Ivan Jubert Guimarães

 

    Zé ficou triste com a morte da mãe, uma velha senhora, matriarca, que criara todos os seus filhos sob suas asas. Nunca houve nada que mãe do Zé deixasse de fazer pelos filhos. A última palavra era sempre a dela para resolver qualquer pendência ou pequenos desacertos familiares.
Todos acatavam sua decisão embora genros e noras não gostassem muito daquela interferência.
Mas agora, lá estava ela, mortinha devido a um ataque fulminante do coração que não lhe deu tempo de escolher como gostaria de ser sepultada.


    Zé e os irmãos e irmãs, discutiam o que deveriam fazer, mas não chegavam a um acordo. Não possuíam um jazigo e isso já era motivo de discussão na família, com cada um empurrando acusações para o outro.
Tudo deveria seguir seu curso normal com o sepultamento da mãe de Zé. Mas aí alguém falou: “por que não cremar o corpo?” E a discussão saiu dessa pergunta: “É, por que não?”
Uma das noras chegou até a comentar que a cremação sairia mais barato do que manter um túmulo com flores, velas, limpeza, além do que se veriam obrigados a sempre fazer uma visita no dia de Finados. Após essa argumentação quase toda a família já estava a favor da cremação. Menos o Zé. Zé era o mais velho dos irmãos e fora criado para ser o sucessor da mãe nas decisões importantes da vida, mas agora era uma decisão sobre morte e Zé não sabia bem o que fazer, nem o que queria.


    Uma cunhada arriscou: “você poderia jogar as cinzas no mar”. Sua mãe iria adorar.
- Mamãe odiava o mar! – respondeu o Zé.
- Jogue as cinzas nos jardins, entre as flores, então.
- E deixar que o vento espalhe mamãe por aí? Não! Vamos sepultá-la.


    Essa discussão toda se dava enquanto alguém arrumava o corpo da mãe dentro do caixão e uma vez arrumado, Zé parecia ver a mãe se mexendo como se quisesse dar a palavra final. Zé olhou para o caixão e decidiu: “Está bem! Vamos cremar mamãe!”


    Foi um alívio geral e quando chegou o momento da cerimônia e aquela música suave ia tocando e o caixão descendo, ouviu-se uma voz perguntar quem iria retirar a urna com as cinzas da matrona e outra voz respondeu que seria o Zé, é claro, pois havia sido dele a palavra final.


    De fato sobrou para o Zé, ninguém queria a tal caixinha com os restos mortais de sua mãe. Zé não sabia o que fazer com aquilo. Ficou sabendo que naquela caixinha, não havia somente as cinzas de sua mãe, pois o caixão fora queimado junto, as roupas da mãe também, incluindo os sapatos e aquele colarzinho que ela tanto gostava de bolinhas de madeira. Chegou à conclusão que deveria ter mais cinzas de objetos do que do corpo da mãe. E não tinha jeito de separar uma cinza da outra. Então, Zé sacudiu bem a urna, para que as cinzas se misturassem de vez. Foi para seu carro, a mulher carrancuda do lado odiando viajar com as cinzas da ex-sogra. Zé apoiou a caixinha na capota do carro do lado, para abrir sua porta, entrou no carro, deu a partida e saiu, não antes sem dizer: “Adeus mamãe!”




Ivan Jubert Guimarães


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