Ivan Jubert Guimarães

 

Era uma vez um bando de ovelhas que vivia sossegado pelos campos e montanhas de uma terra bonita e calma. Devido aos perigos que a vida selvagem lhes oferecia, andavam quase sempre em pequenos grupos, jamais se arriscando a passeios distantes. Mesmo assim, às vezes, encontravam animais maiores a passeios e mais fortes que elas, e tinham que correr bastante para não serem apanhadas e mortas. Mesmo com esse perigo elas não reclamavam da sorte porque eram livres, e o fato de serem perseguidas era uma simples lei da Natureza.
Quando acontecia um ataque era uma correria louca. As ovelhas se dispersavam pelos campos à procura de abrigo onde os outros animais não poderiam alcançá-las.
Um dia, uma ovelha enquanto tentava escapar, saiu dos limites dos campos que conhecia e perdeu-se.          Assustada, começou a berrar pedindo socorro, mas nenhuma de suas companheiras a ouviu. Ela ficou sozinha durante muito tempo até que viu um estranho animal que mais tarde descobriu chamar-se homem. Movida pela curiosidade aproximou-se do homem. Como fazia muito frio, o homem abraçou-se à ovelha e agasalhou seu corpo em sua pele. Abraçado à ovelha o homem pensou: “esta ovelha deve estar perdida, e deve haver muitas outras por aí. Se eu conseguir pega-las, poderei ficar rico vendendo sua lã e sua carne”.
O homem muniu-se de um cajado, e pegando a ovelha no colo saiu em busca do resto do rebanho. As ovelhas, que estavam preocupadas com o desaparecimento de sua companheira, quando viram o homem trazendo sua amiguinha no colo, correram em sua direção dando pulos de alegria. O homem nunca pensou que seria tão fácil reunir todas as ovelhas em tão pouco tempo.
O homem construiu, então, uma grande cerca para que as ovelhas não fugissem durante a noite. As ovelhas pensaram: “que bom, agora estamos seguras e não seremos atacadas pelos outros animais”.
Elas estavam achando tudo aquilo muito bom, pois todos os dias aprendiam coisas novas com o homem.
Os dias foram-se passando e a população das ovelhas aumentara bastante que elas nem percebiam quando algumas eram levadas pelo homem que as ia vender na cidade. O homem lhes dava comida todos os dias e elas não precisavam mais se preocupar com o que comer.
Com o passar do tempo, porém, elas foram ficando preocupadas e com inveja, pois enquanto continuavam morando dentro da cerca cada vez mais apertada, a casa do homem estava ficando cada vez maior.
Algumas delas tentaram alertar as outras para o que estava acontecendo. Que elas estavam sendo exploradas pelo homem. Que o homem estava enriquecendo com o trabalho delas.
Um dia, uma ovelha que estava mais exaltada comentou:
- Vocês se lembram daquele lugar onde costumávamos ir todas as tardes para beber água?
- Lá onde os lobos também costumam beber? – perguntou outra.
- Lá mesmo – respondeu a primeira – lá mesmo. Nós podemos levar o homem até lá e o barulho que fizermos irá atrair os lobos. O homem estará sem armas e será presa fácil para eles.
Na tarde do dia seguinte, as ovelhas começaram a se comprimir contra a cerca até que esta não agüentou o peso e caiu por terra. Rapidamente as ovelhas puseram-se a gritar para chamar a atenção do homem e quando este saiu à porta da casa, as ovelhas puseram-se a correr.
O homem começou a gritar para que elas voltassem, e como elas continuavam correndo o homem não teve outro jeito senão ir atrás delas.
Não demorou muito e as ovelhas chegaram ao riacho e ficaram esperando pelo homem. Quando ele estava bem perto as ovelhas começaram a fazer o maior barulho que conseguiram. Logo, o local estava cheio de lobos famintos. O homem não teve tempo de correr, pois um bando de lobos pulou em cima dele. As ovelhas ficaram felizes, mas também elas não tiveram tempo para comemorar.
Os lobos foram se aproximando ameaçadores e com um brilho estranho nos olhos. O chefe da matilha dirigiu-se às ovelhas:
- Não precisam ficar assustadas que não vamos molestar vocês! Nós somos bons, afinal nós a salvamos do homem. Nós vamos ensiná-las a cuidarem de si próprias. Quando vocês tiverem aprendido tudo que temos para lhes ensinar, poderão viver tranquilamente nestes campos sem serem molestadas pelos outros animais. Em troca de nosso ensinamento e de nossa proteção, nós só queremos a ajuda de vocês.
As ovelhas escutavam atentamente e o chefe da matilha continuou:
- Vocês terão que nos conseguir alimento e água todos os dias. Nós sabemos que vocês não sabem caçar e, portanto, basta nos dizer onde se localiza a caça que nós iremos atrás dela. Como vamos ficar cansados devido a caça, e aos ensinamentos que vamos lhes transmitir, vocês terão que nos trazer água.
- Mas como vamos poder carregara água? – perguntaram as ovelhas.
- É muito simples – respondeu o lobo – vocês entram no riacho e molham todo o corpo. A água vai ensopar sua lã e quando chegarem ao covil, vocês se apertam uma contra as outras e a água começara a escorrer de seus corpos dentro de uma vasilha que colocaremos para vocês. Não é fácil?
- Sim – responderam as ovelhas.
E assim começou uma nova etapa na vida das ovelhas.
De novo elas sentiam-se seguras com o novo chefe. Elas trabalhavam bastante e ainda iam tomar lições com os lobos. Eles lhes ensinavam que elas deviam amar aqueles campos e que as ovelhas que não se sentissem felizes poderiam deixar aquelas pastagens e irem viver em outros lugares.
Como a caça foi ficando cada dia mais difícil de se localizar, algumas ovelhas começaram a indicar outras ovelhas para os lobos.
O tempo foi passando e as ovelhas não agüentavam mais aquela situação.
Cada dia que passava elas tinham menos comida e estavam sempre cansadas e irritadas. As ovelhas encarregadas de buscar água estavam quase que sem lã no corpo e começaram a adoecer.
Os pastos iam ficando cada vez mais longe e elas tinham que andar tanto para comer, que quando voltavam, estavam exaustas demais para irem às instruções dos lobos. Os lobos estavam gordos demais e preguiçosos e, por isso, não se importavam muito com a ausência das ovelhas. As ovelhas mais novas, que nunca haviam experimentado situação melhor, acreditavam em uma vida mais decente e digna, como a dos outros animais. Começaram a recrutar novas companheiras e a organizar um plano que pusesse fim àquela situação. Algumas ovelhas que haviam partido tempos atrás, voltaram para seus campos e juntaram-se às ovelhas mais novas.
Diversos rebanhos de ovelhas saíram pelos campos e falavam para outras ovelhas que se todas se unissem, poderiam conseguir uma vida melhor. Estava na hora de cobrar do chefe da matilha a promessa de liberdade.
O chefe da matilha se justificava dizendo que elas ainda não estavam preparadas, pois já fazia tempo que elas não iam às instruções. As ovelhas alegaram que as campanhas feitas pelos lobos já não adiantavam nada para elas, pois elas ainda se lembravam do tempo que viviam felizes e em liberdade.
O chefe da matilha já não tinha argumento para convencer as ovelhas que a vida que os lobos ofereciam era mais segura para elas.
As ovelhas contestaram dizendo que naqueles mesmos campos havia outros animais que gozavam de maior liberdade.
O lobo ficou nervoso com a insistência das ovelhas e tentou usar a força para impedir que as ovelhas conquistassem a liberdade. Imediatamente convocou seus companheiros. Mas os lobos estavam velhos e gordos demais para lutar.
As ovelhas, então, como eram mais numerosas juntaram-se e derrotaram os lobos. Alguns foram presos e poucos foram aqueles que conseguiram fugir. Mas nenhum lobo gordo conseguiu escapar. Todos foram julgados e tiveram que pagar tudo o que roubaram das ovelhas.
As ovelhas nomearam uma ovelha que deveria ser o novo líder. E este líder nomeou algumas ovelhas como representantes das demais.
E todas as ovelhas, governadas por suas próprias semelhantes, escolhidas por elas mesmas, viveram felizes a partir desse dia.


Nota: Esta pequena história foi escrita na noite de 16 de abril de 1984 para tentar explicar a meu filho, então com nove anos, porque seu pai havia saído nas passeatas pelas Diretas Já.

 

Ivan Jubert Guimarães


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