Ivan Jubert Guimarães
21.07.2006
 


Era o ano de 1965 e o mundo começava a mudar os costumes até então usuais. As saias iam se encurtando, os cabelos dos rapazes iam crescendo. A música dos Beatles dominava as paradas rivalizando com outro astro da época, Elvis Presley. Na Ásia começava uma guerra que seria sangrenta e que iria perdurar por alguns anos, a guerra do Vietnam. Americanos e russos disputavam uma corrida espacial. No Brasil, iniciava-se um movimento chamado Jovem Guarda e os festivais de MPB atraiam a atenção de todo o país.
Havia ídolos para todos os gostos e nos cinemas predominavam as comédias açucaradas e os filmes de guerra.
E era nesse mundo todo agitado que vivia um rapaz extremamente tímido. André não ia aos festivais, não gostava nada do tal de rock and roll e muito menos do twist. Nos bailes realizados nas noites de sábado na casa de alguém da turma, ele era daqueles que ficavam em pé encostados-se à parede, pois ele quase não sabia dançar nenhum tipo das músicas que tocavam nas vitrolas.
As moças, estas sabiam dançar todos os ritmos musicais, mas também ficavam à espera de algum rapaz que as tirasse para dançar. E o rock corria solto pela sala, mas poucos se arriscavam a dançar.
Mas aí, alguém coloca um disco de Ray Conniff e todos saiam correndo para pegar a moça mais bonita do baile. E Carmem era uma dessas moças. A turma de rapazes fazia apostas para ver quem conseguiria namorá-la, tal sua beleza e simpatia.
De todos os apaixonados por Carmem, André era o que mais sentia as dores da paixão. Mas sua timidez impedia qualquer aproximação. Ela, por sua vez, também era uma moça muito tímida, apesar de toda sua beleza. Carmem era uma moça de cabelos dourados, olhos azuis e um sorriso muito bonito. Sua pele era morena e o contraste provocado pelos cabelos e pelos seus olhos era lindo de se ver. André, era um rapaz comum, não tinha nada de especial, assim como a maioria de seus amigos. Eram todos jovens demais para trabalhar e eram estudantes secundaristas. A única coisa que o diferenciava dos demais era a timidez. Quando ele estava conseguindo chegar perto de Carmem para tirá-la para dançar, alguém chegava primeiro que ele. Ele voltava para a parede e ficava olhando os casais dançando, mas seus olhos estavam sempre voltados para a moça. De vez em quando ele parecia ver que aqueles olhos verdes estavam olhando para ele, mas quando ele olhava, os olhos dela se desviavam.
E assim acontecia sua história. O baile acabava e cada um ia para suas casas e André, mais uma vez, não tinha conseguido dançar com Carmem. Ela, sorridente, despedia-se das amigas e ia embora com o irmão mais velho.
Nos dias de semana, quando voltava da escola com seus amigos, ele procurava sempre passar em frente da casa onde morava Carmem. Era uma casa muito simples, pois os pais dela não tinham posses como a maioria de seus amigos. Claro que ele não se importava com isso, mas isso dificultava seus encontros nos bailes de sábado, pois Carmem tinha poucas amigas no bairro e não era sempre que era convidada para um baile até porque as outras moças invejavam sua beleza.
Todas as noites André saía com seus amigos para conversar e dar umas voltas pelo bairro. Nessas saídas, ele sempre procurava um jeito de desviarem-se do caminho normal apenas para passar em frente da casa dela. De nada adiantava essa caminhada, a janela estava sempre fechada.
André tinha um amigo, aliás seu melhor amigo, chamado Júnior, e era com ele, apenas com ele, que André comentava sobre sua paixão por Carmem. Júnior procurava incentiva-lo a procurar a moça, mas André sentia medo. Tinha medo de falar com ela e ela se ofender e nunca mais olhar para a cara dele.
Júnior tinha uma irmã de nome Alice, mas todos a chamavam de Licinha. Ela era loira também, assim como Carmem, embora fosse bem mais jovem. Era uma garota espevitada, muito alegre e era uma menina acostumada a brincar mais com rapazes do que com as outras meninas. Era completamente apaixonada por André. Onde quer que André estivesse, ela aparecia, apenas para ficar perto dele. E ela sofria quando ouvia André falar para Júnior de seu amor por Carmem. André percebia, mas fingia não ver. Aliás, namorar irmã de amigo, naquela época, nem pensar.
O tempo ia passando, e o amor de André por Carmem ia crescendo a ponto dele não dormir mais só pensando nela. Ás vezes, ele caminhando pela rua, pela mesma calçada, ele via Carmem vindo no sentido contrário. De longe, ainda, ele começava a olhar direto nos olhos dela e sentia que aqueles olhos tão lindos também olhavam para ele. Suas pernas tremiam, o rosto pegava fogo, mas eles simplesmente passavam um pelo outro sem trocar um olhar, mas os rostos enrubescidos faziam seu coração disparar.
Um dia, Júnior chega todo feliz para André e lhe conta que tinha pedido Heloísa em namoro. Heloísa era outra garota do bairro e era linda tanto como Carmem, mas, diferente desta, Heloísa era uma menina rica e mimada. Mas Júnior estava numa felicidade que não tinha tamanho. André ficou contente pela felicidade do amigo e logo foi pedindo para que ele contasse como ele tinha conseguido isso. Heloísa era tão cobiçada quanto Carmem, por todos os rapazes do bairro. Talvez até mais.
Heloísa era o tipo de garota moderna, filha única de pais ricos, era quase que criada solta. O pai viajava muito e a mãe estava sempre envolvida com trabalhos voluntários de senhoras de sociedades beneficentes.
Júnior era um rapaz muito bonito, talvez fosse o mais bonito de toda a turma. As garotas davam em cima dele, mas ele, como a maioria daquela época, também tinha seus momentos de timidez. Ele iria se encontrar com Heloísa naquela noite; seria seu primeiro encontro com aquela garota mais moderna do bairro.
André e Júnior estudavam em escolas diferentes, no período da manhã. E quando André chegou da escola no dia seguinte, encontrou com Júnior o esperando na porta de sua casa.
- André, venha até aqui, precisamos conversar.
- O que foi? Você está com uma cara!
- To chateado cara, triste pra caramba!
- Mas o que foi que aconteceu? Você devia estar feliz hoje; ia se encontrar com a Helô ontem. Ela te deu o bolo?
- Pior que isso André, muito pior, ela me deu o fora.
- Mas por quê? O que aconteceu?
- Olha, a gente se encontrou como havíamos combinado, eu passei na casa dela às 8 horas e ficamos conversando na varanda da casa dela. Depois fomos até aquela doceria que tem lá perto da casa dela e compramos sorvete e voltamos para a casa dela. Logo depois, eu nem tinha terminado o sorvete, ela pediu para que eu fosse embora.
- Mas o que foi que você fez?
- Nada, absolutamente nada e foi por isso que ela me mandou embora.
- Como assim?
- Ela disse que não ia dar certo a gente continuar saindo junto porque quando fomos até a doceria, eu nem peguei na mão dela.
- E porque você não pegou na mão dela?
- Pó cara! No primeiro dia de encontro?
- Mas só por causa disso?
- Pois é cara! Eu tinha vontade de agarrar a Helô de todas as maneiras, dar um amasso nela, beija-la e tudo o mais, mas no primeiro dia?
- Você deve ter feito outra coisa Júnior. Acho que ela não ia te dar o fora por causa disso.
- Mas deu, cacete! E ainda falou para eu não procura-la mais e nem telefonar.
- Que chato, eu sinto muito por você meu amigo. Mas, se eu fosse você iria até a casa dela ainda hoje.
- Iria nada, você está gamado pela Carmem e nunca falou com ela.
- Mas é diferente, você já falou com a Heloísa.
- E o pior é que eu estou parado nela!
- Eu escreveria uma carta para ela e levaria pessoalmente, explicando porque foi que você não pegou na mão dela. Acho que ela vai entender. E depois, se ela aceitou sair com você é porque ela deve gostar pelo menos um pouco de você Júnior.
- Sei não, eu pensei que ela fosse uma garota de família, mas acho que ela é sarrinho. Banquei o trouxa e me ferrei.
- É, talvez você pudesse ter-se aproveitado, afinal ela é uma gostosura.
- E como cara, você precisava sentir o perfume dela. Ela estava usando um vestido tubinho e o corpo dela é demais. Fui trouxa mesmo.
- Será que a Lucinha não pode te ajudar com ela?
- Ela nem sabe que a Lucinha é minha irmã e depois tem o seguinte, se ela é sarrinho eu não quero ver minha irmã conversando com ela.
- Bom, tudo bem, foi só uma idéia. Então é melhor você partir pra outra. Por que você não volta a namorar com a Solange?
- Porque eu não gosto dela, ela é muito pegajosa. Você tem visto a Carmem?
- Não. Ela não é da turma daqui não é? As meninas daqui quase não a convidam para nada e ela pouco aparece. Só vai na casa da Olga ou da Rosana. E eu nem tenho amizade com elas.
- Nós dois somos uns trouxas! Enquanto a gente fica aqui, deve ter um monte de caras por aí se aproveitando delas.
- Não acho não, a Carmem não me parece esse tipo de garota. Aliás eu nunca a vi com ninguém. Acho que além do pai dela o irmão anda sempre de marcação.
- Olha, no próximo sábado é aniversário do Clóvis, irmão da Olga e ele me convidou para ir na casa dele. Por que você não vem comigo?
- Não fui convidado Júnior. Como vou aparecer na casa dele sem ser convidado?
- Mas ele é amigo nosso e se não te convidou é porque não deve ter te encontrado ainda. Vamos lá. A Carmem, com certeza, vai estar lá.
- É, vontade eu tenho, mas o que não tenho é coragem.
- Olha, vamos fazer o seguinte, vamos dar uma passada lá na casa dele mais tarde e quem sabe a gente se falando ele te convida. Eu tenho mesmo que falar com ele.
- Então vamos nessa!
Despediram-se e André entrou em sua casa para almoçar. Tão logo terminou de comer, subiu para seu quarto e começou a fazer sua lição de casa. Queria se ver livre logo de qualquer trabalho para poder sair com o Júnior mais tarde.
Estava quase no fim de sua lição, quando escutou a campainha e logo depois Licinha estava parada á porta de seu quarto.
- Oi André, eu queria falar com você. Você está muito ocupado?
- Estou terminando a lição de casa e depois vou sair com seu irmão, por quê?
- Não é nada de mais. Na verdade eu queria só conversar e quem sabe a gente podia brincar um pouco com seu gravador e ouvir umas músicas.
- Acho que não vai dar não Licinha. Seu irmão vai passar aqui daqui a pouco e nós vamos para a casa da Olga. Ele tem que falar com o Clóvis.
- Puxa, que pena! - E dizendo isso Lucinha se ajoelhou no chão perto da escrivaninha de André. Ela usava um short e uma blusinha leve por cima do corpo e André ao dirigir-se a ela pode ver aqueles peitinhos que desabrochavam.
- Lucinha.
- O quê?
- Nada, é que seu irmão logo vai passar aqui e pode não gostar de te ver aqui assim desse jeito.
- Que jeito?
- Assim, oras.
- Você nunca dá atenção para mim não é?
- Por que você está falando assim?
- Porque sim. Toda vez que eu estou por perto você se afasta.
- Não é nada disso Lucinha. Eu e seu irmão somos amigos e se eu for me meter com você eu sei que ele não vai gostar. E depois, você é só uma menina.
- E daí, você não gosta de meninas?
- É claro que gosto, mas você é irmã do meu melhor amigo.
- E o que isso tem de ver com a gente?
- Nada, sei que não tem nada demais. - E o olhar de André foi novamente para dentro da blusa de Lucinha.
E André prosseguiu: - Olha Lucinha, é melhor você ir para sua casa e assim que a gente voltar da Olga a gente se fala ta bem assim?
- É, acho que não tem outro jeito, Você me chama:
- Vou voltar com o Júnior e vou até sua casa.
- Ta bem então, mas eu queria saber o que vocês vão fazer lá na Olga..
- Nada de mais, É que vai ter um bailinho lá na casa dela e o Júnior precisa combinar alguma coisa com o Clóvis, só isso.
- Sei, ta bem. - E dizendo isso Lucinha foi-se embora.
Poucos minutos depois, Júnior gritou da rua chamando André e rapidamente André desceu correndo as escadas e foi-se encontrar com o amigo.
Logo depois estavam diante da casa de Clóvis, mas ele não estava. Olga explicava que o irmão tinha ido ver um emprego, pois estava fazendo 18 anos e seu pai queria que ele começasse a trabalhar.
Olga era uma menina bonita, Era muito inteligente, estudava num dos melhores colégios da cidade, assim como seu irmão. O pai era político de destaque do regime militar, mas estava separado da esposa já há algum tempo, mas ainda era o provedor da família. Olga tinha em Carmem a sua melhor amiga a despeito da diferença social que havia entre ambas. Elas se conheciam de vista do bairro, mas a amizade entre elas nasceu porque Olga gostava muito do irmão de Carmem, com quem já havia namorado, mas fora obrigada a desmanchar o namoro por causa da diferença social que havia entre eles.
A conversa rolou normalmente e Júnior prometeu que levaria o último disco dos Beatles e Olga perguntou a André se ele tinha algum disco legal para levar e animar a festa. André ficou meio sem jeito, pois seus discos eram de músicas lentas e respondeu que tinha alguns discos de Ray Conniff e outros de músicas italianas que faziam muito sucesso naquela época. Olga então pediu que ele levasse os discos que seriam bem-vindos, porque ela não era muito chegada também em rock. E assim, André conseguiu ser convidado para a festa.
O sábado demorou a chegar. A ansiedade de André era enorme, pois não via a hora de poder se encontrar com Carmem, a garota com a qual sonhava todas as noites.
As noites de sexta-feira eram para André e sua turma a noite que todos esperavam. Apesar de terem aulas nas manhãs de sábado, a noite de sexta era a noite em que ficavam até mais tarde pelas ruas. Mas naquela sexta-feira André ficou em casa e queria dormir o mais cedo possível para que o sábado chegasse logo.
O sábado amanheceu e o dia prometia ser muito bonito. Assim que André chegou da escola, foi direto à casa de Júnior para combinarem de irem juntos ao baile da noite. Foi recebido pela mãe do amigo que lhe deu a má notícia. Júnior tinha quebrado o pé num jogo de futebol no colégio e estava em sua cama. André subiu correndo as escadas que levavam ao quarto do amigo.
- Oi Júnior, o que aconteceu com você?
- Nem te conto cara, estava jogando futebol lá no colégio. Era aula de Educação Física e numa bola dividida entrei com o pé muito mole e tive uma fratura.
- Cacete, que azar meu. E o baile de hoje, você acha que vai dar para ir?
- Não vou não André, Meu pé dói pra caramba.
- Puxa! Sem você eu também não vou, não conheço quase ninguém da turma deles. São todos mais velhos que a gente.
- Eu vou com você - disse Licinha entrando no quarto do irmão.
- Vai nada - disse Júnior - Você ainda é muito criança para isso. O pessoal de lá é todo de mais idade que a gente. Nem vão deixar você entrar.
- Também acho que não é uma boa Licinha - disse André.
- Vocês dois são um saco - e saiu do quarto resmungando.
- Olha André, eu acho que você tem que ir ao baile de qualquer jeito. Prometemos para a Olga que levaríamos os discos e ela está contando com a gente. Você pode chegar mais cedo, antes da festa começar e ir aprontando as músicas que vai tocar, é o que eu iria fazer. Assim você poderá tocar a música que mais gosta para tirar a Carmem para dançar.
- Você acha mesmo que vai dar certo isso?
- Claro que vai amigão. Vai por mim e não deixa essa mina escapar de você.
- Então ta legal, eu vou fazer isso, vou chegar mais cedo e ficar de prontidão e pode deixar que eu explico pra Olga que você não vai poder ir porque quebrou o pé..
- Positivo meu amigo. Vai nessa!
A tarde transcorreu calma provocando certa ansiedade em André que passou boa parte do tempo ensaiando o diálogo que teria com Carmem naquela noite.
A noite chegou e prometia ser muito bonita. Um pouco frio, pois era começo de inverno, mas a temperatura estava bastante agradável.
Quando André tocou a campainha, Olga foi logo pedindo para que ele entrasse e foi perguntando de Júnior e ficou desapontada com a notícia de que ele não iria ao baile. André disse-lhe, então, que ele cuidaria das seleções de músicas, ao que Olga prontamente lhe agradeceu.
Por volta das 20 horas, a sala da casa de Olga já estava cheia de gente. Os canapés e as bebidas corriam soltos pela casa. André estava aflito pois Carmem ainda não havia chegado. Ele tomava conta da vitrola e colocou uma música romântica de Paul Anka quando Carmem chegou acompanhada do irmão. Olga logo foi pegando no braço de Carlos, irmão de Carmem, e foi introduzindo os dois para dentro da casa. Os olhos de André acompanhavam cada passo de Carmem e lhe pareceu que ela nunca estivesse tão linda como naquela noite. Da vitrola saía a voz de Paul Anka cantando Put your had on my shoulders e alguns casais já se arriscavam dançando de rosto colado. Ah como André adoraria poder dançar daquele jeito com Carmem.
Carmem estava parada perto da mesa, se servindo de refrigerante enquanto seus olhos percorriam a sala até se cruzarem com os olhos de André. Ela baixou o olhar e em seguida tornou a erguê-lo e ficou com o rosto ruborizado, pois André, apesar de toda a timidez, não tirava os olhos dela. Ele ia tentar se aproximar, quando Olga pegou Carmem pelo braço e se dirigiram para a cozinha. André, coitado, sentia o coração sair pela boca, esta estava seca e ele pegou um copo de cuba libre.
Na cozinha, Olga cochichou no ouvido de Carmem:
- Menina, o André não tira os olhos de você um só instante. Desde que você chegou, ele não para de olhar para você.
- Eu nem o conheço direito, só nos vimos uma vez num bailinho mas ele nem me tirou para dançar. Eu até que gostaria de conhecê-lo, mas ele não se aproxima de mim - disse meio tristonha.
- Eu posso apresentá-la a ele se quiser. Vamos voltar para a sala e levar esses sanduíches e vou dar um jeito de chegarmos perto de onde ele está. Quem sabe ele se encoraje.
Quando entraram na sala, André não estava mais perto da vitrola que tocava um disco de Johnny Mathis. Olga deu uma passada de olhos pela sala e foi encontrar André dançando com uma das garotas presentes. Carmem também viu e logo desviou seu olhar. A música acabou e André voltou a ocupar seu posto ao lado da vitrola. Seu olhar cruzou com o de Carmem e ele deixou escapar um tímido sorriso que ela pareceu não perceber.
André, então, colocou uma música mais rápida na vitrola, pois sabia que nem todos iriam dançar e muitos dos rapazes foram para a cozinha para pegar mais bebidas e fumarem. Como ninguém dançava, André parou a música e colocou um disco de Ray Conniff e logo se ouviu os primeiros acordes de La Mer.
André andou pelo salão em direção à Carmem e foi esticando seu braço para tirá-la para dançar, quando Clóvis, o aniversariante chegou primeiro. Envergonhado, meio sem saber o que fazer, ele perguntou:
- A próxima?
Ela assentiu.
Mas a próxima música chegou e Clóvis não largou de Carmem. Olga, que estava por perto, presenciando tudo, aproximou-se do casal e foi dizendo:
- Ah não Carmem, essa música eu faço questão de dançar com meu irmão, e foi pegando na mão de Clóvis e levando-o para o meia da sala.
Desta vez André não perdeu tempo e esticando os braços para Carmem, tirou-a para dançar.
Na vitrola começou a tocar The White Cliffs of Dover e ao sentir o toque da mão macia de Carmem, André sentiu-se nas nuvens. Como era bom tocá-la, sentir sua pele. Ficaram dançando ali mesmo, quase no canto da sala, um passo para cá, outro passo para lá, lentamente, rostos pegando fogo, A mão nas costas de Carmem nem se movia, parecia a mão de uma estátua, tal era o medo de que fosse repelido. Sem saber o que dizer ele perguntou o nome dela, que ele já sabia há mais de dois anos, desde que a vira pela primeira vez. Ela respondeu e disse sorrindo que quase todos a chamavam de Carminha. Ele só conseguiu dizer: - bonito nome - Como ele não disse mais nada, ela perguntou: - e o seu é André não é? A Olga me falou.
- É sim, eu me chamo de André, e não tenho apelido. Deu uma risada e logo se arrependeu da bobagem que havia dito.
Ele estava ali e ela também estava onde ele sempre quisera que ela estivesse, em seus braços. E no entanto, ele não sabia o que falar. A timidez dela também fazia com que ela se calasse e foi assim até o final da música. Alguém mexeu na vitrola e colocou um twist. Ele não sabia dançar twist e quis amaldiçoar o atrevido que acabara de puxar seu tapete. Soltou a mão de Carmem e convidou-a para tomar uma cuba, mas ela recusou e ao ver a cara de desapontado que ele fez, ela sugeriu que aceitaria uma copo de coca. Foram para a cozinha, serviram-se das bebidas e estavam voltando para a sala quando Carlos aproximou-se dela dizendo que precisavam ir embora pois já eram quase 23 horas. Ela não ousava dizer ao irmão que gostaria de ficar mais um pouco, por respeito a ele e por saber que era difícil para ele ficar ali sem poder ficar com Olga. Devolveu o copo para André e despediu-se dele com um "muito prazer."
Aos poucos as pessoas começaram a ir embora e André também foi se despedir de Olga e agradecer pelo convite. Olga perguntou:
- E aí André, como foi com a Carminha?
- Só dançamos uma música.
- Só uma? Eu pensei que vocês tivessem dançado a noite toda.
- Que nada, toda vez que chegava perto dela, alguém era mais rápido e seu irmão alugou ela durante muito tempo também.
- É, eu percebi e foi quando fui dançar com ele - disse rindo.
- Mas agora que vocês já se conhecem ficará mais fácil. Bailes é que não faltam. E logo vai ser o meu aniversário e vocês poderão se encontrar de novo.
- É só me convidar que eu virei com o maior prazer. Gostei muito de ter vindo esta noite, obrigado.
- Foi um prazer ter você aqui em casa André e eu espero que volte mais vezes, você me ajudou bastante ficando no lugar do Júnior. E se saiu tão bem quanto ele. Você não vai levar os discos?
- Não, ainda tem gente lá dentro. Amanhã ou depois eu pego com você, está bem?
- Está bem então, e mais uma vez obrigada.
André dirigiu-se para sua casa andando pela rua lentamente. Essa era uma noite da qual ele nunca mais iria se esquecer. Lamentava apenas ter dançado uma única música inteira com ela.
Chegou em casa e seus pais já estavam dormindo. Foi até a cozinha e tomou um copo de água e subiu para dormir, mas o sono não vinha de jeito nenhum, só lembrando de seus dedos nas costas de Carmem e de sua mão segurando a mão dela. Ele estava completamente apaixonado por ela.
Quando Carlos e Carmem chegaram em casa foram direto para a cozinha, cada um serviu-se de um copo de leite e comentaram sobre como estava boa a festa do Clóvis. Carlos disse que tinha sido bom conversar com Olga, mas os pais dela não tiravam os olhos dele. Ele amava Olga e este amor era fortemente correspondido, mas os pais dela foram taxativos proibindo que eles se vissem. Ele jamais poderia fazer com que Olga fosse feliz, pois não poderia lhe dar o mesmo padrão de vida a que ela estava acostumada.
- E você maninha? Conheceu alguém legal, ou os mesmos riquinhos de sempre?
- Eu conheci o André, você conhece?:
- Não, mas sei quem é ele. Mora na mesma rua do Clóvis.
- É mesmo? Isso eu não sabia.
- Dançou bastante com ele?
- Só uma música, muito bonita mas não sei o nome. Dancei muitas vezes com o Clóvis e com alguns de seus amigos.
- O Clóvis e a Olga são legais não é? Bem diferentes dos pais que são metidos a besta, burgueses isso sim.
- A Olga é um amor e é minha melhor amiga. É pena que vocês não estejam namorando, ela gosta tanto de você!
- É pena sim maninha, mas de certa forma eu não poderia dar mesmo a ela o que ela está acostumada a ter. Veja nossa casa. Cabe inteira na sala da casa dela.
- Mas ela não liga para essas coisas Cacá. Os pais dela são ricos, mas ela é uma pessoa tão simples como a gente. E o Clóvis também é como ela. Foi tão gentil comigo e me deixou super à vontade na casa deles.
- Sabe maninha, às vezes eu acho que tenho que tirar a Olga da minha cabeça e começar a namorar outra garota qualquer. Quem nasce pobre, morre pobre.
- Mas nós não somos pobre Carlos - disse ela meio raivosa. Nunca nos faltou nada. Nós apenas não temos as coisas que eles têm. E nem todo mundo é igual aos pais da Olga. O André, por exemplo, não é rico, não sei como é a casa dele, mas às vezes eu o vejo passar com o pai dele de carro aqui em frente de casa. É um carro grande, bonito, mas ele é super simples. Pena que seja tão tímido.
- Você está gostando dele é?
- Não sei, mas acho que sim. Ele parece ser uma pessoa de bem.
- Bem, vamos dormir maninha. Boa noite - e beijou a testa da irmã.
- Boa noite pra você também - respondeu ela - que não sabia que também não conseguiria dormir aquela noite.


***

 

Os dias seguintes foram passando sem que André encontrasse Carmem. Ele ia à casa de Júnior quase todos os dias para visitar o amigo com o pé todo engessado. Nesta tarde, tão logo entrou na casa do amigo, Licinha não deixou que ele subisse até o quarto.
- André, não sobe agora não. Depois eu falo que você esteve aqui. Se você for agora ele não vai gostar.
- Oras, por que ele haveria de não gostar?
- Porque você não sabe quem está lá com ele. Aquela tal de Heloísa soube que ele tinha quebrado o pé e veio visitá-lo.
- A Heloísa está aqui?
- Está sim e eu não sei o que vocês vêem nela. Toda empertigada.
- Empertigada ela é, mas é linda pra caramba!
- Galinha, isso é o que ela é.
- Pára Licinha, isso é inveja.
- Vocês são todos iguais sabia? Não enxergam um palmo adiante do nariz.
- O que você quer dizer com isso?
- Que você é um bocó, só isso.

André saiu da casa do amigo imaginando o que não estaria acontecendo naquele quarto, todos sabiam que Heloísa era uma garota que vivia bem a frente de seu tempo.
Os meses foram passando e André nunca mais vira Carminha. A saudade o matava. Uma dor sentida no peito. Ele vivia se perguntando por que sentia tanto medo diante dela. Tinha tanto amor e parecia que ela também gostava dele. Mas ele preferia alimentar um sonho que sofrer um pesadelo caso ela recusasse o amor dele. Era amor que ele sentia, não tinha a menor dúvida disso. E quanto mais o tempo passava, mais aumentava dentro dele aquele amor.
Carmem seguia sua vida de estudante do colegial. Era boa aluna e dedicada aos estudos. Queria ser alguém na vida para não ter que passar pelas humilhações que seu irmão passava, por ter interrompido os estudos pois precisava trabalhar.
Carmem sonhava com André, tinha vontade de revê-lo, mas tinha medo de se aproximar dele ou de passar na rua onde morava, agora que ela sabia onde era. Ela também sabia que seu sentimento por André era de amor. Um amor muito grande como nunca sentira antes na vida. E tudo o que ela tinha para se lembrar era uma única dança de uma música que ela nem sabia como se chamava.
A Primavera chegou e com ela as noites quentes e agradáveis quando as pessoas sentavam-se à beira das calçadas para conversar com os vizinhos. E foi numa noite de Primavera que André tornou a ver Carminha. Ele passava pela rua com um grupo de amigos e ela estava debruçada no muro da casa conversando com os pais que estavam sentados na calçada.
Ao passar defronte a casa ele olhou para ela meio que disfarçado para que os pais não percebessem e disse apenas "boa noite". Mesmo assim, ele viu os olhos dela brilhando como se fossem duas esmeraldas. Quis parar, mas as pernas não obedeciam. Ela ruborizada, as maçãs do rosto queimando e fazendo um calor percorrer todo seu corpo e ao ver que André seguia seu caminho, voltou para dentro de casa segurando a vontade de chorar.


***


Chegou o mês de outubro e com ele algumas mudanças na política que já estava há mais de um ano sob uma ditadura militar. O governo decretou o Ato Institucional número 2 que restabelecia o processo de cassações e até prisões de pessoas contrárias ao regime.
Muitas pessoas começaram a fugir, tentando se esconder na casa de amigos, pois começava uma corrida contra aqueles que o governo achava serem comunistas. Andar à noite pelas ruas em grupos, começava a se tornar perigoso, pois a polícia prendia qualquer pessoa que tivesse uma atitude suspeita. Este ato institucional pegou o pai de Clóvis e de Olga e ele teve que fugir às pressas do país para não ser preso. Havia acusações de corrupção contra ele. A esposa e os filhos ficaram no Brasil, mas tiveram que se mudar do bairro, pois a mãe sentia-se envergonhada com tudo aquilo.

*
Em uma tarde de sábado, André estava chegando ao ponto de ônibus quando avistou Carmem no mesmo ponto. Cumprimentaram-se e começaram a conversar. Carmem ia visitar uma amiga, para fazerem um trabalho da escola e ele também disse que ia visitar um amigo. Pegaram o mesmo ônibus e os dois quase não falavam. Como era possível aquilo? Ambos sentiam que se gostavam, mas nenhum dos dois tomava qualquer iniciativa.
Quando o ônibus já se aproximava do ponto onde Carmem iria descer, ela perguntou para o André se ele tinha notícias de Olga, que havia mudado e não tinha deixado endereço. André respondeu que não tinha a menor idéia do paradeiro dela, mas disse que ia procurar saber. Ela se despediu e desceu. André seguiu no ônibus até o ponto final e voltou no mesmo ônibus para seu bairro. Estava revoltado com ele mesmo por não ter aproveitado a chance de convidar Carminha para um cinema ou para tomarem um sorvete. Mas também sentia-se feliz por ter-se encontrado novamente com ela. Ele só não sabia uma coisa: que essa tinha sido a última vez que teria visto Carminha.
Esta por sua vez, chegou na casa da amiga ofegante, como se tivesse corrido até lá desde sua casa. Estava radiante e cheia de felicidade. E comentou com a amiga o que estava sentindo por André. E ela também não sabia que nunca mais o veria.
Naquela mesma tarde, ao chegar em casa, André ficou sabendo da morte do pai. Ele tivera um ataque fulminante do coração. André sentiu que o chão lhe faltava sob seus pés. Sentiu uma vontade incontrolável de chorar. Não tinha visto o pai naquele dia. Aliás, ultimamente, pouco conversavam, pois o pai andava preocupado com alguma coisa relacionada ao governo e seus negócios.
André não trabalhava e não tinha irmãos. De um momento para outro sua vida tinha virado de cabeça para baixo. Queria ver Carminha, contar-lhe de sua tristeza, mas achou que não devia procurá-la, não agora.
O funeral aconteceu normalmente e após o enterro do pai é que os problemas começaram a aparecer. O dinheiro do pai havia simplesmente desaparecido e ninguém sabia onde poderia estar ou quem teria se aproveitado disso. Não restava outra solução senão vender a casa e irem morar em outro bairro mais simples e numa casa menor, agora que era ele e a mãe apenas.
O tempo passou e um dia André encontrou-se com uma das amigas de Olga e esta lhe disse que eles estavam morando na Zona Norte da cidade e deu o endereço para André. Ele também havia se mudado para um bairro distante de onde morava antes, mas tinha prometido à Carminha que tão logo tivesse o endereço de Olga ele lhe enviaria. Mas isso teria que ser em um fim de semana, pois agora ele tinha arrumado um emprego e passara a estudar à noite.
No primeiro sábado após ter-se encontrado com a amiga de Olga, André arrumou-se todo e foi para seu antigo bairro à procura de Carmem e quem sabe rever seus amigos. Passou primeiro na casa de Júnior, mas ele não estava, tinha saído com Heloísa. Estavam namorando firme agora, ficou sabendo. Licinha tinha virado uma moça muito bonita e também já estava namorando. André deixou seu endereço e um convite para Júnior ir visitá-lo qualquer fim de semana. Andou pela redondeza e não encontrou nenhum de seus amigos de outrora, mas ele pode perceber que alguns simplesmente se esconderam dele.
A noite começava a cair e ele foi então à casa de Carmem para levar-lhe o endereço de Olga. Ao chegar viu o pai da moça debruçado no muro. Perguntou por Carmem e o pai quis saber o que ele queria com ela e disse isso de forma muito ríspida. André ficou sem jeito e disse que tinha ido visitá-la para levar o endereço de Olga, amiga de Carminha. O pai, que parecia meio embriagado pediu que André entregasse o endereço para ele mesmo que depois ele daria para a filha. André relutou, aquele bilhete era o único pretexto que ele tinha para procurar e falar com Carmem. Ameaçou dizer que passaria outra hora, mas o velho tornou a pedir o bilhete. André não teve outro jeito senão entregar o seu maior pretexto para aquele homem ríspido. E foi embora dirigindo-se para o ponto de ônibus segurando as lágrimas que teimavam em sair de seus olhos.
Tão logo André se afastou, o pai de Carmem amassou o bilhete e ao colocar no bolso não percebeu e deixou-o cair no chão e entrou em casa, onde Carmem conversava com o irmão. Uma chuva forte começou a cair.
- As coisas estão mudando não acha? As pessoas estão tão diferentes. O que você acha que está acontecendo Cacá?
- É esse regime maninha. O governo está pegando pesado. Você viu o que aconteceu com o pai do Clóvis, teve que fugir do país e ninguém sabe para onde foi e nem o paradeiro de sua família. Dizem que o pai daquele seu amigo, o André morreu do coração também por causa disso.
- O pai do André? Morto? Quando? Por que você não me disse antes? Então é por isso que ele sumiu. Meu Deus, ele deve estar sofrendo tanto!
- É pra você ver como o mundo dá voltas maninha. Até outro dia eles posavam que nem pavões e hoje estão vivendo como urubus.
- Não fale assim do André, por favor.
- Não estou falando dele, mas dos pais deles, deles todos. Um monte de gente mudou do bairro, todo dia tem alguém indo para fora do país. O André mesmo se mudou, parece que todo o dinheiro que o pai dele tinha foi confiscado ou coisa assim.
- Eu queria tanto vê-lo! Precisava encontrar-me com ele. Eu sei que pode ser bobagem, que talvez ele nem pense mais em mim, mas eu sinto que poderia ajudá-lo a superar esse momento difícil.

- O André não vai sumir maninha, ele tem bastante amigos por aqui e deve vir sempre para cá.
- André, André - resmungou o pai deles com voz pastosa. Acho que foi ele quem passou por aqui agora pouco.
- Pai - exclamou Carminha - o André passou aqui?
- Parece que era esse o nome que ele me deu. Queria falar com você e eu disse que você não estava e que ele deixasse o bilhete comigo que depois eu daria pra você.
- Que bilhete pai? Me dá logo esse bilhete!
- Calma, eu coloquei aqui no bolso da calça - e começou a vasculhar os bolsos à procura do bilhete.
- Pai, presta atenção pai, por favor. Onde você pôs o bilhete?
- Não era um bilhete, era um endereço. Ele disse que era de uma amiga sua.
- Olga? O nome dela é Olga pai?
- É, é esse o nome.
- Pai, procura direito por favor- desta vez foi Carlos quem falou.
- Vai ver que caiu quando fui colocar no bolso. Deve estar lá no quintal.
Carmem nem esperou o pai acabar de falar e saiu correndo para frente da casa e Carlos a acompanhou. Viram um pequeno pedaço de papel amassado mas a água da chuva tinha apagado tudo o que estava escrito lá.
Carlos e Carmem voltaram ensopados para dentro de casa e Carmem, mesmo com as roupas molhadas, deitou-se na cama e desatou a chorar.
Carlos, por sua vez, censurava o pai por não ter tido cuidado com o tal bilhete.
Parecia que ele também perdera sua última chance de um dia voltar a ver Olga.
Algumas semanas se passaram e André esperava, no serviço, por um telefonema que nunca viria. Ele tinha sido um bobo, por medo perdera o grande amor de sua vida.
*
Os dois anos seguintes foram anos de muita violência no país, com passeatas de estudantes e artistas contra o regime militar. A polícia repelia esses movimentos com violência também.
Certa noite, ao voltar do trabalho, Carlos viu que seu ônibus estava prestes a sair do ponto e começou a correr carregando sua pasta onde levava alguns cadernos e a marmita. Uma perua Veraneio, muito utilizada pelos órgãos de repressão, e com cinco ocupantes, dirigiu-se para aquele rapaz correndo com algo embaixo do braço e Carlos foi logo abordado pelos policiais. Sem perguntas de qualquer espécie foi colocado dentro da Veraneio que saiu em disparada.
No dia seguinte, ao se levantar, Carmem percebeu que seu irmão não dormira em casa e sentiu uma onda de pavor percorrer seu corpo. O que teria acontecido? Telefonou para o trabalho de Carlos e ninguém sabia dizer sobre seu paradeiro. Ligou para alguns amigos e ninguém tinha visto Carlos na noite anterior. Carmem dedicou alguns dias à procura do irmão, indo em delegacias, hospitais, necrotérios, no DOPS e também nos quartéis do exército, onde ela ouvira dizer que também guardavam prisioneiros políticos. Mas Carlos não fazia parte de nenhum movimento, ela saberia disso.
Nunca mais teve notícias do irmão.


***


André era um brilhante advogado. Já estava formado há bastante tempo e era muito requisitado nos meios forenses. Ele tinha se casado, tido 3 filhos, todos já casados. Sua mulher já tinha falecido e André vivia sozinho e dedicado ao trabalho, embora já nem precisasse tanto dele para viver. Ele amou a esposa, mas do grande amor de sua vida ele nunca mais tivera notícia. Durante os últimos quarenta anos tentou em vão encontrar-se com Carmem, mas ela já não morava naquela casinha e ninguém sabia dizer de seu paradeiro. Até que chegou um momento em que desistiu de procurar por ela. Dedicou-se aos estudos e foi ganhando confiança em si próprio e perdeu aquela timidez que o fizera perder o amor de sua vida. Saiu com muitas garotas até conhecer Lúcia, com quem viria se casar tão logo ela engravidara. Dedicou-se ao trabalho e proporcionou à família uma vida confortável. Duas filhas se casaram e por último o seu primogênito que levava seu nome. Logo em seguida, Lucia, que sempre teve uma saúde frágil, veio a falecer. André vendeu a casa e foi morar em um apartamento dos Jardins. Na verdade, o apartamento era seu refúgio. Quase ninguém tinha seu endereço, além dos filhos.


***


Carmem também tinha se formado. Era médica e trabalhava em um dos grandes hospitais da cidade além de clinicar em seu consultório. Como sempre fora esforçada nos estudos fez medicina e destacou-se muito na faculdade. E foi convidada a fazer residência num dos melhores hospitais da cidade. Sua especialidade era na área de cardiologia como cirurgiã.
Ela nunca se casou, embora tivesse sido muito cortejada quando moça, mas toda sua dedicação estava voltada para os estudos e também à procura de seu irmão. A ditadura que durou vinte anos no país já havia acabado e mesmo assim ela nunca soube mais do irmão, até o momento em que se conformou que ele havia morrido.
Às vezes, no silêncio de seu quarto,ou na sala de estar, do pequeno mas luxuoso apartamento onde morava, Carmem deitava-se no sofá com uma taça de vinho e viajava pelo tempo, quase sempre voando para o mesmo lugar onde passara grande parte de sua vida. Pensava nos pais, já falecidos, no irmão, em Olga que ela nunca mais vira, mas pensava principalmente em André. Por onde ele andaria? Ela ainda sentia o toque dele em suas costas quando dançaram uma única melodia que agora ela já sabia o nome e sempre ouvia o CD de Ray Conniff.
O CD Player tocava sua música preferida e ela pensava bastante em André, cujo amor ela nunca esquecera embora nunca tivessem namorado, nunca houvessem se beijado, mas ela sabia que ele era o homem de sua vida. Nunca soube seu sobrenome e por isso nunca pode tentar encontrá-lo por telefone ou qualquer outro meio. Talvez ele também tivesse desaparecido como seu irmão, pois ela ouvira dizer que André era um pouco rebelde em questões políticas.
Preferia não pensar assim e voltou sua atenção para a música que tocava repetidas vezes naquela noite. Sem querer, deixou cair algumas gotas do vinho sobre seu corpo e elas correram em direção aos seus seios. Carmem passou o dedo entre eles e lambeu o vinho. Isso causou-lhe uma estranha sensação de paz e de prazer e nessa noite ela homenageou André sentindo seus dedos em todo seu corpo. Adormeceu tranqüila e lânguida, numa doce sensação de paz e de tranqüilidade.

Acordou com o telefone tocando. Era do hospital. Parecia ser uma emergência e ela foi a primeira pessoa a ser encontrada. Lavou o rosto rapidamente e saiu em seu carro em direção ao hospital.


***


Naquela noite André resolvera caminhar um pouco pelas ruas do bairro apesar de saber dos perigos de se andar à noite pela cidade de São Paulo. Caminhava calmamente, olhando o céu, observando as estrelas, a lua, quando sentiu uma pontada no peito seguida de um dor ligeira. Parou de andar e passou a mão na testa e no peito. Sentiu-se recuperado e voltou a caminhar, só que agora já em direção ao seu apartamento. Outra pontada, e uma dor mais forte agora que o obrigou a se pôr de joelhos, para em seguida cair totalmente no chão. O guarda noturno que passava viu quando André caiu na rua e imediatamente foi socorrê-lo chamando a atenção do porteiro do prédio onde André morava.


***


No hospital a Dra. Carmem era aguardada pela equipe médica, mas não havia nenhum cardiologista de plantão naquela noite. Estavam preocupados e não sabiam muito bem o que fazer, parecia ser um caso de cirurgia.
Carmem chegou correndo ao hospital e foi logo pedindo informações sobre o caso. Soube que era um homem que aparentava entre 55 e 60 anos que caíra na rua quase em frente ao prédio onde mora no bairro dos Jardins.
Ela chegou junto do paciente e foi logo olhando para os instrumentos ligados ao seu corpo. Perguntou se haviam feito uma angiocardiografia. Ao ter confirmada a realização do exame ela constatou que o paciente necessitava ser operado pois não suportaria outro enfarte que viesse a ocorrer. Carmem pegou a ficha do paciente para conferir o que já havia sido providenciado, Ao ler o nome, sentiu um ligeiro arrepio correr por seu corpo. Olhou para o rosto daquele homem e viu traços familiares. Colocou a mão no rosto do homem e ele abriu ligeiramente os olhos e imediatamente reconheceu aqueles olhos verdes tão lindos e tão doces.
Carmem tinha os olhos já cheios de lágrimas, mas não eram lágrimas de medo, eram lágrimas de felicidade de reencontrar André, de tê-lo ali, deitado, olhando para ela.
André balbuciava algo que ela não entendia e por isso ela abaixou-se deixando seu ouvido próximo da boca de André. E ele disse: - Carmem, é você mesmo?
- Sou sim André, sou eu sim. Você vai ficar bom logo, nós só vamos dar um jeito nessas suas artérias.
- Carmem - tornou a balbuciar - passei boa parte de minha vida procurando você e não a encontrava em lugar nenhum. Eu sempre te amei e não quero perdê-la agora, pois nunca hei de deixar de te amar.
- Eu também nunca me esqueci de você meu amor. Agora fique tranqüilo que teremos toda uma vida pela frente.
 


FIM

Ivan Jubert Guimarães


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