A vida é um oceano imenso onde os amigos fazem o papel dos tubarões.

Dúvidas

Num mundo metamorfoseado,
Por um instante absorvo-me em pensamentos;
Meus olhos alcançam o infinito.
Tudo me é incerto, tudo me é inseguro, tudo me é duvidoso.
Estabeleço um deus, crio teses, surgem antíteses;
As dúvidas persistem e já não sei se creio ou não em Deus.
Penso na vida e acho impossível que um dia,
Quando de minha morte, tudo venha a terminar.
Não sei se após a morte de meu corpo,
Meu espírito continuará vivendo.
Penso no porquê de minha existência
E pergunto-me seguidamente porque eu estou vivendo?
Por que eu estou vivendo?
Quero saber o que virá depois.
A vida é linda e misteriosa;
Eu amo a vida, eu amo as pessoas,
Mas será só isto que existe?
Em nada encontro a resposta
E vejo-me um ser inútil,
Manipulado pelos mistérios do Universo.

 

 



03.10.1970

Tristeza, angústia, lembrança e vontade;
Tudo isto junto resulta em saudade.



Ah que saudade eu sinto dela!
Hoje é sexta-feira
E faz só dois dias que eu estive com ela.
Que vontade de beijá-la nos lábios!
Mas um beijo bem dado,
Um abraço bem apertado!
Hoje é sexta-feira,
Mas amanhã é sábado!

Ah que saudade eu sinto dela!
Como é bom a gente amar,
Como é bom ser amado!
Quero vê-la amanhã toda sorrisos,
Toda alegria, toda poema, toda poesia.
Mas que saudade eu sinto dela!
Amanhã, entretanto, estaremos juntos;
Eu e ela, ela e eu.
Sorverei toda doçura de sua boca;
Vou apertá-la tanto em meus braços,
Que será impossível dela escapar.

Mas que saudade eu sinto dela!
Só de pensar que tenho dois dias
Para ficar com ela,
Fico todo satisfeito,
Rio à toda hora.
Puxa vida, como eu gosto dela!

Às vezes nem parece que a gente namora há três anos;
A cada dia que passa mais eu a amo.

Ah que saudade eu sinto dela!
E essa sexta-feira que não termina.
Mas amanhã é sábado!
Ah como é bom a gente amar,
Como é bom ser amado!
 

 



16.10.1970

Que sorte os meus olhos conhecerem o amor.

Eu iria preferir tornar-me um cego,
Perder a luz de meus olhos,
Se eles só enxergassem
O que não gosto de ver.
É horrível a gente ver
A mulher sentada na calçada,
Com os filhos ainda pequenos,
Atrofiados ou não,
Pedindo esmolas.
E o povo passando apressado,
Ignorando aquela cena.
É horrível ver o homem dormindo na calçada,
E vê-lo acordar ainda embriagado
E pedir dinheiro para o pão,
Que certamente será engarrafado.
É horrível ver mulheres nas ruas
Trocando o corpo por comida;
É horrível ver os jovens perdidos no meio dos tóxicos;
É horrível ver tanta gente perdida.
É horrível abrir o jornal
E ver os crimes do dia-a-dia.
É horrível olhar as favelas
E ver a fome e a miséria.
Ainda bem que não é só isto
Que meus olhos vêem.
Que sorte os meus olhos conhecerem o amor!
 

 

 


24.10.1970

Enquanto houver no mundo uma única pessoa que tenha
os olhos voltados para mim, não me importo com o
que possam pensar de mim outras pessoas.

Eu quis te fazer um poema
Que fosse amor, todo diferente;
Eu quis fazer com minha pena
Algo de belo pra te fazer contente.

Mas neste mundo evoluído,
Transformando-se sem que se possa deter,
Busco palavras belas e vejo-me perdido;
Já não sei ler, tampouco escrever.

Mas pra te fazer contente,
Eu hei de fazer com minha pena,
Uma maravilha de poema,
Que fale de amor, todo diferente.
 


 


05.11.1970


O importante é ter consciência do que é importante,
e não dar importância à gente sem importância.


I know what I have in my hands;
I know what you mean to me.
I know what I want to be.
I know how life is without love.
I know you are a different woman,
Different of all.
I know that I love you;
I know that I’ll never leave you,
Cause I know what I have in my hands.
 

 



09.12.1970


Chorar

Chorar, o que é chorar?
Chorar é querer um doce
E não poder comê-lo;
Sim, talvez seja isto.
Mas, será que é mesmo?
Eu já comi tanto doce!

Chorar, o que é chorar?
Chorar talvez seja querer um brinquedo
E não poder comprá-lo.
Mas eu tive tantos brinquedos!

Por que tenho chorado tanto então?
Se comi doces, se tive brinquedos?
 

 



1969


O ouro vale o que pesa, e o homem o que pensa.

As desilusões que sofremos na vida, não devem tirar nosso ânimo;
Por mais miserável que seja o homem, sempre existe algo em que acreditar.

Se eu não te amasse como te amo,
Não sofreria como sofro agora.
Não teria no peito um coração que chora,
Se eu te amasse menos do que amo.

Se eu não te amasse como te amo,
O ciúme que tenho eu não teria,
E longe de você não choraria,
Se eu te amasse menos do que amo.
 

 

 


1968

Natal

No Viaduto do Chá, milhares de pessoas se atropelam numa correria infernal.
Ouve-se músicas por toda a cidade.
As lojas estão cheias de gente.
Pessoas pensando no que dar, no que receber.
A alegria é geral.
A cidade está toda enfeitada, até parece carnaval.
Ninguém se lembra de Cristo.
 

 

 


23.12.1970

Reveillon
(1970)

Na Praça do Patriarca, enquanto champanhas eram estouradas,
e papéis eram atirados pelas janelas, para celebração do fim
de ano, a mulher, com o peito despido, amamentava seu filho.
 

 

 


31.12.1970


Amor Eterno

Eu sei que meu amor não vai morrer;
E acredito tanto nisso!
Eu sei que basta um olhar teu,
Um sorriso, um abraço, um beijo teu,
Para que eu o sinta eterno.

Só no olhar-te eu percebo sua grandeza.
Se, porventura, acontecer um dia
De não mais puderes me olhar,
Nem sorrir, nem abraçar-me,
Sentirei para sempre nos lábios,
O gosto de teu último beijo.

Acredito que nosso amor é capaz de romper
As mais duras barreiras,
Os mais difíceis obstáculos.
Por acreditar nele, sinto-me forte,
E o mais importante: sinto-me vivo.
 

 

 


1971

Da noite, às horas caladas...
Nos momentos de incerteza da vida...
Ou no leito lânguido da morte...
Quando as decisões tornam-se erradas...
Quando a esperança estiver perdida...
Quando a desgraça dominar a sorte....
... Que não me falte amor!
 

 

 


04.03.1971

Epitáfio

Parto agora deste mundo
Para outro que não conheço.
Em vida, fui gasto e sofrido;
Conheci muitas pessoas,
Fiz grandes amigos.
Não fui sábio nem importante,
Fui um homem simplesmente.
Morro, mas posso dizer que vivi;
Pois amei intensamente
E fui profundamente amado.
 

 

 


06.04.1971


Aula de Matemática

Aula de Matemática
Blá, blá, blá.
A mente cansada e transtornada foge da matéria.
Os números já não existem.
Penso em ser o único número,
O número absoluto.
A aula prossegue cansativa:
cp, tp, ri, ma,...
Código estranho esse!
Espionagem, bomba, explosão.
Minha mente estoura.
Penso na morte de meu corpo;
Idealizo uma imagem,
Algo de belo em que pensar.
Ma, rc, ia.
As letras das fórmulas já formam um nome:
Algo que eu entendo,
Minha mente se transforma;
O blá, blá, blá continua,
Mas a aula fica mais interessante.
 

 

 


17.05.1971


Devemos olhar somente o que desejamos ver.


Eu te amo!
Que me importa se o mundo está em guerra,
Se tem gente que morre,
Se existe miséria e sofrimento?

Quando olho em teus olhos,
Tudo o que é horrível desaparece;
É muito bom saber que existe beleza,
Que existe alegria, que existe amor.

Por ver tudo isto em teus olhos,
Esqueço-me de todas as coisas más;
É que eu te amo!
E este amor faz com que eu veja
Somente o lado belo da vida.

Se olho um mendigo,
Não vejo um mendigo,
E sim um ser humano.

Se olho para a guerra,
Não vejo homens morrendo,
E sim homens lutando para viver.

Se olho um morto,
Vejo nascer outra criança.

É que eu te amo!
E só vejo o que é belo;
Por isso que é bom te amar.
 

 



23.05.1971


Enquanto os abutres rodeiam, a águia come a carne.
 

 




26 de Maio

Neste 26 de maio querida,
Quero dizer o quanto te amo.
Quero beijar-te e te ouvir dizer
Que me amas muito.

Quero encontrar-te radiante de alegria,
Exalando amor e bondade;
Quero ver em teus olhos
Um amor puro e sincero.

Como gostaria de agora
Achar-me a teu lado,
Sentir tuas mãos nas minhas,
Apertadas, suaves e macias.

É 26 de maio,
E eu te amo.
 

 



26.05.1971

Se eu tenho um grande amor, se tenho grandes amigos,
por que haveria eu de preocupar-me com o que pensam de mim os infelizes?

Ah se tu soubesses
O que me vai no peito,
O que sinto quando
Te aproximas de mim;
Adivinharias, talvez,
A grandiosidade de meu amor.
Mas, tu, ao perceberes
Que estou indo a teu encontro,
Se teu coração bater com muita força,
Se tu sentires algo de estranho
Percorrendo teu corpo,
É porque sentes a mesma coisa que sinto.
 

 

 


26.05.1971

A observar a corrida das horas

Há muito que ando em busca da razão de minha existência.
Urge que eu a encontre pois o tempo passa por mim velozmente.
A vida está acabando, as horas passam correndo, o mundo se transforma
e eu, não sei de onde vim nem para onde vou.

É horrível não se ter consciência do por que.
Que faço eu neste mundo?
Vivendo?
E daí?
Construindo?
Pra que?

As horas vividas não me respondem.
Pergunto a Deus, mas Deus está morto.
Foi Zaratustra quem disse.
Nem fé eu tenho.

Vivi minha infância aprendendo; maduro, discordo do que aprendi,
duvido de tudo, do tempo, do mundo, de Deus.
Em que apegar-me? No que devo crer?

Apego-me a mim, acredito no que faço.

Pra que pensar de onde vim, se não existia?
Pra que pensar pra onde vou, se não existirei?
Que me importa se o mundo se transforma ou se correm as horas?
O homem delimitou o tempo para pensar e descansar, condicionou sua mente.
Não importa a morte nem a ante vida. Importa é viver.
Pelo menos é o que tento fazer.
 

 



31.05.1971


Menina


A moça ia triste pela calçada;
Parecia estar com frio e cansada,
Trocara a noite pelo dia,
Era amor que ela vendia.

Quem passasse pela praça,
Ela corria cheia de graça,
E dizia: “vamos bem?”
Dava pena dela.

Aquela moça de nome Brigite,
Suzete, Bárbara ou Maria,
Era olhada com vergonha pelas senhoras,
Pelos homens, com cobiça.

Aquela moça que dizia palavrão,
Já não se importava com nada,
Não tinha um lar, nem família,
Talvez tivesse um dia.

Seus olhos cansados já não vêem futuro;
Coitada da moça,
Tenho pena dela,
É tão menina!
 

 

 

 

Meu Amor


12.06.1971


O poeta sempre encontra palavras para expressar seus sentimentos.


Hoje que meu amor está amadurecido,
Que se tornou sólido, forte e potente,
Quero dizer-te que reencontrei meu eu perdido,
Quero que sempre assim ele se te apresente.


Quero mostrar-te minhas mãos em prece,
Quero pedir em teus braços abrigo,
Quero dizer-te o quanto meu corpo padece,
Quando não tenho o teu, amante e amigo.


Quero que sintas meus beijos em devaneios,
Quero-te a cabeça reclinada em meu peito,
Quero beijar e afagar os teus seios,
Quero possuir-te, nua, linda, no leito.


Quero depois dormir a teu lado,
E sonhar, por isto muito eu clamo,
E desejo, ainda, quase calado,
Acordar dizendo que te amo.
 

 

 


27.05.1971


Danúbio Azul


Ao som do Danúbio, enquanto a nave espacial dança
no espaço, sinto e vejo o que sinto; algo mais belo e mais
grandioso que a aventura empreendida pelo homem na
busca de sua natureza: sinto e vejo amor.

No embalo da valsa, no crescer dos acordes, eu vejo teu rosto,
teu rosto distante aproximar-se a cada compasso, como a
nave se aproxima da estação, lá em cima, no espaço.

Na odisséia que empreendo para conservar eterno teu amor,
sinto-me muito mais homem do que realmente sou.

O amor é eterno como o espaço, como a valsa, e ,
enquanto uns tentam a conquista sideral, eu tento conquistar a
ti, cada vez mais, como se estivesse em Marte e daí seguisse
para Vênus e daí para Júpiter, até possuir todo o Universo.

Na conquista que me atiro, quero teus olhos, teus beijos,
teu amor, até possuir todo teu corpo, todo o teu ser.

Da mesma forma que o homem quer os planetas, eu te quero,
com uma diferença: não quero estar sobre teu corpo, mas dentro dele.

Quero tua mente dominada, não para que faça coisas maléficas
ou para que te sintas escrava de minha vontade. Quero que em
tua mente exista sempre razão, confiança, amor, para que ao
invés de te sentires prisioneira, te sintas como minha eterna companheira.
 

 

 


07.09.1971


O Telefone

Seis horas da tarde.
O pessoal começa a deixar o trabalho.
Uns vão para casa, outros à escola e outros, ainda,
vão tirar o cansaço do corpo com um bate-papo num bar qualquer.

O relógio marca seis horas e trinta minutos. E eu continuo
sentado à minha mesa, como que a rememorar todos os
acontecimentos do dia. O cinzeiro está repleto de pontas
de cigarros, as mãos estão sujas, o rosto contraído.

A mente condicionada como trabalho torna-se, de repente,
lânguida, serena, tranqüila. A idéia da mulher amada avoluma-se,
tomando corpo em meu cérebro cansado de pensar. O rosto
descontrai-se e mais um cigarro esfumaça a sala vazia.

O telefone toca e um sorriso de satisfação e ansiedade toma
conta de mim. A conversa é rápida, mas suficiente para fazer
com que eu esqueça um pouco todos os problemas do trabalho.

Nesta hora, não há o que pensar, nem o que fazer. Meu corpo,
solto, desliza na cadeira. O cigarro queima mais devagar,
o sorriso é contínuo. Foi com Márcia que eu falei ao telefone.
 

 



29.09.1971
Ouvindo o tema de Love Story

Querida eu hoje te lembro
Das coisas belas que há neste mundo.
Te lembro dos campos em flores,
Te lembro a noite repleta de estrelas;
Te lembro o mar, a lua e o sol;
Te lembro a vida, a paz, a alegria;
Te lembro o quão jovens nós somos.
Te lembro o amor eterno que nos une;
Te lembro meus lábios que beijam;
Te lembro minhas mãos que te afagam;
Te lembro meu corpo que anseia teu corpo;
Te lembro os planos que juntos fizemos;
Te lembro a beleza do amor;
Por isso querida eu te peço:
Não morras meu anjo, não morras.
 

 

 


07.10.1971

Freqüência

Segunda-feira...
Chove...
Nada para fazer...
Ressaca...
Semana inteira pela frente...
Que...
 

 



11.10.1971

Coisas que aconteceram comigo;
Gente que eu conheci.
Histórias reais por mim vividas;
É só o que tenho para contar.
Já não sei escrever versos,
Talvez nunca tenha sabido.
Todavia, a poesia não está na forma,
Nem na expressão.
O poeta vê poesia até numa pedra
Atirada ao chão;



Ivan Jubert Guimarães

Direitos reservados ao autor