Ivan Jubert Guimarães
26/09/2007
 



Ultimamente eu tenho nadado com a maré baixa e me ralado todo de areia do fundo do mar.
Adoro o meu trabalho e tenho uma secretária exuberante e quiçá inteligente também. Sabedora disso, ela se veste muito bem, com roupas provocantes e blusas que sempre deixam aparecer as curvas de seus seios maravilhosos. Ela é meu braço direito, sabe? Aquele que a gente usa para...
Ela é muito gentil comigo, parece até uma doméstica de luxo, pois limpa minha mesa diariamente e assim que chego ao trabalho, logo ela me traz um café e, enquanto eu o sorvo lentamente, ela me diz a agenda do dia. Gosto quando ela faz um biquinho quase imperceptível quando tenho alguma reunião com outra mulher.
Ela tem pernas longas e bem torneadas e seus seios são médios, daqueles que você pode segurar em uma das mãos. Ah! Ela digita muito bem no computador e é atenciosa e educada ao telefone.
Para meu azar, ela tem carro e costuma vir trabalhar com ele e, assim, nunca pude oferecer-lhe carona. Mas, um dia, ela comentou que o carro estava na revisão e “logo hoje que está chovendo” ela emendou.
- Se quiser, eu posso lhe dar uma carona – murmurei.
- O que você disse?
- Disse que posso dar-lhe uma carona.
- Não quero incomodá-lo chefinho, eu pego um táxi.
- Táxi? Com chuva? Nem pensar, eu levo você.
- Então está bem.
Aquele finalzinho de tarde não passava e estava difícil controlar minha ansiedade. Salete, esse é o nome dela, estava radiante como sempre, mas os seus olhos estavam mais brilhantes naquele dia, convidativos talvez.
O expediente chegou ao final e ela foi ao toalete para se arrumar. Com a maquiagem retocada ela parecia uma deusa. No elevador, o perfume dela inebriava a todos. Os narizes se voltavam para ela. Eu atrás dela encostava minha perna ligeiramente, bem de levinho, na perna dela. Ela parecia impassível e eu estava esquecendo de respirar. No térreo, desceram quase todos e eu segui com o elevador até a garagem.
Quando Salete sentou-se no carro, sua saia subiu um pouco e algo subiu em mim também. Que pernas! Claro que eu sabia o que havia no meio delas, mas eu precisava ver. Quase gaguejando, perguntei:
- Pra onde?
- Pra fora – ela respondeu rindo, pois ainda estávamos na garagem.
Menina espirituosa, mas ela não perdia por esperar. Saímos da garagem e ao chegar à rua demos de cara com um trânsito todo parado.
Meia hora depois ainda estávamos próximos ao escritório e já começava a faltar assunto sobre o trabalho. E aos poucos, fomos ficando calados e o trânsito parado. Vez por outra eu olhava para aquele par de pernas e para seus seios e ela mordia os lábios.
- Está nervosa? – perguntei.
- Odeio esse trânsito.
- A gente podia parar em algum lugar e...
- Já estamos parados.
Essas gracinhas dela começavam a me incomodar, pois me deixavam sem jeito de ir um pouco mais adiante, mas quem sabe teria sido um sinal?
Coloquei um CD com músicas suaves, sempre carrego alguns no carro,
quando a voz de Nat King Cole entoou “When I fall in love, it will be forever...”
eu não mais resisti. Peguei a primeira rua transversal e saí daquela avenida congestionada.
- Adoro essa música – ela disse.
- Eu também – murmurei.
- Escuta Salete, o trânsito por aqui também está horrível e nem sei aonde esta rua vai dar. Que tal pararmos para beber alguma coisa, esperar o trânsito melhorar e aí eu te levo para casa? – disse tudo isso sem respirar.
- Está bem. Você conhece algum lugar por aqui?
- Para ser sincero, nem sei onde estou.
- Vá em frente, lá em baixo tem um cruzamento e tem dois barzinhos por lá. Dá até para escolher.
Fiz o que mandou e segui em frente. De fato, no cruzamento, havia dois barzinhos incrementados. Um deles, que devia ser o melhor, estava quase lotado. O outro, do outro lado da rua estava meio vazio. Optei por este, pois não estava com vontade de multidão. Eu não percebi, mas quando ela foi descer do carro pôs o pé numa grande poça d’água e molhou-se bastante. Pedi desculpas pelo ocorrido e ela disse para eu não me preocupar.
Sentamo-nos a uma mesa de canto, o lugar era aconchegante, e pedimos uma garrafa de vinho e uma porção de queijo parmesão. Falei:
- Deixe-me enxugar seus pés com o lenço.
- Não precisa chefinho, mesmo!
- E se eu insistir? Confia em mim, não vou me aproveitar e fazer nenhuma sacanagem não.
Ela riu e permitiu que eu enxugasse seu pé, erguendo ligeiramente a perna em minha direção. Ah! Não dava para não fazer uma pequena sacanagem, pelo menos tentar, e eu tentei. Segurei seu tornozelo e passava o lenço por sua perna desde atrás do joelho até os pés.
- Estão gelados – ela disse.
- É, estão sim. Eu gostaria de esquentá-los. – Ela nem escutou meu sussurro.
Mas conversa vai, conversa bem, fui aproximando meu pé direito do pé direito dela e fui encostando, ela se retraiu um pouco, mas o calor de meu pé contra seu pé gelado fez com que ela mudasse de idéia. Aquela perna já era minha. Agora tinha que pegar todo o resto.
Servimo-nos das últimas taças de vinho e a chuva continuava forte. O ambiente estava quase vazio, como eu já disse, e o dono do estabelecimento na tentativa de segurar os poucos fregueses, arrastou algumas mesas do centro e colocou músicas românticas e mandou para as poucas mesas ocupadas algumas porções extras de petiscos. Foi a deixa para eu chamar mais uma garrafa de vinho.
A conversa fluía mais descontraída agora. É incrível o que o vinho faz com a cabeça de uma mulher. Salete estava mais solta e descontraída e isso foi fazendo com que eu vencesse aquela timidez inicial e arriscasse:
- Você quer dançar?
- O que foi?
- Não foi nada, só resmunguei.
- E por quê?
- Nada não.
- Você está muito estranho chefinho.
Eu odiava quando ela me chamava de chefinho lá no escritório, mas ali, naquele bar quase vazio, com uma chuva forte do lado de fora, era delicioso ouvir aquela voz aveludada.
- Não estou estranho não, imagine!
- Você é sempre tão alegre e espirituoso e está tão calado. Acho que não se sente à vontade em estar aqui comigo.
- Deixa de bobagens Salete. – Era estranho como minha voz saia forte como sempre quando eu conversava sobre coisas triviais com ela. – É que eu não consigo de parar de olhar para você!
- Só escutei para eu deixar de bobagens, o resto não ouvi.
Tomei um grande gole de vinho, senti o rosto pegar fogo e emendei:
- Eu não consigo parar de olhar pra você!
- Quer trocar de lado? – E lá vinha ela com outra gracinha.
- Vamos dançar! - E já fui me levantando antes que eu mesmo mudasse de idéia. Ela não teve escolha senão levantar-se também. Nos dirigimos ao centro do bar, peguei sua mão e começamos a dançar. O sujeito tinha acabado de trocar o CD e agora colocara um CD de um tal de Luís Miguel, boleraço.
- Hum eu adoro Luís Miguel! – e eu nunca tinha ouvido falar dele.
- Eu também gosto, canta bem ele não?
A cada bolero que tocava eu ia apertando-a um pouco mais e nossos rostos foram se aproximando, aproximando e eu já senti meu corpo comprimir os seus seios. Mas ainda estava tudo dentro do bom comportamento, afinal de contas ela era minha amante, ou melhor, ela era a minha secretária e era eu que já estava ficando meio bêbado. Será? Naquela altura eu já não sabia se eu era a caça ou o caçador, até que o danado do Luís Miguel começou:
- Besame, besame mucho, como si fuera esta la noche la ultima vez...
Fala a verdade, dá pra agüentar uma mulher linda, corpo escultural, abraçada a você numa noite de chuva, num bar vazio, com a mão em sua nuca, o copo todo encostado ao seu e ainda por cima cantando Besame Mucho no teu ouvido? Não dá! Interrompi seu canto e beijei-a com sofreguidão. Pronto! O resto já tinha vindo e agora era só saber aonde.
Voltamos para a mesa de mãos dadas e ao nos sentarmos seus olhos baixaram, não querendo me encarar. Eu, por minha vez, já era todo coragem, era comigo mesmo! Eu ia levar Salete para a cama.
Ainda chovia forte, mas paguei a conta e nos dirigimos para o carro. Abri a porta para que ela entrasse primeiro e assim poder apreciar aquele par de pernas deslumbrante. Avisei-a da poça d’água e ela entrou e sentou-se recostando a cabeça no banco. Dei a volta e também entrei no carro. Pus as mãos no volante e fiquei imaginando onde eu poderia levar aquela mulher linda e que estava comigo e tinha dado demonstrações que me queria.
- Onde? – perguntei sem querer.
- Pega essa rua, segue em frente até o farol entra à direita e já estaremos na rua de casa.
Idiota, idiota, idiota! Por que eu tinha que ter perguntado isso?
- Você não prefere beber alguma coisa?
- Bebemos até agora Luís!
Luís, ela me chamou de Luís! Tudo bem, eu me chamo Luís, mas me chamar pelo nome logo depois do que aconteceu?
- Tem razão! Bebemos, mas por que me chamou de Luís? – perguntei dando a partida no carro.
- Ora, não é o seu nome?
- Não, meu nome é chefinho!
- Acho que você bebeu além da conta Luís. Será que consegue chegar em sua casa ileso?
- Bebi tanto quanto você – e menti – É que gosto quando você me chama de chefinho.
- Bobo! Eu sei que não gosta, chamo-o assim só para mexer com você.
Só para mexer comigo, e eu achando que fosse por carinho.
- Salete, eu quero beijar você outra vez e quero agora.
- Não é uma boa Luís, a gente se excedeu por causa do vinho.
- Do vinho, da musica, da chuva e eu sinto que você foi receptiva.
Receptiva, eu não poderia ter escolhido uma palavra pior.
- Olha Luís, foi uma noite legal, não vou negar que eu gostei do beijo mas... Interrompi-a com outro beijo ardente, sufocante, que foi fazendo com que ela cedesse e, aos poucos, deixou de oferecer resistência. Minhas mãos acariciavam suas pernas tentando chegar às coxas aveludadas. Eu a queria, porque queria e alisava suas pernas e toquei seus seios e aí ela não resistiu mais e se deixou levar pelos abraços e pelos beijos até que:
- Pare Luís, por favor, estamos em frente de casa, alguém pode nos ver.
- Vamos para outro lugar então.
- Não, já é tarde! O que você vai dizer em casa?
Aí é que eu me dei conta. Estava longe de casa, na ânsia de sair do escritório deixei o celular carregando a bateria, estava em um bairro que eu não conhecia e aquela mulher me lembrou que eu era casado.
- Quando então Salete? Eu desejo você, te quero.
- Também desejo você chefinho! Mas vamos fazer assim ó, no dia da secretária a gente sai para almoçar e passa a tarde inteira juntos, o que acha?
Você não esqueceu não é? Quero meu presentinho!
- Claro que não esqueci. Então está combinado. Almoçaremos e ficaremos toda a tarde juntos. Me dá um beijo de despedida.
Salete inclinou-se e me beijou suavemente nos lábios e desceu do carro, entrando no edifício onde morava. Ainda fiquei alguns segundos parado, tornei a dar a partida no carro e fui para casa pensando na desculpa que teria que dar. Mas não houve problema algum, pois a televisão mostrou como o trânsito estava intenso. Quando cheguei, já estavam todos dormindo.
No dia seguinte eu era só alegria, barbeei-me com perfeição, escolhi a gravata com todo o cuidado do mundo e fui para a cozinha tomar o café da manhã.
Tão logo sentei-me a mesa, minha esposa comentou:
- Oi querido! Viu que coisa chata? Este ano o Dia da Secretária cai num domingo, vi isso ontem na folhinha e pensei que a Salete iria ficar triste com isso. Então eu liguei ontem para ela lá no escritório e convidei-a para vir aqui almoçar com a gente. O que você acha?

 


 

Ivan Jubert Guimarães


Direitos reservados ao autor