A minha dignidade, os meus valores morais e o respeito
que tenho por mim mesmo é que me fazem
bancar o tolo algumas vezes.

 



12.08.83

A gente envelhece, as coisas mudam;
mas existem lugares que o tempo esqueceu de passar.

Uma Rua do Brás

A ruazinha molhada,
Estreita, tão apertada;
Senhoras nas janelas,
Velhos nas calçadas,
Um cheiro de água parada.
Rua sombria,
Casarões encardidos,
Moleques descalços,
A bola furada
Chutada com emoção.
O jogo parando
Pra moça poder passar.
Um velho de camiseta,
Um jogo de damas num bar.
E o tempo que passa tão depressa,
Ali, parou de andar.
 

 



03.09.1983

Por haver roubado uma maçã de uma barraca
de frutas, o homem apanhou bastante e foi preso.
Numa banca de jornais, próxima ao local,
as manchetes falavam sobre os escândalos
da Delfim, Capemi, Coroa Brastel.
Aí, ninguém entendeu mais nada.

 



09.10.1983

A vida que você começa agora,
Num mundo nem sempre risonho, pode
Assustar um pouco, mas não ligue,
Inda que quando a gente nasce
Logo nos pomos a chorar.
Um mundo belo e estranho este, que você
Juliana, para nossa alegria, veio habitar.
 

 



08.02.84

A saudade e o desejo de ver alguma pessoa,
provoca uma mistura de sentimentos em nosso coração.


Quando se ama
Mas não podemos viver este amor;
Quando se quer alguém
Mas temos que nos manter distantes,
A vida vai ficando difícil de viver.
Um amor vivido em silêncio
É como uma dor incurável:
Quanto mais desejamos que ela passe,
A tensão vai tornando-a cada vez mais forte.
É uma mistura de sentimentos distintos;
Às vezes amor, às vezes amizade,
Outras um simples desejo de aventura,
Mas agora, muita saudade.
Luto para tirar-te de minha mente,
Mas é uma luta que sei que vou perder.
Nada apaga esta lembrança,
Pois como parar de pensar em você,
Se a toda hora eu me lembro
Que tenho que te esquecer?
 

 



14.02.1984

Para Aline

Tantas vezes eu falei que te quero,
Tantas quantas você apenas achou graça.
Se insisto que este amor é sério,
Você ri e faz pirraça.

Não sei o que fazer para que acredites
E não quero-te rindo desta maneira;
Se não consigo provar-te a verdade,
Apenas não encare como simples brincadeira.
 

 



24.02.1984

Para Márcia, o amor maior deste poeta, a grande
companheira, que viajou por um fim de semana.

 


Se com uma pequena separação,
Meu peito deixa-se dominar pela saudade,
Como será numa longa ausência?

Por isso vou querer-te perto eternamente,
Pois quanto mais longe te sinto,
Mais eu vejo teu rosto em minha frente.
 

 



17.03.1984

Mulher

Mulher,
Eu correria o mundo inteiro,
Iria até o mais longínquo dos jardins,
Só para roubar uma flor,
Que fosse eterna e tivesse o teu cheiro.
 

 



1984

Amor é vida, é encanto, é deslumbramento.

Viver um amor,
É como fazer uma longa viagem
Por lugares nunca antes visitados,
E ir descobrindo novas paisagens.

Viver um amor,
É deslumbrar-se a cada momento
Com as descobertas realizadas,
E ter sempre um sorriso, nunca um lamento.

Viver um amor,
É confiar sempre no outro,
Tendo a mente serena e jogando aberto,
Para que nunca haja dúvidas, nem um pouco.

Viver um amor,
É jamais fincar raízes,
E como única rotina repetir:
Nunca fomos tão felizes.

 

 


08.04.1984


Para Vitor, filho de Maria Inês

Você nasceu no dia seguinte à maior manifestação
pública que este país já viu.
Você nasceu sob o signo da liderança,
do romantismo e do amor.
Você nasceu no mês daqueles que amam a liberdade.
Você nasceu no mesmo dia que nasceu sua mãe.

Você chega num momento muito importante em que
todos os corações estão se abrindo para
receber uma nova esperança.
Você chega no exato momento em que temos que nos
multiplicar e nos tornarmos mais fortes e unidos.
Você nasceu num momento histórico.

E, por isso, sua responsabilidade neste mundo é muito grande.

Portanto, Vitor, você quando abrir seus olhinhos
e se sentir um pouco decepcionado com o que vir, não esmoreça:

Comece sua luta desde pequenino,
Pois embora criança, você já é um menino;
E para se tornar um homem confiante,
Terá que começar a lutar agora, e bastante.

Boa sorte pra você.
 

 



11.04.84

Reencontro

Para Maria Odila

Eu queria fazer um poema
Falando desse reencontro.
Eu queria dizer da saudade sentida,
E da lágrima quase derramada.
Mas como falar de reencontro
Se nunca houve uma despedida?
Como falar de saudade,
Se nos falamos todos os dias?
Como chamar de lágrima
O que pode ter sido um cisco no olho?
Existem coisas que o tempo faz esquecer.
Se um grande amor precisa da convivência
Para não ser substituído por outro amor,
O mesmo não acontece com a amizade.
A distância pode até deixar saudade,
Mas um dia o reencontro acontece,
E mesmo que demore muitos anos,
Uma amiga a gente não esquece.

Muitas pessoas condenam a leviandade do poeta.
Para muitos, o poeta é um boêmio, um libertino.
Mas amar é ser leviano? É ser libertino, ou boêmio?
O poeta é tão simplesmente alguém que
gosta e que precisa amar.
Por isso o poeta está sempre amando uma mulher.

Amor, que estranho sentimento;
Às vezes, demora muito a chegar;
Outras, vem duas vezes ao mesmo tempo.
E como é bom ser capaz de amar.

Mas amar duas mulheres é um problema,
Pois com as duas é impossível viver.
Vive-se então um difícil dilema,
Pois longe de uma prefere-se morrer.
 

 



08.05.1984

Quando não se tem o que dizer é melhor não falar nada.

Agora, vejo todos os meus problemas de uma forma diferente.
A vida acaba de me ensinar outra lição.
Novamente a sensação de perda, de abandono.
De novo os interesses destruindo as amizades.
De mocinho, passa-se a bandido com uma incrível rapidez.
Quando se está por baixo, muitos têm a grande
chance para mostrar superioridade.
Ninguém diz o que se precisa ouvir.
Alguns demonstram falsa compaixão, mas deixam claro em
suas atitudes, que não querem nos ver mais.
Outros, que sempre nos rodearam passam a nos evitar.
E eu, que já passei por isto outras vezes, não deveria mais me impressionar.
 

 



23.05.1984

Eu só consigo escrever quando estou amando; ou quando estou revoltado.
No momento, estou gozando a plenitude da indiferença.
 

 

 




Após carregar nos ombros e nos bolsos todas as frustrações
do dia, é reconfortante chegar em casa, à noite,
e ouvir meus filhos dizerem: Oi pai!

 

 


Receita da Felicidade

Ingredientes: amor, alegria, sorriso, lágrimas, carinho, pecado, malícia.

Modo de fazer:

Ponha muito amor em tudo que fizer.
Espalhe um pouco de alegria, misturando lentamente para não engrossar.
Adicione um sorriso, não esquecendo de por algumas lágrimas para temperar.
Junte o carinho e mexa até ficar no ponto.
Ponha uma pitadinha de malícia e antes de servir, junte umas gotinhas de pecado.
 

 


1985

Soft

Quando eu cheguei, ela já estava lá; quietinha, como
se me esperasse com ansiedade mas sabendo que eu chegaria.

Aproximei-me sem fazer barulho e a abracei bem forte.
Fiquei olhando para ela. Depois comecei a despi-la e fui
aproximando meus lábios. Toquei-a de leve e senti todo o
aroma adocicado que exalava. Foi demais!

Comecei a chupá-la, todinha. Ela vibrava com o contato de
minha boca deixando escapar um líquido delicioso.
Que aroma! Que sabor!

Minha língua provocava nela fortes convulsões.
Chupei-a inteirinha e ela, não resistindo mais
a tanta volúpia, acabou.
A bala.
 

 



18.05.1985

Cateterismo

Primeiro é uma sensação de perda irreversível.
Passa-se a pensar na morte não mais com medo,
mas como algo que está próximo e é inevitável.

Aparentemente não tinha nenhum mal assim tão grave.

É a possibilidade de, a incerteza de se ter ou não,
que divide meu sentimento em pequenos fragmentos.

É uma ponta de medo, um pedaço de resignação, uma parte
de dúvida, um pouco de revolta, um pedaço de esperança.
Todos estes pedaços, alternadamente, aumentam
ou diminuem de tamanho. Às vezes dois ou três
pedaços aumentam bastante esmagando a esperança.
Aí as coisas ficam difíceis de suportar.

A causa de como tudo começou, eu não sei.
Também agora já não interessa mais.

O que me aborrece é que eu não tenha encontrado
a paz que tanto tenho procurado. As pessoas estão
sempre cobrando algo de mim. Os poucos prazeres da
vida vão aos poucos perdendo a espontaneidade.
A gente vai se fechando, se retraindo, pois não se
consegue mais se fazer exprimir. Os nossos problemas
são por demais insignificantes diante dos problemas e
necessidades dos outros. A gente vai se dando, se entregando,
até que de repente já não sobra mais nada para dar.

Talvez não haja nada mais a fazer.

 

 

Ivan Jubert Guimarães

Direitos reservados ao autor