Ivan Jubert Guimarães
04/10/2019
 

 


Era uma tarde como outra qualquer. A temperatura era agradável, apesar de ser final de inverno e um resto de sol ainda aquecia e iluminava a praça por onde eu caminhava. Pelo caminho muitas pombas ciscavam o chão à procura de algum alimento. Com minha aproximação elas levantam voo e desciam em outro lugar e continuavam a ciscar o chão.

Nesse meu passeio, eu via muitas pessoas fazendo a mesma coisa que eu, ou quase, pois eu caminhava sem destino, apenas pelo prazer de andar em meio a um jardim. As outras pessoas passavam quase correndo parecendo estarem atrasadas para um compromisso qualquer. Imaginei serem trabalhadores voltando para seus escritórios após terem cumprido seus horários de almoço.

Na praça havia dois pequenos lagos, onde nadavam peixes coloridos e, também alguns poucos patos. Ninguém reparava neles, tão apressados que estavam.

Parei por alguns segundos diante de um dos lagos, onde carpas coloridas nadavam quase sonolentas de um lado para outro, quando percebiam que alguém se aproximava, talvez com a esperança que lhes fossem atirados qualquer petisco. Mas nada acontecia. A poucos metros dali havia um vendedor de biscoitos e comecei a me dirigir a ele quando ouvi uma voz: “Não dê nada aos peixes”.

Olhei em volta e reparei que não longe de mim, havia um homem sentado em um dos bancos da praça. Olhei para ele, mas ele continuou impassível. Voltei-me para o vendedor de biscoitos e novamente ouvi sua voz me dizendo que era para eu não dar nada aos peixes, porque tudo de que precisavam já estava no lago.

Dirigi-me, então, para aquele homem, indo em sua direção. Sempre gostei de uma boa conversa e achei que aquele homem parecia ter coisas a dizer.

Cumprimentei-o e perguntei se eu poderia sentar-me ao seu lado. Ele, sem olhar para mim, disse que havia bastante espaço no banco para nós dois. Sentei-me e, por um instante, ficamos calados, apenas olhando não sei para onde. Rompi o silêncio e lhe perguntei se ele estivera me observando e como sabia que eu ia comprar biscoitos para os peixes. Ele me respondeu que não estava olhando para mim, mas para o lago, e percebeu que ao me dirigir ao vendedor de biscoitos, deduziu que eu iria envenenar os peixes.

Virei-me para ele indignado com a sua observação e indaguei o porquê de seu comentário. Ele simplesmente me perguntou se não era isso que eu iria fazer. Tive que concordar e então ele me disse que tudo que atirarmos aos peixes eles vão tentar comer. E vão comer até morrer, como passarinhos que comem demais.

Tentando mudar o rumo da conversa, perguntei-lhe se ia sempre aquela praça e ele respondeu que vivia lá.

- Como é que o senhor mora aqui? A praça é fechada durante a noite!
- É por isso que moro aqui, tem muita segurança, ninguém entra quando estou dormindo.
- Mas os guardas não expulsam o senhor daqui?
- Quando me acham expulsam, mas dou a volta e entro pelo outro lado.
- E isso não é perigoso?
- Perigoso é ficar do lado de fora.
- De qualquer forma eu acho que o senhor se arrisca muito.
- Nunca ouviu aquele ditado que diz que “quem não arrisca, não petisca?”
- Claro que ouvi, mas durante a noite, se os guardas virem o vulto do senhor no escuro, podem atirar.
- Os guardas não ficam aqui depois de o parque estar fechado.
- E quando chove ou faz muito frio?
- Durmo no banheiro. Lá faço minhas necessidades, me lavo e deixo tudo limpo. Tenho amizade com os serventes. Amizade é tudo!
- E eles não podem trair o senhor?
- Podem, claro que podem, mas por que fariam isso? Eu os ajudo durante o dia e além do mais, poderiam perder o emprego.
- O senhor não trabalha?
- Não disse que ajudo o pessoal durante o dia?
- Disse, mas isso não é trabalho!
- Quem disse? O que é trabalho?
- Ora, trabalho é ter um emprego, ter um salário, uma casa, uma família, coisas assim.
- Para quê?
- Para ter tranquilidade, se aposentar e ir viver num lugar calmo e tranquilo, desfrutar da natureza.
- Mas eu já tenho tudo isso aqui. E além do mais o senhor também não sabe o que é trabalho. Trabalho é toda a energia que o senhor coloca em um ponto.
- Mas como o senhor se alimenta, o que o senhor come?
- Olhe para fora da praça e veja quantos bares, lanchonetes e vendedores ambulantes estão espalhados por aí. Sempre tenho o que comer. Quando fica difícil peço um pedaço do pão que alguém vai jogar para os peixes.
- Mas o senhor não tem medo de ser preso?
- Preso por quê? Não faço mal para ninguém!
- Mesmo não fazendo mal a ninguém, pode ser preso por vadiagem.
- Por estar conversando com o senhor?
- Não foi isso o que eu quis dizer.
- Foi o que pareceu.
- Desculpe, eu não quis ser indelicado.
- Tudo bem, não se desculpe.
- Já estamos conversando há algum tempo e eu nem sei o seu nome.
- Eu também não sei o seu, para o senhor ver que nomes não são importantes para se manter uma boa conversa.
- Tem razão, mas sabendo o nome da pessoa a conversa parece ficar mais íntima.
- O senhor quer ter intimidade comigo?
- Não foi isso que eu quis dizer.
- O senhor vive dizendo coisas que não queria dizer. O senhor não pensa antes de falar?
- Claro que penso antes de falar!
- Então por que diz o que não queria dizer?
- É maneira de dizer.
- É uma maneira estranha a sua.
- Podemos dar um outro rumo para nossa conversa? Eu gostaria de saber como o senhor passa o seu tempo sentado aqui na praça.
- Passo meu tempo sentado aqui na praça. O senhor já concluiu isso.
- Não foi isso que quis perguntar.
- De novo falou o que não quis.
- O senhor não se irrita com nada?
- Não, por que haveria de me irritar?
- Sei lá, com as coisas.
- Que coisas?
- Com as coisas que estão acontecendo no mundo, ora!
- E o que está acontecendo no mundo?
- O senhor não sabe? Guerras, protestos, assassinatos, suicídios, fome...
- Acho tudo isso normal.
- Como assim, normal?
- Normal, essas coisas sempre aconteceram desde que o mundo é mundo.
- E como é que o senhor sabe disso?
- Porque eu vivo aqui e vejo.
- O que o senhor vê?
- O Homem, eu vejo o homem e os anos passam, mas o homem é sempre igual.
- Desculpe, mas o senhor parece ser uma pessoa alienada.
- O senhor acha?
- Acho não, eu tenho certeza disso. Parece que nada tem importância para o senhor.
- E o senhor acha que se eu me importasse iria mudar alguma coisa?
- Creio que sim, o mundo poderia ser um lugar bem melhor.
- O senhor faz alguma coisa para mudar o mundo?
- Não, mas tento fazer.
- O quê?
- Sei lá, eu ajudo as pessoas e procuro aliviar suas dores, coisas assim.
- E está conseguindo mudar o mundo fazendo isso?
- Pelo menos faço a minha parte.
- E quantas pessoas o senhor ajudou?
- Não sei, eu não conto quantas, apenas faço.
- O senhor não vai conseguir mudar o mundo fazendo isso.
- Por que não?
- Não se muda o mundo, o mundo é perfeito como Deus o criou. Quer melhorar o mundo, tente mudar o Homem.
- Mas não foi Deus que também criou o homem?
- Foi, mas Deus deu-lhe o livre arbítrio e o homem quer mudar tudo e se comparar a Deus. O homem não se conforma em ser um não deus.
- De onde o senhor tirou essa conclusão?
- De minhas observações aqui nesta praça, neste mesmo banco e neste mesmo jardim.
- Acho que já ouvi essa frase.
- Ouviu sim, é da letra de uma música antiga.
- É verdade, agora me lembro.
- Muito bom ter lembranças de algo bonito.
- É verdade, é muito bom mesmo. O senhor tem muitas lembranças?
- Tenho todas.
- Nunca se esquece de nenhuma?
- Só das lembranças ruins.
- E como consegue isso
- É fácil, eu não penso nelas.
- E por que não pensa nelas?
- Porque elas me entristecem e não gosto da tristeza.
- Acho que ninguém gosta.
- Aí você se engana meu amigo. Posso chamá-lo de amigo?
- Pode sim, mas por que acha que estou enganado?
- Porque grande parte da humanidade gosta da tristeza se entristece à toa e as pessoas ficam deprimidas com facilidade. Não fazem nada para sair dessa situação e reclamam de tudo, e nada nunca está bom.
- O senhor tem razão, é que as coisas lá fora estão difíceis para todo mundo.
- Lá fora? Nós estamos lá fora e para mim tudo está como deveria ser.
- Está mesmo?
- A não ser que o senhor ache que Deus fez as coisas erradas.
- Olha, às vezes eu penso que Deus não é tão justo como dizem as religiões.
- E por que o senhor acha isso?
- Porque existem muitas injustiças no mundo. Como pode haver ricos e pobres com tanta diferença social, econômica. Crianças passando fome e doenças, enquanto outras vivem com todo conforto e não passam necessidades?
- É uma questão de merecimento.
- Como merecimento? No mesmo dia nasce uma criança em berço de ouro e na mesma hora nasce outra criança em uma favela.
- O senhor acredita em Deus? Crê em Jesus Cristo?
- Acredito em Deus sim, mas entendo que Jesus foi apenas um profeta.
- Sei, apenas um profeta? Mas então o senhor admite que ele existiu!
- Sim, pelo menos é o que a história diz.
- O senhor não acredita que Ele seja o filho de Deus?
- Não, ele é filho de José e de Maria.
- E o senhor é filho de quem?
- De meus pais.
- E seus pais são filhos de quem? Não precisa responder, são filhos de seus avós, que por sua vez são filhos de seus bisavós e por aí vai, não é?
- É, por aí vai.
- Então o senhor não crê em Deus, apenas tem medo que ele exista.
- Não tenho medo não, eu acho que Deus existe sim, mas tem coisas que eu não entendo.
- Tem muitas coisas que o senhor não entende. O senhor tem religião?
- Sou católico, fui batizado, crismado, fiz a primeira comunhão e me casei na Igreja.
- E fez tudo isso sem acreditar em Deus.
- Todo mundo se casa numa igreja.
- Todo mundo?
- É sim, todos se casam com um ritual religioso.
- Acredita mesmo nisso?
- Sim tenho conhecidos de outras religiões que se casaram em igrejas de acordo com suas religiões.
- O senhor não acredita muito em Deus, mas acredita nas religiões. Sabe o que a palavra religião significa?
- Algo que o homem criou para falar de Deus.
- Há pouco o senhor falou em história, por certo deve saber que os povos mais primitivos acreditavam na existência de um deus. Desde os mais antigos e até mesmo os nossos índios tinham suas crenças em um deus. Por que o senhor acha que todos os povos do mundo, em todas as épocas cultuavam seus deuses?
- Nunca pensei nisso, mas acho que criaram seus deuses para achar explicações de coisas que não entendiam.
- E o senhor já entende de tudo?
- Claro que não, ainda tenho muito o que aprender.
- Mas ainda não buscou Deus, mas tem medo de que Ele realmente exista.
- Sim, sou temente a Deus.
- Ser temente a Deus não é ter medo dele, mas respeitá-Lo e obedecer às suas ordens. Por que acha que Deus iria querer que tivessem medo Dele?
- De fato eu nunca pensei nisso!
- Eu já disse que o senhor não pensa muito nas coisas, não disse?
- O senhor me confunde.
- Que bom, talvez isso o leve a pensar um pouco mais.
- Gostaria de saber como o senhor sabe tantas coisas, se não saí daqui desta praça?
- Eu nunca disse que não saio daqui.
- Mas eu penei que...
- Preocupe-se em pensar coisas antes de deduzir por si o que lhe parece.
- E para onde o senhor vai quando sai da praça?
- Faço minhas andanças pela cidade, vejo coisas, escuto as pessoas falando e leio os jornais que ficam dependurados nas bancas todas as manhãs. É assim que tomo conhecimento do que está acontecendo no mundo.
- E o senhor não se cansa dessa rotina toda?
- E, por acaso, o senhor não tem rotina e faz coisas diferentes todos os dias?
- Claro que tenho minhas rotinas, acordo cedo, saio para o trabalho, almoço fora, caminho um pouco aqui na praça e volto para o escritório. No final do dia, volto para a casa. Mas, nos finais de semana mudo minha rotina e vou para a praia, onde tenho uma casinha.
- E faz isso todos os finais de semana?
- Só quando chove que não.
- E isso não é uma rotina?
- Não deixa de ser, mas é diferente da sua.
- Por quê?
- Porque vou para a praia e saio dessa maluquice que é essa cidade.
- Acha a cidade maluca?
- Acho sim, trânsito caótico, as pessoas sempre correndo de um lado para outro, violência, etc.
- O senhor não acha que as pessoas é que são malucas?
- É, são malucas sim, mas isso é porque a cidade faz isso com elas?
- Mas que culpa tem a cidade?
- Essa competição toda, gente procurando emprego, acidentes, hospitais lotados, povo sem educação. Governo que não faz nada para melhorar as coisas.
- A culpa é do governo, então?
- Se a cidade é tão ruim assim, por que o senhor não vai para outra cidade?
- Porque eu vivo aqui, trabalho aqui, meus filhos estudam aqui, minha mulher trabalha aqui.
- E isso tudo justifica sua infelicidade?
- Eu não sou infeliz!
- Então, por que se queixa?
- Eu não me queixo.
- Eu sei, foi só um desabafo.
- O senhor disse que lê os jornais diariamente, onde aprendeu a ler?
- E o senhor aprendeu aonde?
- Na escola.
- Eu também, é lá que a gente costuma aprender a ler e a escrever.
- O senhor frequentou escola?
- Claro que sim! Acabei de dizer.
- E até onde foi nos seus estudos?
- Fui até o fim. Fui professor.
- O senhor está me dizendo que foi professor e hoje mora em uma praça?
- Foi o que eu disse.
- E o que o senhor ensinava?
- Vida!
- Vida? Não me parece uma matéria curricular.
- E não é, por isso fui dispensado.
- E por que veio viver aqui?
- Foi o melhor lugar que achei depois que fiquei sem emprego.
- Sua família o deixou?
- Não, fui eu que os deixei.
- E o senhor não sente tédio?
- Tédio? Não sinto não. Tédio conduz à depressão e eu não sou depressivo.
- Nunca fica doente?
- Não.
- E se ficar?
- Aí fico doente.
- E o que vai fazer?
- Nada, mas alguém vai fazer.
- Quem?
- Não sei, alguém. A polícia talvez.
- E o senhor não tem medo?
- Medo de quê?
- De morrer?
- Não existe morte.
- Como não existe morte? Desde sempre as pessoas morrem.
- Os corpos morrem, mas não as almas.
- É isso que ensinava aos seus alunos?
- E tem algo mais importante do que aprender sobre a vida?
- O senhor nunca fica nervoso?
- Nunca, às vezes até me entristeço, mas logo retomo a calma. Aprendi a controlar minhas emoções.
- E como é que o senhor faz isso?
- Eu sempre cultivo a paz e me sinto bem comigo mesmo. Hoje já não me enervo no trânsito, não me atraso para nada, não assumo compromissos que não posso fazer, e vou a pé para onde quero ir, sem atropelos e sem pressa. Também não marco encontros, e isso evita a ansiedade de esperar por alguém. Não me preocupo com o tempo, pois as coisas acontecem quando têm que acontecer.
- Mas e quanto ao futuro? O senhor não tem planos?
- O futuro é agora, o tempo é agora. Para que se preocupar com o dia de amanhã? Ou mesmo com coisas do passado?
- Todo mundo faz isso.
- Eu não faço.
- Bem, está na minha hora, tenho de voltar para o escritório. Hoje estiquei meu horário de almoço.
- Almoçou bem?
- Almocei sim, obrigado. Gostei da conversa e o senhor tem muita serenidade!
- O prazer foi meu.
- E nem dissemos nossos nomes.
- O senhor disse o meu. Sou a serenidade, em pessoa!

 

 

Ivan Jubert Guimarães

Direitos reservados ao autor

 

Esperamos seu carinho no nosso livro de visitas