito que está por causa do egoísmo e da violência.
- Mas existe muito amor também Jonas?
- Aonde? Você ama seus filhos?
- Claro que os amo! E muito!
- E quanto você ama os filhos dos outros?
- Eu não sei, nunca pensei sobre isso.
- Está vendo como você não se conhece direito? Nem sabe o quanto você ama!
- Espere aí! Você falou sobre eu amar os filhos dos outros.
- Exatamente, e você deve amar mais os seus filhos do que os filhos dos outros.
- Mas é claro que sim!
- Carlos, isso é egoísmo. Você tem religião?
- Sou católico.
- De ir à missa?
- Não, mas tive formação católica.
- Tudo bem, como católico que você diz que é, embora não pratique, suponho que já tenha ouvido falar de Cristo e Cristo disse para amarmos uns aos outros. E você não ama os filhos dos outros.
- E o que você sabe sobre o amor Jonas, se abandonou sua família?
- Eu não os abandonei, apenas saí de casa com o conhecimento e consentimento deles. Eles estão bem, muito melhores do que se eu estivesse lá, podando a vida deles. E tem mais uma coisa, não é desse tipo de amor que eu estou falando.
- E de que amor você está falando então?
- Do verdadeiro amor Carlos, do amor absoluto.
- Eu não aceito você falar disso quando deixou para trás mulher e filhos, quando a família é a coisa mais importante do mundo.
- Concordo com você meu caro. Quando Cristo estava com seus apóstolos vieram lhe avisar que sua mãe e seus irmãos estavam lá e ele perguntou: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Cristo disse que todos nós somos irmãos, filhos do mesmo pai, todos são da mesma família, você é meu irmão, você é minha família!
- Mas eu falo de outra coisa Jonas, falo de minha mulher e de meus filhos.
- Eles são seus? Você é proprietário deles?
- Claro que não, eles são livres!
- Livres de acordo com o seu conceito de liberdade. Se seu filho quisesse ser um morador de rua, você deixaria?
- Claro que não, ele acabaria virando um bandido.
- Acha que sou um bandido Carlos?
- Claro que não Jonas, tanto é que eu o procurei para conversar.
- E por que você acha que seu filho Carlos, viraria bandido. Você não confia nele?
- Não é isso, é que viver, por exemplo, nos lugares onde você vive acaba marginalizando as pessoas.
- Ah Carlos, Carlos, Carlos. Olha aí o preconceito de novo. Fosse do jeito que você fala todos nesta cidade seriam bandidos. Você tem que entender que não é o meio que faz o homem, mas o homem é que faz o meio.
- Não concordo com isso Jonas, quem nasce na miséria tem muito mais chance de roubar do que quem nasce num bom lar.
- Verdade, mas por uma questão de sobrevivência, não por maldade.
- Mas eles matam Jonas!
- Os ricos também matam Carlos. E já que estamos falando nisso você acha que Deus é injusto?
- Tem horas que eu penso que sim.
- Em que horas você sente isso? Que Deus é injusto?
- Pelas coisas que acontecem na vida da gente Jonas. Há momentos na vida em que trabalho tanto e não vejo recompensa. Quando penso que vou conseguir algo ou mesmo quando consigo, alguma coisa acontece e acabou perdendo o que ganhei.
- Outra vez o egoísmo meu amigo! Mas Deus não é injusto não e ainda falaremos disso em outra ocasião. Nós temos e exercemos o livre arbítrio. Foi o que fiz. Nasci em boa família,segundo seus conceitos, tinha de tudo e vi que nada era meu. Nós somos aquilo que queremos ser. Deus não tem nada com isso e não interfere em nossas escolhas.
- E isso que você disse que tinha tudo e que nada era seu?
- Essa é uma das maiores verdades e o dia que você tiver coragem de aceitá-la você sofrerá muito menos e talvez seja até feliz.
- Que verdade Jonas?
- A verdade de que não somos donos de nada, de absolutamente nada. Pegue por exemplo o terreno do lugar onde você mora. Quem foi o primeiro dono do local e quem deu para ele? Você pode dizer que foi o governo, mas ele não comprou, apenas tomou. Você é um receptador Carlos.
- Você é meio maluco, sabia?
- Sabia.
- Mas eu confesso que nunca havia pensando num monte de coisas que você me disse hoje.
- E para você ter mais certeza sobre isso é ver uma criança nascer Carlos, de família rica ou pobre, não importa. Elas chegam iguaizinhas, peladinhas e não trazem nada nas mãozinhas fechadas. É a mesma coisa quando a pessoa morre, todos os bens que ela amealhou em vida ficam por aqui, para os herdeiros brigarem e se não houver herdeiros, o governo toma. A pessoa não leva nada. Viemos sem nada e voltaremos sem nada, meu caro. Somos meros depositários dos bens que a vida nos oferece e o tempo que ficamos com eles depende do uso que fazemos deles.
- Pensando bem nas coisas que acaba de me dizer, eu acho que você tem razão em quase tudo, pelo menos está me levando à reflexão e eu gostaria de conversar mais vezes com você.
- Eu estou sempre por aqui meu caro, basta andar um pouco que você me acha. Se for um dia de chuva, você também sabe onde me encontrar. Eu tenho que ir agora pois já está quase na hora de eu jantar e ainda não escolhi o local desta noite. Até mais ver Carlos.
- Até mais ver Jonas.
Aquele encontro modificou minha vida para sempre. Encontrei-me muitas outras vezes com aquele homem e, a cada encontro, novas lições de vida. Depois de certo tempo, Jonas desapareceu do mapa e ninguém sabia dizer nada sobre seu paradeiro. Talvez ele tenha voltado para sua família, o que acho difícil depois de tudo o que ele disse sobre liberdade. Talvez ele tenha mudado de cidade levando com ele todo aquele conhecimento para outras paragens.


 

Ivan Jubert Guimarães


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