Ivan Jubert Guimarães



Era o último dia do ano e como sempre acontece nessa data havia muita euforia pelas ruas da cidade. As estradas que levavam às praias estavam congestionadas naquele ano, mais do que em anos anteriores. Não era apenas mais um reveillon, era a virada do milênio também.
Na sala de seu apartamento da Avenida São Luis, para onde se mudara após separar-se de sua mulher, Cássio colocava mais uma dose de uísque em seu copo. Após servir-se, ficou olhando para a garrafa imaginando quantas doses já havia tomado naquele dia. Difícil de dizer, se ao menos seu fígado falasse!
Cássio era um advogado bem sucedido, que dedicara quase toda sua vida à carreira razão pela qual sua mulher pedira o divórcio. Filhos crescidos, alguns já casados, Cássio aceitou a separação. Afinal de contas, nos últimos tempos, ele já sentia que não tinha mais família. Sua vida era plena de vazios quando chegava em casa. Raramente jantava e quando o fazia, fazia sozinho.
Mas hoje, Cássio estava especialmente triste. O uísque liberara seus pensamentos fazendo-o viajar pelo tempo. Ele estava com quase 60 anos e provavelmente iria morrer sozinho. Essa idéia o assustava não da morte propriamente dita, mas de morrer sem que ninguém soubesse e ficasse com seu corpo inerte por dias em algum lugar qualquer.
Seu escritório era dos maiores da cidade e sua clientela era formada por grandes empresas e por empresários bem sucedidos.
A separação fora amigável, ele não quis discutir os termos do acordo de separação. Para ele a vida não se resumia mais aos bens materiais pelos quais lutara toda sua vida. Tudo o que a esposa pediu, ele concedeu. Não queria saber de discussões fúteis.
Enquanto tomava mais um gole de uísque ele ficou imaginando se um dia ele amara realmente sua esposa. Lia era uma boa mulher, um pouco exigente talvez, mas isso ajudou-o a subir na carreira. Ela também cuidara dos filhos e orientou-os também na carreira que deveriam seguir. Tivera três meninas e um menino e, por incrível que pareça, nenhum deles quis seguir a carreira do pai. No início, Cássio ficou triste com a opção dos filhos, mas logo entendeu que eles deveriam seguir seus próprios caminhos.
Era a primeira passagem de ano que ele passaria completamente sozinho. Logo ele, tão acostumado a festas grandiosas com toda a família e com amigos. Na noite de Natal ele ainda viu os filhos e a ex-esposa e quase todos o convidaram para a ceia, mas ele recusou dizendo ter um outro compromisso. Claro que era mentira, mas ninguém insistiu e ele foi para seu apartamento e, com as luzes apagadas, ficou na janela olhando o céu e imaginando onde estaria a estrela guia que daria um novo sentido à sua vida.
A princípio a tristeza foi sendo substituída por uma emoção muito forte e pela primeira vez em sua vida ele se lembrou do aniversariante do dia.
Mas agora era diferente, a festa era diferente, e, em poucas horas, o milênio seria diferente. Pessoalmente ele acreditava que isso não iria mudar nada e que o dia seguinte seria um dia igual a todos os dias do milênio que acabara. Como era uma data especial, apesar de tudo, ele quis reviver os momentos de sua vida na última metade do século. Abriu as janelas da sala e saiu para a varanda do apartamento. Sentou-se ali, o balde de gelo e a garrafa de uísque; no balde de gelo cuidou também de colocar uma garrafa de champanha e uma taça. Decidiu que precisaria comer alguma coisa, pois do contrário não agüentaria esperar a virada do milênio. Foi até a geladeira, pegou um queijo, uma faca, guardanapo, e um pacote de castanhas de caju. Pronto, sua ceia estava pronta. Neste ano, nada de assados.
Tornou a pensar na ex-esposa e voltou a perguntar-se se a tinha amado de verdade algum dia. Chegou à conclusão que não. Quando ela viajava de férias com os filhos, ele nunca sentira falta dela e de seus queixumes. Suas semanas eram tranqüilas e produtivas e suas noites eram de paz e por que não dizer de alguns prazeres também. Mas os finais de semana eram bem desagradáveis e ele não sentia emoção nenhuma em rever a esposa e também não sentia nela nenhuma reação positiva. A rotina é que dominava suas vidas e eles foram-se sujeitando a isso até o momento em que não tiveram mais forças para tentar continuar com o casamento.
Ele voltou, em pensamento, até o dia de seu casamento, mas não conseguia mais lembrar nem dos nomes de alguns dos padrinhos, não se lembrava direito de detalhes da cerimônia e tampouco da festa. Tudo fora tão bem organizado por Lia, tudo tão certinho e tão chato! Por que ele se casara com ela? Não foi pela beleza apesar de Lia ter sido sempre uma mulher bonita. Pela inteligência talvez, ela sempre sabia o que queria. Foi voltando no tempo e lembrando-se de seu namoro com Lia, das brigas por ciúme, da primeira transa com ela e aí ele se lembrou porque havia se casado. Ela engravidara na primeira transa. E por isso ele se casou.
Mastigou algumas castanhas e bebeu mais um gole de uísque. Tornou a olhar para a paisagem e só aí percebeu que a noite já havia chegado. Que horas seriam? Há quanto tempo estaria ali? Pelo vazio da avenida, deveriam ser umas oito horas da noite. Levantou-se e foi colocar uma música de seu tempo para ajudar naquela sua regressão. Escolheu um CD de Ray Conniff e foi-se lembrando dos bailes que eram realizados todos os sábados, sempre na casa de alguém.
Ia se lembrando dos amigos dos quais nunca mais tivera notícias, das namoradas e das garotas de quem ele gostou mas que nunca namorou. Cássio perguntou-se se tivesse se casado com alguma delas, teria sido mais feliz. Era difícil responder. Ele continuou se lembrando das garotas mas nenhuma lhe despertara atenção como Lia fizera. Mas espera aí! Tinha uma garota, ele não se lembrava do nome. Era muito bonita, esguia e muito inteligente e estudiosa. Ele se lembrou de que gostava dela, do jeito especial que ela tinha, ela era diferente das outras. Como era mesmo o nome dela? Enquanto tentava se lembrar, no CD a música era Aqueles Olhos Verdes e aí ele se lembrou de tudo, dos olhos verdes, dos cabelos louros e compridos, do sorriso que saia dos lábios finos também. Faltava o nome, o nome e ele foi regredindo, tentando ver o nome, lembrava que ela usava um pingente com uma letra, que letra era aquela meu Deus?
Fechou os olhos, relaxou-se na cadeira, respirou profundamente umas três vezes até sentir seus músculos se relaxarem por completo e pensou no ano em que a vira pela primeira vez. Teria sido 1964? 1965 talvez? A música que ouvia era dessa época e Cássio resolveu que iria até o final de 1964. Foi relaxando e iniciando uma contagem regressiva, começando no dez e indo até o um. Quando chegou no um ele se sentiu no final de 1964 e aí ele lembrou de que não era a época certa, pois no final daquele ano seu pai, jornalista famoso, teve que viajar às pressas para fora do país para escapar das perseguições políticas que começavam a eclodir no Brasil. Tinha que ser 1965. Abriu os olhos saindo daquele estado de relaxamento em que se encontrava e puxou pela memória. De janeiro a março não havia bailinhos nas casas, muitos viajavam de férias e havia os bailes de formatura. Teria que ser de abril em diante, até novembro talvez, pois dezembro também não tinha bailes.
Ele a conhecera num baile, mas na casa de quem? Quem de sua turma costumava dar aquelas festinhas além dele próprio?
E uma lista de nomes começou a passar por sua mente: Robertinho, Zé Carlos, Zé Eduardo, Inês, Carioca, Soninha, Bete, Claudião.
- É isso, foi na casa do Claudião, no aniversário da irmã dele. Foi em maio. Eu preciso ir na casa do Claudião em maio, o dia, o dia, véspera do dia das mães. É isso.
Cássio tomou mais um gole do uísque e sentiu que já não desceu tão bem quanto os goles anteriores. Tentou adivinhar as horas, mas teve que se levantar para olhar o relógio. Eram onze e quinze da noite. Estava quase na hora da virada. Decidiu deixar o uísque de lado e tornou a por uma música do seu tempo para tocar. Procurou, procurou e colocou um CD de Johnny Mathis.
“It’s not for me to say, you love me”. Enquanto ia ouvindo a música, Cássio reiniciou todo o processo de relaxamento. Como da primeira vez, ele mentalizou o ano e a data e iniciou a contagem regressiva de 10 até 1 com os olhos fechados. Tentou visualizar a festa de aniversário da irmã do Claudião e foi vendo a casa, o amigo e a irmã, olhou-se e viu que estava usando uma calça de veludo cotelê marrom e uma blusa verde. Viu-se encostado na parede conversando com amigos e segurando um copo de Cuba Libre na mão, quando ele a viu chegar. Olhou bem nos olhos verdes dela quando ela passou por ele e viu também o pingente que pendia de uma corrente. A letra era L e o nome agora ele nunca mais esqueceria: Lucy.
Ele acompanhou Lucy com os olhos até ela se encontrar com a aniversariante e cumprimentá-la. Seu coração batia descompassadamente, pois ele nunca havia sentido aquilo com nenhuma das garotas que ele conhecia. Aproximou-se da aniversariante e com a voz um tanto embargada, presa na garganta, ele perguntou:
- Não vai me apresentar?
- Ué! Vocês ainda não se conhecem?
- Só de vista – ele respondeu.
Feitas as apresentações ele não conseguia largar a mão da moça e na vitrola, alguém colocou o disco do momento: Johnny Mathis e a música era a mesma que estava tocando agora em seu CD Player: My Love For You. Ele sem pedir foi puxando a mão de Lucy e quando ela se deu conta, já estavam no meio da sala dançando. Ele quase não respirava e notou nela certo nervosismo também. A conversa não rolava direito e às vezes os dois faziam uma pergunta ao mesmo tempo, o que provocava risos tímidos, mas não gerava respostas. Lucy estava com um vestido azul estampado que combinava muito bem com ela e Cássio não se cansava de olhar para os olhos dela a ponto dela pedir para ele não deixá-la encabulada. Ele se desculpou educadamente e quando a música acabou e Lucy ia se soltando dele, ele a segurou e pediu:
- Mais uma?
Na vitrola Johnny Mathis começava a cantar: “Look at me..” e Cássio abraçou Lucy com mais firmeza agora e sentiu seu corpo mais perto de si. Cássio sentiu-se nas nuvens e enquanto dançava ele parecia flutuar no espaço tal era a leveza de Lucy quando dançava. Aproximou seu rosto ao rosto dela e sentiu seu perfume. Jamais esqueceria aquele cheiro, jamais! Sentindo-se mais solto e sentindo que Lucy estava gostando da companhia dele, assim que a música terminou ele convidou-a para irem até o jardim que ficava em frente da casa.
- Não sei se devemos, a gente acabou de se conhecer.
- Na verdade eu a conheço há muito tempo Lucy, desde que a vi pela primeira vez eu procurei saber tudo a seu respeito.
- Você está me deixando sem graça, por favor.
- Vamos até o jardim, não estaremos sozinhos lá. Sempre tem gente que sai para tomar um pouco de ar.
- O que será que vão pensar?
- Não se importe com isso. Às vezes por nos importarmos com o que os outros vão pensar de nós, a gente não faz o que devia e fica infeliz pelo resto da vida.
- Você está exagerando Cássio.
- Diz de novo.
- Você está exagerando.
- Não isso, eu queria ouvir você dizer meu nome outra vez.
Ela ficou com as faces ruborizadas e um calor subiu pelo seu rosto e agora foi ela quem pediu para saírem um pouco e irem até o jardim.
Cássio acompanhou-a colocando a mão em suas costas e logo encontraram um lugar onde puderam se sentar, ou melhor, se encostar. Ficaram conversando sobre banalidades e aos poucos os dois iam se soltando e já se podia ouvir seus risos.
À medida que o tempo passava começaram a confiar um no outro e já trocavam confidências e assim Cássio ficou sabendo que Lucy tivera um namorado na escola e que havia desmanchado há pouco tempo. Ele perguntou se ela tinha intenção de voltar a namorar o rapaz e ao ouvi-la dizer que não deixou escapar um sorriso, ao que ela perguntou:
- Por que você está rindo?
- De felicidade! Assim talvez eu tenha uma chance com você.
- Será?
Ele ficou sem jeito com a pergunta dela e abaixou um pouco seus olhos.
- Você só vai saber se perguntar – ela disse.
Ele tornou a elevar seus olhos para dentro dos olhos dela e pelo brilho que vinha deles ele tinha a certeza de qual seria a resposta.
- Eu te amo Lucy! Há muito tempo que eu te amo. Às vezes tarde da noite, eu passo em frente de sua casa só para sentir você dormindo, olho para sua janela e fico imaginando um dia desses você acenando a mão para mim. Eu não paro de pensar em você. Namora comigo Lucy.
- Olha, eu vou confessar que também faz tempo que olho para você, mas sempre fiz força para que você não percebesse. Eu não sei bem porque, mas sempre tive medo de você me decepcionar.
- Isso nunca irá acontecer Lucy! É tão grande o que eu sinto por você que jamais irei magoá-la. Me dê sua mão, quero sentir você.
Deram-se às mãos e ficaram mais um pouco no jardim. Quando um vento mais frio soprou, Lucy arrepiou-se e Cássio puxou-a para perto de si e os dois ficaram frente a frente. Olhos nos olhos, corações palpitando e Cássio fez o que sempre desejara fazer, aproximou-se mais de Lucy e beijou-a nos lábios docemente. Uma vez, mais outra e outra. E ficariam a noite toda ali se alguém não chamasse todos para dentro para cantarem o Parabéns a Você.
Entraram na casa de mãos dadas e muitos perceberam que um namoro havia começado.
Ao final da festa, Cássio insistiu em acompanhar Lucy até sua casa e foram andando pelas ruas de mãos dadas, parando aqui ou ali para se beijarem.
- Bem, chegamos – disse ela.
- Eu sei, infelizmente. Eu gostaria de ficar mais tempo com você.
- Eu também Cássio, estou me sentindo tão leve, nunca havia sentido isso antes.
- Eu também me sinto assim Lucy. É como se eu tirasse um peso de 40 anos de meus ombros.
- É essa a mesma sensação que eu tenho. Mas está na hora de eu entrar, meus pais não gostam que eu fique no portão a essa hora. Boa noite!
- Boa noite meu amor, amanhã à noite eu venho te ver novamente.
Beijaram-se mais uma vez e Lucy entrou para dentro de casa.
Cássio virou as costas e seguiu seu caminho feliz da vida por ter reencontrado a felicidade que julgava perdida.
Na varanda do prédio da Avenida São Luiz o CD Player tocava repetidamente Johnny Mathis. Na mesinha um prato com queijo intocado, meia garrafa de uísque e no balde de gelo somente água, uma taça e uma champanha que não fora aberta na virada do milênio. Na cadeira, o corpo de Cássio, já sem vida, tinha um sorriso nos lábios como nunca alguém o vira dar.

 


Ivan Jubert Guimarães


Direitos reservados ao autor